Um livro que é cheio de perguntas

 

 

 

Um livro que é um caminho ou uma pergunta. É assim que a educadora e editora Dani Gutfreund, especialista em literatura e uma das fundadoras do Lugar de Ler, espaço voltado para a leitura e para a infância, define o livro-álbum, um gênero literário em que o texto, a imagem e o design oferecem muitas narrativas aos mais diversos leitores, crianças ou adultos.

 

 

Para tratar melhor do tema, até o final de junho, ela oferece o curso Livro-álbum: leitura e análise, que se estende ao longo de 14 aulas (ainda é possível embarcar nos encontros e vale também ficar atento às próximas edições). Nos encontros, ela aborda o conceito do livro-álbum como linguagem híbrida e oferece a apreciação de obras importantes desse gênero. Entre os autores estudados, há nomes como Randolph Caldecott, Maurice Sendak, Bruno Munari, Renato Moriconi e Odilon Moraes, autor que, aliás, já falou sobre os chamados livros-álbum no Blog da Letrinhas.

Para a especialista, a potência de um livro-álbum reside justamente nessa leitura em camadas, que oferece ao leitor, tanto iniciante quanto mais experiente, diferentes "vias de acesso" à história e a seus sentidos. Ali, ele pode ter uma participação ativa, com diferentes papéis. Pode ser desbravador das histórias narradas, investigador e até coautor. É que, em tempos de tantas respostas prontas, os livros-álbum são obras que, acima de tudo, perguntam. Rejeitam fórmulas e afirmações com pouca reflexão.

Pedimos a Dani Gutfreund que trouxesse cinco pontos que vale a pena destacar sobre os livros-álbum. A resposta você confere abaixo.

Leitura em muitas camadas

“O livro-álbum é uma linguagem híbrida, que desafia os limites da literatura, da arte e do design – e isso pede que o leitor aprenda uma nova gramática. Como o significado é tecido na composição de palavra, imagem e elementos gráficos, convida a um outro modo de ler, em que a compreensão se vale de sentidos que vão além da visão. Forma e conteúdo são indissociáveis na composição da narrativa e as características de cada elemento colaboram na criação de sentido; assim, a leitura do livro-álbum pode ser feita em diversas camadas, oferecendo diferentes vias de acesso.” 

Apreciando arte pela primeira vez

“O livro-álbum também pode ser visto como caminho – ou como a primeira galeria de arte da criança, emprestando a linda definição de Kveta Pacovska –, não apenas para o leitor iniciante, mas também para um adulto que, nessa leitura, se sente acolhido, compreendendo que isso vai muito além da decifração de palavras ou frases, mas se define no todo: para muitas pessoas é um trampolim para outras leituras, uma vez que se aproximam, como num jogo, de tudo o que implica a leitura.” 

Leitor-desbravador, leitor-investigador, leitor-coautor

“É ao evidenciar a participação ativa do leitor – mas não somente aí –, o qual não apenas recebe conteúdo, mas gera conteúdo em seu papel de leitor-desbravador, leitor-investigador, leitor-coautor, que esse livro traz à tona as ações que a leitura envolve, levando-as, muitas vezes ao extremo (quantas vezes precisamos voltar à página para repensar uma hipótese ou observar mais atentamente uma imagem em busca de indícios, quantas outras reformulamos ou emendamos as hipóteses levantadas ao longo da história?).” 

"Intimidade de leitura"

“Um livro que convida a compartilhar a intimidade da leitura, na qual idealmente, temos dois leitores, fisicamente próximos, possibilitando a “posição de leitura” – com o livro entre as mãos – para ambos, de modo que compartilhem o campo de visão.”

Páginas que carregam perguntas

“E, suponho que, talvez o aspecto – hoje – mais importante da leitura dos livros-álbum seja o fato de ser um livro que pergunta, num momento em que vivemos de respostas, de modo geral alheias e consumidas irrefletidamente. Um livro que refuta fórmulas e rompe fronteiras o tempo todo.”

 

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