Richard McGuire, de 'Noite vira dia' e 'Aqui': "As coisas estão em um fluxo constante"

O carnaval vira quarta-feira de cinzas.

E quarta-feira de cinzas vira o ano que começa de vez.

E o ano que começa de vez vira o cotidiano 

                                       - que esperamos que vire alguma coisa melhor.

 

Para retomar esse ciclo com boas energias, vamos conhecer um pouco sobre a vida do artista multitalentoso Richard McGuire na entrevista abaixo? 

Ele é o autor de Noite vira dia, recém-lançado pela Letrinhas. O livro se desenrola através das pequenas transições que acontecem ao longo de um dia: noite vira dia, dia vira luz, luz vira sol, sol vira raio - e assim uma coisa vira outra, até a noite seguinte, num ciclo que não se acaba. 

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O dia que começa a se transformar: Noite vira dia

Também é de autoria dele o prestigiado Aqui  (Quadrinhos na Cia, 2017), uma mistura de livro ilustrado com graphic novel em que, a cada página dupla que se abre, vemos um ângulo fixo de uma mesma sala ao longo do tempo, com janelas que retratam momentos distintos da “vida” daquele cômodo. As camadas de tempo e história que se sedimentaram naquele pequeno espaço - desde milhares de anos atrás - também trazem a ideia da transformação constante que aparece em Noite vira dia.

 

A sala de Aqui em tempos diferentes

Richard respondeu as perguntas por e-mail durante o carnaval.

Blog da Letrinhas: Noite vira dia foi publicado pela primeira vez em 1994 (nos Estados Unidos), e Aqui, em 2014 (no Brasil, a graphic novel saiu em 2017, quatro anos antes de Noite vira dia). Os dois livros parecem abordar um mesmo tema de fundo: coisas que se transformam em outras coisas com o passar do tempo - de maneira cíclica, como na natureza, e cronológica, como na história. É possível dizer que o Noite vira dia se desenvolveu até virar o Aqui, em um movimento parecido ao que se desdobra nos livros?

Richard McGuire: Acho que os dois livros são relacionados. Na verdade, eu publiquei uma primeira versão do Aqui, com apenas seis páginas, em 1989 [na revista de quadrinhos RAW, editada por Art Spiegelman], então daria para dizer que o Aqui talvez tenha orientado a forma do Noite vira dia, e não o contrário. Eles compartilham uma crença similar de que todas as coisas são interligadas, e de que tudo está em um estado permanente de transformação. 

BL: O que você acredita que mudou e o que permaneceu no seu trabalho entre um livro e outro? 

RM: O público ao qual eu me dirijo é a única diferença. Acredito que a maioria dos artistas volta aos mesmos temas e interesses. Eu sempre me interessei pela filosofia oriental, e acho que a raiz pode estar aí. Nesse caso, eu estava tentando condensar a ideia para que ela pudesse ser lida como um poema simples. 

Capa de Noite vira dia (Letrinhas, 2021)

BL: As crianças têm uma maneira bem particular de sentir o tempo; elas vivem mais o momento presente que os adultos. Ao mesmo tempo, elas têm uma percepção de que as coisas e o tempo podem se transformar organicamente, de maneira mais cíclica e mágica. Essas duas abordagens foram muito bem captadas no Noite vira dia. Você pode falar um pouco sobre isso? 

RM: Eu agradeço o comentário. Quando você é criança, um verão parece durar uma eternidade. A ideia de se tornar adulto é inimaginável, de tão longe que parece. Aos poucos você vai ficando mais consciente das coisas que são externas a você e começa a entender como as coisas se conectam. E então começa a fazer um monte de perguntas: por que o céu é azul? Por que neva? De onde vêm os bebês? O livro revela conexões de maneira simples, como, por exemplo, mostrando que uma árvore pode se transformar em papel e que o papel pode virar lixo, que pode ser reciclado. 

BL: Você já falou sobre a relação dele com o Aqui, mas como você teve a ideia para o Noite vira dia? Como todas essas ideias se juntaram no formato de um livro infantil ilustrado?

RM: Esse foi meu segundo livro para crianças e foi engendrado pelo primeiro, The Orange Book (que será lançado pela Letrinhas no segundo semestre de 2021). Esse livro foi inspirado por uma laranja que eu vi no trilho do metrô em Nova York. Isso me fez pensar em como ela tinha ido parar lá e como tinha sido a vida dela antes disso. Eu mostro uma árvore no início, e o leitor acompanha o destino de treze laranjas. 

Fiz uma lista de possibilidades, e fazer essas listas despertou a ideia para o Noite vira dia. Foi tipo um jogo para ver se eu conseguia criar uma quantidade suficiente de transições para um livro inteiro. No começo, havia as mais óbvias, que introduziam a ideia: “córrego - rio - mar”. Quando já dava para entender o que estava acontecendo, fui um pouco mais longe, com algumas reviravoltas inesperadas. Eu achava importante ter uma referência à morte como um fato da vida, e incluí o boneco de neve derretendo. A água faz crescer a grama, que depois a ovelha vai comer. 

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Transições que acontecem na praia: Noite vira dia 

BL:Noite vira dia foi lançado no Brasil em 2020, quase um ano depois do início da pandemia, um momento em que as nossas percepções de tempo e espaço se tornaram confusas e distorcidas. Ainda assim, o livro traz essa ideia de que observar as pequenas transformações que compõem um dia pode nos ajudar a focar no que é possível fazer aqui e agora. De que maneira você acredita que pode ser importante falar com as crianças sobre essas noções filosóficas, especialmente nos dias de hoje?

RM: Eu acho que o livro reforça a ideia de que as coisas estão em um fluxo constante, então esse momento estranho que nós estamos vivendo vai passar. As coisas vão mudar e vão ficar melhores. 

BL: Ao mesmo tempo, o livro oferece a crianças e adultos a perspectiva de que nós todos somos parte de algo maior; outra abordagem filosófica que se desenrola na narrativa. Então, depois de mais de vinte anos da primeira vez que foi lançado, ele permanece relevante e capaz de tocar as pessoas. Você poderia falar um pouco sobre isso?

RM: Muito gentil da sua parte. Um livro que tem mil anos e sempre significou muito para mim é o I Ching. É uma meditação sobre o cosmos, onde tudo está interconectado e tudo está em estado de mudança constante. Sua influência sobre mim é clara. 

BL: Além de ser escritor, ilustrador e quadrinista, você é músico. Como você diria que todas essas formas de expressão influenciam uma na outra?

RM: A ideia geralmente dita a forma que ela vai tomar. A minha sensibilidade como artista e os meus interesses permanecem os mesmos. Eu aproveito a flexibilidade que eu tenho, ela é o resultado de uma vida inteira de trabalho e muita sorte. Eu sempre sinto que estou aprendendo ao longo do caminho. 

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Richard McGuire em seu estúdio de Nova York, em 2018. Tony Cenicola/The New York Times

BL: Você conhece algum escritor ou músico brasileiro? Já esteve aqui alguma vez?

RM: Eu nunca fui para o Brasil, e adoraria fazer isso em algum momento. Não conheço nada de literatura brasileira. Tenho mais familiaridade com a música do Gilberto Gil, do Tom Zé e dos Mutantes. Recentemente eu estava ouvindo a versão em inglês de “Águas de março”, do Tom Jobim, e eu amo essa música, os versos são brilhantes. 

BL: Por fim, a pandemia afetou a sua forma de trabalhar de alguma maneira?

RM: Eu estava morando em Nova York quando tudo fechou, a sensação foi de distopia. Comecei a procurar uma forma de escapar e encontrei uma pequena casa que fica a uma hora e meia de trem ao norte. Tenho passado a maior parte do tempo lá. Levei alguns instrumentos musicais e comecei a tocar mais. Eu vou adorar fazer um show quando não houver mais distanciamento social. Também gostaria de gravar um LP, só por diversão. É bom estar fora da cidade, com trilhas e cachoeiras por perto. Também tenho um espaço de trabalho maior. Estou começando a planejar uma exposição para dezembro, uma minirretrospectiva, mas também estou animado para exibir alguns trabalhos novos, que acabei de começar, e isso me faz bem. 

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