Um abecedário de mulheres extraordinárias

 

 

Carolina Maria de Jesus, Pagu, Nise da Silveira, Dandara, Maria Firmina dos Reis, Ana Comnena, Thereza Tang e Elizabeth Blackwell. Além de fortes, destemidas e transgressoras, o que essas mulheres têm em comum? Elas figuram as páginas dos livros Extraordinárias - Mulheres que revolucionaram o Brasil, escrito por Duda Porto de Souza e Aryane Cararo em 2017, e ABCDelas, de Janaina Tokitaka, recentemente publicado. Em ambas as obras, as autoras buscam levar ao público o reconhecimento da pluralidade de narrativas femininas e chamar atenção para mulheres históricas que merecem sair da invisibilidade.

Extraordinárias traça o perfil de mulheres revolucionárias de etnias, regiões e tempos diversos, desde o século XVI até os dias de hoje. Já em ABCDelas, cada letra do albafeto destaca uma mulher que protagonizou uma carreira, desde “a” de aviadora até “z” de zoóloga. O livro reúne heroínas do dia a dia, muitas delas importantes também por romper com a ideia de profissões consideradas “masculinas”, apresentadas em textos curtos e bem-humorados.

A partir desse encontro temático entre as autoras, arranjamos uma boa conversa entre elas, numa espécie de entrevista cruzada – umas perguntam às outras. Assim, Aryane e Duda questionaram Janaina a respeito de alguns processos criativos para a escrita e ilustração do livro, antigas inspirações e novas ambições. Janaina, em contrapartida, levou à dupla questões sobre a importância de mulheres apoiarem outras mulheres, perguntou como se deu a escolha das personagens e investigou a opinião delas acerca de futuras revoluções: afinal, quais serão elas?

 

Ilustração de Janaina Tokitaka para ABCDelas

 

Confira a entrevista cruzada completa a seguir para saber mais.

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Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - Na infância, o que você sonhava em ser quando crescer? Quais sonhos dessa época você transportou para o livro?

Janaina Tokitaka - Sempre sonhei em escrever e desenhar. Quando descobria que quem escreveu algum livro que eu adorei era mulher, ficava sempre muito feliz! Foi assim com as irmãs Brontë, com a Beatrix Potter... Gostava muito (e ainda gosto) de pesquisar as biografias das autoras, como tinha sido a vida delas e onde estas vidas se pareciam com a minha. Acho que, em parte, esse interesse alimentou a vontade de escrever este livro.

Janaina Tokitaka - Adoro o título do livro de vocês. O que, para vocês, é uma mulher "extraordinária"?

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - A definição de extraordinário diz que a palavra representa aquilo que está fora do comum ou do previsto, que é notável, raro, singular. A sensação é de que o adjetivo está destinado a superheroínas ou superheróis, a momentos e ações próprios de grandes líderes. É por isso que essa palavra é tão boa para o propósito do livro. Para nós, TODAS as mulheres são extraordinárias. Tornar-se mulher neste mundo é ser capaz de desempenhar inúmeros papéis, sendo cobrada e exigida em dobro, trabalhando mais, ganhando menos, conciliando mais funções, estando mais exposta ao perigo e tendo de lutar para ter voz, respeito e igualdade de direitos. Isso, por si só, já faz da trajetória de alguém uma pessoa extraordinária. Além disso, todas nós podemos fazer ações extraordinárias e, inclusive, mudar os rumos do nosso universo ao redor, seja ele nossa casa e família, seja nossa comunidade, seja nosso país. Só precisamos acreditar que somos fortes e ter a confiança nesse potencial. Acreditamos no poder transformador da empatia - um desejo que guia nossos livros é trabalhar narrativas que fomentem a empatia entre jovens. Nada mais fundamental na formação de pessoas extraordinárias.

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - Um dos principais desafios que encontramos no processo criativo de Extraordinárias foi definir as mulheres que representariam cada profissão. O que guiou suas escolhas para o livro ABCDelas?

Janaina Tokitaka - Queria que fossem personagens bastante diversas, com mulheres de todas as partes do mundo, de épocas diferentes, latinas, negras, amarelas... Daí fiz algumas escolhas e, dentro deste recorte, decidi por aquelas cujas histórias eram mais interessantes e bacanas de serem recontadas desta forma meio biográfica, meio ficcionalizada.

Janaina Tokitaka - Acho muito importante que as mulheres se apoiem e se elogiem! Duda, o que você nota de extraordinário na Aryane? E você, Ary, o que acha que a Duda tem de extraordinário?

 

Ilustração Bárbara Malagoli para o livro Extraordinárias

 

Duda Porto de Souza - A Ary sempre usa a voz dela para defender as minorias e não perde nenhuma oportunidade de se posicionar e lutar contra injustiças sociais. Ela têm um senso de justiça que ilumina todos os caminhos, eu confio na opinião dela sobre qualquer assunto. Ter uma parceria com alguém que tenha isso tão apurado é o maior privilégio do mundo. Mesmo entre a gente, foram muitas as vezes que ela se posicionou sobre preconceitos contra pessoas LGBT falando sobre mim, sua parceira de trabalho e amiga. Com isso, eu realmente não consigo imaginar uma pessoa melhor para criar uma criança hoje no mundo. E também por sua integridade, lealdade, força e criatividade. Além de ser uma jornalista brilhante, experiente, autoral, com a qual eu aprendo em absolutamente todas as trocas. Com a qual eu aprendo a escrever.

Aryane Cararo - A Duda é a pessoa mais doce que conheço. Dona de um coração imenso, sempre pensando no próximo e com um senso de urgência no respeito aos direitos humanos que é raro de encontrar. De modo manso, é também uma das maiores articuladoras que temos no Brasil hoje, capaz de encantar, tocar corações e juntar todo mundo em prol de um projeto para o bem da coletividade. A Duda é muito bem informada, sempre me traz de informações e pontos de vista novos, e naturalmente agregadora e isso faz muita diferença para nossa sociedade. E ela acredita nas coisas boas, está sempre tentando ver o lado positivo de tudo e mobiliza-se para fazer acontecer. Talvez ela mesma não saiba que, por trás da imagem frágil, esconde-se uma mulher gigante. Gosto muito da delicadeza e gentileza com que ela trata todas as questões, sempre procurando as melhores palavras e a forma de agradar o maior número de pessoas. Olho em seus olhos e sinto a esperança de uma sociedade mais justa e igualitária, porque ela tem a beleza desses sentimentos em seu interior. E sinto orgulho da sua luta pela educação e pelo respeito à comunidade LGBT. É o tipo de pessoa que você quer do lado para sempre, sabe? Não só para sonhar com um mundo melhor e dividir projetos, como para abraçar, conversar e aprender.

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - O que nasceu antes? O texto ou a ilustração? Como você escolheu cada elemento representado nas páginas que ilustram o ABCDelas?

 

Ilustração Janaina Tokitaka/ABCdelas

 

Janaina Tokitaka - Como boa autora de livros ilustrados, as coisas caminharam juntas. Primeiro decidi a linguagem visual, depois fui para o texto e, então, voltei para as imagens! As vinhetas fazem referência à algum elemento da vida das retratadas - um instrumento usado em sua vida profissional, alguma planta que elas gostavam... Alguns destes elementos o leitor será capaz de identificar no texto, outros permanecerão mais misteriosos.

Janaina Tokitaka - Que outras revoluções vocês esperam ver no Brasil?

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - Nosso maior desejo é que uma educação de qualidade, ética, inclusiva e laica, já presente entre grupos independentes e educadores comprometidos, seja parte da realidade de todos. É a base para todas as revoluções que podem garantir um futuro mais justo para todas e todos os brasileiros. Só a educação pode semear o respeito à diversidade, a luta pela igualdade, fornecer argumentos na batalha pela justiça social, criar cidadãos políticos conscientes de seus direitos e evitar que cometamos os erros do passado.

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - Quem você gostaria que lesse esse livro? Por quê? Que leitura você gostaria que sua filha Rosa tirasse desse livro?

Janaina Tokitaka - Todas as meninas, para que elas conheçam as histórias das mulheres que traçaram um caminho incrível antes delas, e também os meninos, para descobrirem tantas heroínas incríveis da vida real. De um jeito ou de outro, é muito bom ter referências de vida do gênero feminino.

Acredito muito no poder do livro de validar nossas vidas e experiências, e é isso que desejo para o ABCDelas!

Janaina Tokitaka - Percebi no livro de vocês a intenção de retratar as mulheres em sua diversidade e vejo que isso se refletiu, também, nas ilustrações, cada uma com um estilo e de ilustradoras diferentes. Gostaria que vocês falassem um pouquinho sobre a importância da defesa da diversidade.

 

Ilustraçao de Joana Lira/Extraordinárias

 

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - Falar sobre a história das mulheres no Brasil sem priorizar a pluralidade, a diversidade e as interseccionalidades presentes nessas narrativas não seria contar a história do nosso país de forma mais igualitária. Mulheres negras, lésbicas, indígenas, mulheres trans. Contemplar todas as regiões do país foi outra prioridade para dar representatividade a todas as brasileiras. Mulheres camponesas, mulheres nordestinas, são tantas narrativas que representam a imensidão e a riqueza das trajetórias do nosso país… E falar do passado e do presente, pois nossas heroínas ainda estão por aí, cada qual com sua luta. A opção por ter várias ilustradoras, com diferentes técnicas, veio exatamente para retratar essa diversidade que é ser mulher no Brasil.

Janaina Tokitaka - Há algo de universal nestas vidas tão diferentes entre si?

Aryane Cararo e Duda Porto de Souza - A solidariedade, que transcende agendas pessoais, a luta, o ativismo e qualquer polarização ou divergência de pensamento na luta por direitos humanos e uma vida digna. Embora as trajetórias sejam diferentes, todas convergem no ideal por uma sociedade mais justa e na quebra de paradigmas e convenções sociais para que isso pudesse acontecer.


 

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