Um lugar para ler (e fazer) livros

 

 

Crianças brincam entre mesas, cadeiras, máquinas de tipografia. Bem pequeninas, entram em rodas de mediação de leitura. As mais crescidas constroem livros que, mais tarde, serão lidos por colegas da mesma série. Isso tudo no ateliê-escola Acaia, onde jovens do bairro paulistano da Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, passam manhãs e tardes ocupados com o universo das artes, incluindo a leitura e a feitura de livros.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Desde 1997, as crianças da região são convidadas a frequentar o lugar, ainda quando era apenas o ateliê da artista plástica Elisa Bracher. Ela abria o espaço para moradores das comunidades da Linha e do Nove e do conjunto habitacional Cingapura, todas próximas ao Ceagesp. As aulas de marcenaria concedidas ali pela artista evoluíram para um espaço onde as crianças poderiam aprender diferentes técnicas de artes. Passaram a ocupar o espaço também para estudar após a aula. Do ateliê surgiu uma escola em 2017, que, desde o seu nascimento, dialoga com as artes e o fazer artístico.

É no quinto ano quando as crianças do Acaia começam a brincar de fazer livros. Trabalham na escrita e compõem o objeto manualmente. Imprimem a capa, a folha de rosto, fazem a edição e o distribuem dentro da própria escola. Há um trabalho de tipografia e xilogravura, técnicas em que são feitas a ilustrações. “Esse pensamento de sair do ato criador e chegar a um produto físico que você distribui entre os seus pares é uma coisa que para nós é muito cara. Acontece em vários níveis, tanto na escola, com cartazes para datas comemorativas, quanto com os adolescentes, que produzem títulos comerciais”, explica Fabrício Lopez, coordenador de artes e do Fundamental 2, ao se referir ao XiloCeasa, grupo de adolescentes do ateliê que ilustra livros de autores como Murilo Rubião e Alice Ruiz.

 

 

Ali, no entanto, a biblioteca é tão fundamental quanto o ateliê de artes, graças ao trabalho da escritora Beatriz Bracher, que chegou a dar aulas no espaço. Nas prateleiras da biblioteca, destaque especial para uma doação de um acervo histórias em quadrinhos, incluindo títulos inéditos. Na época, o gesto inspirou até uma batalha de quadrinhos disputada entre os estudantes, em que venceria quem fizesse os melhores desenhos e as melhores histórias.

Já as disputas dos maiores acontecem nos saraus, eventos que marcam presença em toda a região ao menos duas vezes por semestre. É ali que os jovens competem para ver quem tem a melhor performance, quem cria o melhor texto. Evento aberto, os adolescentes se apresentam para todos os visitantes, em geral moradores da região.

Esse contato com a literatura começa desde os três anos de idade, quando as crianças do Acaia já participam de rodas de apreciação literária. O convite é para que os pequeninos possam apreciar um bom livro em espaços e contextos não escolarizados, fora da biblioteca. Ainda há um trabalho para que eles saibam reconhecer o que estão lendo, o título e os autores de cada obra. O cenário pode ajudar a compor o que nessa fase sempre se traduz em uma grande brincadeira: um espaço que imita uma praia, por exemplo, pode garantir uma leitura descontraída.

A maior preocupação é a de não escolarizar os livros. Teca Soub, diretora do Acaia, conta que a ideia é propor avaliações de leitura sobre obras literárias apenas quando os alunos forem mais velhos e tiverem um distanciamento. “É tão sagrado que usamos texto informativo, notícia de jornal, qualquer outra coisa, mas não temos essa avaliação.” Em vez disso, um “caderno do leitor”, em que os estudantes registram as experiências de leitura, é um convite a terem memória dos livros mais importantes que leram na infância.

E se o Acaia já é cercado por livros em todos os espaços – nas oficinas de tipografia ou em sala de aula, na biblioteca ou nos saraus –, a vontade é de expandir ainda mais esse alcance. A educadora conta que trabalha na catalogação das obras para que, em breve, elas possam ser emprestadas a qualquer um, tornar o espaço numa biblioteca comunitária. É assim que as crianças poderão levar os livros para casa, mostrar para as famílias e eventualmente ler com elas, criando uma comunidade leitora.

Enquanto esse momento não chega, a alternativa é promover grupos de leitura entre mães e pais. Aconteceu quando a ativista Malala Yousafzai veio ao Brasil em julho deste ano. Com o aumento de interesse pela mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz, o instituto promoveu um clube de leitura de sua biografia, Eu sou Malala.

Assim como os familiares estão envolvidos com a educação das crianças, a interação entre os alunos da escola e os participantes do ateliê acontece de forma intensa, multiseriada e multietária, como explica Fabrício. “O que temos hoje em dia é uma escola que se alimenta e faz uso de uma série de profissionais que estão no próprio ateliê e que assimilou todo esse programa vinculado ao fazer que foi desenvolvido anteriormente.” Na oficina de design do ateliê, por exemplo, são desenvolvidos jogos educativos que depois são utilizados em sala de aula, na escola. As apostilas utilizadas são ilustradas pelos próprios alunos. Durante todo um semestre, todas as aulas foram gravadas pelos alunos da oficina de audiovisual.

Com essas participações, os alunos vão ocupando espaços. É o caso daqueles que antes sequer conheciam a região central da cidade, cheia de instituições culturais. O ateliê propõe visitas não só a exposições no Centro, mas também a espaços como a Biblioteca Parque Villa-Lobos, a dois quilômetros de distância. “No começo era difícil, eles tinham muita vergonha. Mas os educadores de lá [da biblioteca] fizeram um trabalho muito bacana de recepção. Hoje a comunidade aproveita muito, tem uma boa ocupação”, conta Teca. “São duas favelas que estão no berço de ouro, do lado da Vila Madalena, e temos crianças que nunca chegaram em Pinheiros. É o desconhecido, o ‘eu não sei quem eu sou’, ‘eu não sou reconhecido ali como uma pessoa’. Queremos discutir a questão da identidade com as crianças.”

  

 

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