Um Shel Silverstein para cada leitor (pequeno ou grande)

Os livros de Shel Silverstein (1930-1999), ou “tio Shelby”, como ele se apresenta em algumas histórias, a princípio são direcionados ao púbico infantil, sem poupar as crianças das complexidades da vida. No entanto, os adultos com frequência são tocados pela obra do autor. E garantimos que existe um Shel para cada leitor, seja ele grande ou pequeno! Como talento era coisa que não faltava ao artista americano, ele presenteou a literatura infantil com livros cheios de humor, personagens inesquecíveis e reflexões filosóficas profundas, tudo com a simplicidade de quem consegue falar apenas o que importa.

Inclusive, as quartas capas dos livros do autor publicados pela Letrinhas foram todas escritas por alguns de seus leitores adultos ilustres: Zeca Baleiro em Fuja do Garabuja, Mia Couto em A árvore generosa,  Hélio Ziskind em Uma girafa e tanto, Emicida em Leocádio, o leão que mandava bala,  Gregório Duvivier em Quem quer este rinoceronte? e Fernanda Takai em A parte que falta e A parte que falta encontra o Grande O.

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Mas é aí, qual será o seu Shel? Confira com a gente!

 

Fuja do Garabuja

Adultos: você curte poesia, monstros e humor ácido e nonsense? Este livro é o último lançamento de Shel Silverstein pela Companhia das Letrinhas e tem tudo isso: são poemas que apresentam criaturas bem estranhas, algumas menos assustadoras que outras, mas todas igualmente divertidas.

Crianças: é uma brincadeira de inventar nomes e bichos que não existem, e a possibilidade de sentir medo e rir dele ao mesmo tempo.

"O Jivrolé

Rastejando, o Jivrolé foi saindo do mar.

Ele pega a todos, mas a mim não vai pegar.

Não, você não vai me pegar, não, seu Jivrolé;

Pode até pegar os outros, mas a mim não pe..."

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Quem quer este rinoceronte?

Adultos: leitores com dificuldade para argumentar, apenas aprendam com o narrador de deste livro sobre a arte do convencimento. Não que um rinoceronte fofo como este precisasse de muito papo para ser adotado, mas o trabalho aqui é fino!

Crianças: elas vão amar as mil e uma utilidades do rinoceronte como bichinho de estimação e rir muito das situações inusitadas em que ele é colocado.

"Abana a cauda, contente,

é bom de abraçar toda hora

e muito útil ao redor

da casa onde a gente mora."

 

Uma girafa e tanto

Adultos: acumuladores em geral, este é de vocês. Se você não tem nada de minimalista e não resiste a uma extravagância quando ela aparece na sua frente, vai se identificar com o menino deste livro, que transforma sua girafa num cabideiro e tanto. Também pode se inspirar na girafa, que não fica muito feliz e aos poucos vai desapegando da quinquilharia.

Crianças: os leitores pequenininhos adoram os contos acumulativos, mas até os maiores vão curtir este aqui. A repetição e a soma dos elementos é superelaborada e divertida, descrita de maneira diferente a cada página. E, por fim, a surpresa: este é um conto que se revela desacumulativo, em que a girafa subtrai os elementos e fica leve e satisfeita no final.

"Se der a ela um flautim

e ela tocar pi-ru-lim...

a coisa então fica assim:

uma girafa e tanto com chapéu de rato,

de terno elegante e rosa no olfato,

com uma vespa de ferrão que esfola

mais um sapato que respinga cola

tocando pi-ru-lim no seu flautim."

 

Leocádio, o leão que mandava bala

Adultos: para aqueles que estão um pouco perdidos e desconectados da sua essência. Não podem mais voltar a ser o que eram e tampouco desejam seguir da maneira como estão agora. Maravilhoso também para lembrar o quanto de fato precisamos de todas as sedutoras “necessidades” que a nossa sociedade criou (conversa com a Girafa neste ponto), mas sem respostas prontas.

Crianças: este é um Shel para os pequenos que já têm mais fôlego de leitura e conseguem ler de maneira autônoma. Para os menores, é uma boa sugestão para ler em capítulos antes de dormir.

"Ele não sabia direito o que ia acontecer com ele, mas sabia  que alguma coisa ia acontecer, porque alguma coisa sempre acontece, não é verdade?"

 

A árvore generosa

Adultos: especial para mães e mulheres que se doam além de seus limites para fazer alguém feliz. E para lembrar que a Terra também é mãe e talvez já tenha nos entregado tudo o que podia.

Crianças: história emocionante de um vínculo profundo, como o que a criança estabelece com a mãe e seus cuidadores mais próximos. Claro, elas sempre querem mais. E aqui o final aberto e melancólico deixa espaço para conversas sobre afeto, necessidades, cuidado com o outro, atenção e o fato de que nem sempre as coisas acontece como queremos.

"E assim o menino

subiu pelo tronco,

colheu as maçãs

e levou-as embora

 

E a árvore ficou feliz."

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A parte que falta

Adultos: para todo mundo que já quis muito encontrar uma coisa e, quando deu match, percebeu que a vida nem melhorou como imaginado. Um singelo tratado filosófico disfarçado de livro infantil, sobre os desejos que nos movem e a possibilidade de conviver e ser feliz com as partes que nos faltam.

Crianças: os mesmos motivos dos adultos, com a devida adaptação de quais são os desejos para a idade da criança. Até as bem pequenas vão achar graça no círculo imperfeito que rola e canta mundo afora, tentando se encaixar sem sucesso em formas de tamanhos variados.   

"Rolou para longe

e, por estar completo,

rolou mais

e mais rápido.

Mais rápido

do que jamais rolara!"

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A parte que falta encontra o Grande O

Adultos: você já sentiu que, sem ter alguém ou alguma coisa, era impossível sair do lugar onde estava? Mas aí você encontra uma pessoa que te desafia: e se, na verdade, você conseguisse, sim, se mexer sozinho? Uma continuação sensível, profunda e engraçada de A parte que falta.

Crianças: como em A parte que falta, a justificativa é a mesma dos adultos. Aqui a personagem principal é a “fatia de pizza” que espera ser encontrada pelo todo que a completaria e os pequenos vão achar muito engraçado quando ela começar a “rolar” por conta própria.

"A parte que falta se sentou sozinha...

à espera de que alguém

aparecesse

e a levasse a algum lugar."

***

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