Volta às aulas: será preciso muito acolhimento

Embora muitos pais estejam ansiosos pela volta dos filhos ao ambiente escolar, não se sabe ainda quando isso poderá acontecer de maneira segura para todos. Porém, independentemente se isso será daqui um, dois, três ou mais meses, uma coisa é fato: os professores devem estar preparados não só para ensinar o conteúdo programado, mas também - e talvez principalmente - para acolher os alunos, conversar sobre tudo que se passou, estarem abertos a saber o que eles sentiram e estarão sentindo naquele momento. Afinal, muitos podem ter acompanhado de perto alguma experiência de morte e todos certamente compartilharam da tensão que se abateu sobre todas as famílias.

(Crédito: Foto de Aaron Burden no Unsplash)

“Acredito que todos voltarão ansiosos, especialmente pelo 'tempo perdido' e com a responsabilidade de alcançarem os objetivos propostos para cada ano escolar. As famílias e as escolas devem entender que o mais importante é que todos os alunos fiquem bem emocionalmente. Os conteúdos poderão ser desenvolvidos, mesmo que com um pouco de atraso e, se as crianças estiverem bem, eles serão melhor assimilados. Paciência e respeito por cada criança deverão estar presentes, especialmente nesse momento”, afirma a psicóloga Karla Cerávolo, diretora da Organização De Umbiguinho a Umbigão.

É o que pretende fazer a coordenadora pedagógica Aluah Bianchi, da Escola Nova Geração, em Curitiba (PR), pois acredita que as crianças precisarão de uma atenção bem próxima. “Com certeza, depois desse longo tempo com a família, os alunos vão voltar diferentes. Trabalhamos muito o olhar e a escuta atentos ao que a criança nos traz, é nisso que teremos que focar: olhar pra elas, percebê-las. Será uma adaptação coletiva, para crianças, famílias e escola”, diz.

 

“Vivemos uma pandemia mundial e todos querem trazer suas experiências singulares de como lidaram com tudo isso. O que não podemos é agir como se nada tivesse acontecido. Dessa forma, perderíamos a chance de aprender grandes lições com tudo isso” (Karla Cerávolo, psicóloga)

 

É tempo de pensar e refletir o impacto da quarentena em cada comunidade escolar, sua realidade e contexto e em como avançar, para enfrentar as perdas significativas que as crianças tiveram ao longo desse tempo. “Mesmo que tenham tido encontros virtuais coletivos, não é a mesma coisa, sabemos como o convívio presencial é formador, como as crianças aprendem entre pares e não só com seus professores. Se teve um ganho nesse período foi justamente a valorização do papel formador da escola na vida de uma criança, da importância do professor e seus colegas, trazendo outros pontos de vista distintos que não só ampliam a visão de mundo, como expandem o aprendizado de cada um”, defende Isabel Moreira Ferreira, gestora do grupo de apoio à escolarização Trapézio, que atende crianças da rede pública do ensino fundamental com problemas nas aprendizagens.

 

Virar ou não a página

Quando esse momento do retorno às aulas chegar, será que ainda assim as crianças vão querer falar de coronavírus, quarentena e afins? A escola deve abordar esses assuntos ou mudar completamente o rumo da prosa? “Vivemos uma pandemia mundial e todos querem trazer suas experiências singulares de como lidaram com tudo isso. O que não podemos é agir como se nada tivesse acontecido. Dessa forma, perderíamos a chance de aprender grandes lições com tudo isso”, opina Karla.

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Para Aluah, os educadores não devem chegar para os alunos com tudo pronto e montado, sem ouvir o que eles têm a dizer, sem que eles tragam suas histórias de vida para dentro da escola. “As experiências nos constituem enquanto seres humanos e nunca podemos torná-las menores do que realmente foram. Temos que dar a devida importância a este momento, que com certeza foi um marco na vida das crianças e dos adultos que as rodeiam”, diz.

 

Contato com a morte

Provavelmente, um maior número de crianças teve contato com a perda de um ente querido ou testemunhou o adoecimento e a preocupação com o bem-estar de si próprio ou de algum parente que adoeceu por conta do coronavírus. As escolas provavelmente vão se deparar com essas perdas e tristezas nos relatos de retorno às aulas. “Ao professor, novamente sugiro acolher, escutar e oportunizar espaço para conversar sobre o que quiserem trazer. A morte faz parte da vida desde que nascemos, é inexorável. O homem, ao longo de sua vida, busca de várias maneiras dar algum tratamento a esse fato, seja por meio da arte, da música, da literatura, do cinema ou criando rituais nas mais diversas culturas", diz Isabel.

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A psicanalista acredita que a literatura pode ser uma ferramenta muito potente para dar contorno a esse momento que vivemos. “Existem muitos livros infantis e infantojuvenis à disposição do professor que podem tangenciar o tema da morte numa leitura compartilhada de maneira a propiciar um espaço elaborativo para todos”, diz.

(Texto e reportagem de Fernanda Montano)

 

Dicas de livros que falam sobre morte:

1)  Pode chorar coração, mas fique inteiro

2) Meu filho pato

3) Contos de morte morrida

 

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