Seu filho se sente desajustado?

Um peixe fora d’água. Um estranho fora do ninho. Patinho feio. Todas essas frases, referências, jargões são reflexo de uma realidade que acontece já na infância: o se sentir desajustado, não se encaixar nos padrões, estar isolado. E não é difícil encontrar uma pessoa que já não tenha se sentido vez ou outra rejeitada. Afinal, somos seres sociais e estamos sujeitos à presença do outro na nossa vida. Como não é possível controlar o outro, podemos ser vítimas da rejeição. Mas até que ponto o isolamento pode ser prejudicial? Como lidar com esse problema? E, principalmente, como identificar que uma criança está sendo isolada ou se sentindo assim? 


(Capa do novo livro do Homem-Cão, que fala sobre esse sentimento de não se encaixar em um grupo)

Para a professora Lucimar Rosa, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação para as Relações Étnico-Raciais (ErêYá), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o problema do isolamento não é da criança que está se sentindo isolada, mas sim do grupo que o isola. “Nenhuma criança escolhe se sentir assim. Se isso está acontecendo, é porque ela está sendo vítima de uma situação de discriminação, seja pelo motivo que for”, diz. E há muitas maneiras de trabalhar essa questão, sendo os livros um caminho importante - a literatura está cheia de personagens fora do padrão e que podem virar uma boa referência para conversar sobre o assunto. É o caso do novo livro do Homem-Cão, um policial metade humano, metade cachorro, que acaba sofrendo bullying por ser diferente e não se encaixar nem no mundo dos homens, nem dos cachorros.  

Ainda segundo a estudiosa, é preciso saber diferenciar o desejo de estar sozinho com o isolamento. “É normal que todos nós, também as crianças, tenhamos momentos em que desejamos estar sozinhos. Isso é natural. No entanto, é preciso estar atento à recorrência disso”, alerta. Como seres sociais, precisamos dos outros para nos tornarmos indivíduos e pertencer a um grupo faz parte da construção social do indivíduo. A infância é o momento em que as interações mais acontecem, pois é partir dela que o ser humano se constitui. “Fazer parte de um grupo, de uma comunidade, nos faz termos referência daquilo que somos”, explica.

São muitos os fatores que podem ser gatilhos para que a criança crie esse sentimento de “desajuste”. Os mais comuns estão relacionados a características físicas, como peso, tamanho e outros. Quando isso acontece, é preciso ficar atento, pois pode estar havendo discriminação e preconceito. “Muitas vezes, as crianças repetem discursos e têm dificuldades em aceitar diferenças. Por isso, é preciso nomear esse tipo de atitude”, explica Lucimar.

(Trecho do novo livro: "O Homem-Cão: o confronto selvagem")

 

Como identificar o isolamento?

Não é difícil identificar uma criança que vem sofrendo rejeição nos ambientes que frequenta, sobretudo na escola. Baixa no rendimento escolar, falta de vontade de realizar atividades, mudanças nos hábitos alimentares, estar mais retraída são apenas alguns dos “sintomas” que podem ser consequência de um isolamento. Como pais, professores e responsáveis pelos pequenos, é preciso estar atento aos sinais que eles dão, que normalmente são claros. “Os tutores, sejam pais, avós, professores, tios, têm responsabilidade pela mediação da sociabilidade da criança. Por isso, é por meio deles que essa situação tem que se resolver”, diz Lucimar. 

E na prática, como fazer? Se o problema for na escola, é preciso primeiro identificar o que está acontecendo e depois comunicar os professores e a equipe pedagógica. “Os professores têm total responsabilidade nisso. Eles é quem vão propor que as diferenças sejam minimizadas e vão identificar esse tipo de situação por meio de atividades que exigem interação”, explica a pedagoga. 

Se o isolamento está acontecendo dentro de casa - provocado pela chegada de um novo irmão, pela separação dos pais, mudança de cidade ou qualquer outro motivo- , é preciso apenas uma coisa: atenção. Aliás, atenção é fator fundamental na construção de um sujeito seguro e empoderado, para usar uma palavra que anda em alta. Uma criança que se sente acolhida em casa, que se faz ouvir e que se sente amada cresce muito mais segura de quem ela é. “O adulto possui responsabilidade direta na organização das relações sociais das crianças”, lembra Lucimar.

Além disso, você pode aproveitar o momento para ensinar seu pequeno a lidar com a frustração. Afinal, ela faz parte da nossa vida e precisamos de resiliência constantemente para lidar com elas. Mostre à criança que precisamos nos adaptar às situações e, sobretudo, que não há apenas um grupo de pessoas disponíveis. Há muitas outras que podem ser amigas dela e contribuir para o seu crescimento.  


(Trecho do novo livro: "O Homem-Cão: o confronto selvagem")

 

Histórias que ajudam

A série do Homem-Cão aborda com muito bom humor a questão do sentir-se desajustado. E chegou história nova: O Homem-Cão, o confronto selvagem. Nela, o protagonista é acusado de um crime injustamente e começa a ser perseguido por algumas pessoas por ser diferente - e ele terá de encontrar seu lugar entre cães e pessoas. Aproveita para ler com seu filho e conversar sobre rejeição, isolamento e diferenças.

+ Ler te dá superpoderes: saiba tudo sobre o Homem-Cão!

 

 

 

Leia mais:

+ Homem-Cão passeia pelos clássicos

+ Quem é o pai do Capitão Cueca?

Acesse a Letrinhas nas redes sociais