Recuperando o fôlego: a luta antirracista em 2020

Por Débora Medeiros de Andrade

"Sankofa" é um adinkra que nos ensina a retornar ao passado para pegar o que se esqueceu e ressignificar o presente. A construção do futuro será a consequência desse aprendizado; logo, para que exista um futuro, é urgente encontrar o caminho de volta. Aqui no Brasil, desde 2003, novembro é o mês da Consciência Negra, um alargamento do “Dia Nacional da Consciência Negra” (20), em memória de Zumbi, último líder do Quilombo dos Palmares, assassinado em 1695.

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Ilustração de Vanina Starkoff para o livro Da minha janela, de Otávio Júnior

Em novembro de 2019, Flávia Lima, colunista da Folha de S.Paulo, chama nossa atenção para o fenômeno do “novembrismo" na mídia, que é a concentração da exposição de dados estatísticos e de uma série de ações midiáticas sobre a temática racial nesse mês. A jornalista diz que isso não é necessariamente ruim, mas gera frustração nas pessoas que gostariam de sentir-se vistas e representadas durante o ano inteiro, porém, ao contrário, são invisibilizadas. Diz ainda que a grande imprensa, que sempre refletiu os medos, preconceitos e preocupações da elite, ajudando a “normalizar o quadro de desigualdades raciais (...), agora precisa contribuir para superar essa narrativa”.

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No ano de 2020, presenciamos uma espécie de dilatação do novembrismo. Estamos em meio à pandemia de Covid-19, uma doença que causa dificuldade de respirar ou falta de ar, dor ou pressão no peito, perda de fala ou movimento, e que no mundo já atingiu cerca de 55 milhões de pessoas e levou mais de 1 milhão e 300 mil vidas em menos de um ano (no Brasil, foram quase 6 milhões de casos e mais de 165 mil vidas perdidas no mesmo período).

Neste cenário, o racismo foi um dos poucos assuntos discutidos o ano todo e em todo o mundo (como as eleições presidenciais dos Estados Unidos, as queimadas da Amazônia e as TICs - Tecnologias da Informação e Comunicação - aplicadas à educação).

A aparente tomada de consciência mundial de que #blacklivesmatter aconteceu após a viralização do vídeo do assassinato de George Floyd pelo policial Derek Chauvin, no dia 25 de maio, em Minneapolis. Foi uma história de 46 anos encerrada em oito minutos de sufocamento, seguida por centenas de manifestações de indignação nos próprios Estados Unidos, mas também em dezenas de países de todos os continentes.

Essa mobilização toda não foi pela morte de um homem negro, mas pelo acúmulo de mortes (físicas e simbólicas) de muitos homens, mulheres e crianças negras que, assim como Floyd, não conseguiram respirar desde o início dos processos de escravização vinculados à expansão colonial no século XIV. Até hoje, respirar é difícil para algumas dessas pessoas devido ao racismo estrutural que se materializa na seletividade penal e na violência policial, por exemplo.

Por aqui, no dia 02 de junho, a história do pequeno Miguel Otávio cessou ao cair do 9º andar de um prédio em Recife, vítima não de uma "simples" negligência, mas da "adultização" da criança negra, que é desprezada justamente por não ser considerada criança em suas necessidades, apenas um corpo negro, segundo a educadora Ione da Silva, da UFScar (Universidade Federal de São Carlos).

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Zumbi, George, Miguel. Apenas com esses três exemplos fica notório que, ao falar em racismo, estamos falando em um tipo de morte que transcende o corpo. A personagem Amada, de Toni Morrison, disse mais de uma vez: “Essa não era uma história para se passar adiante”. A história da não-vida do Outro, do estrangeiro, do “adulterado”, como citado pela autora em A origem dos outros.

 

Respiros possíveis

Mas, mesmo com voltas e voltas em torno da árvore do esquecimento, tivemos em 2020 bons momentos de fôlego. Um deles foi lembrarmos, no 15 de outubro, que o Dia do Professor aqui no Brasil foi criado por Antonieta de Barros. Em 1934 ela foi uma das três primeiras mulheres eleitas no Brasil, a única negra, e que levantava a bandeira política do poder revolucionário e libertador da educação para todos.

Nessa esteira, celebramos os resultados das eleições municipais ocorridas excepcionalmente em 15 de novembro. Tivemos um recorde de pessoas negras e mulheres candidatas e o aumento, mesmo pequeno, de pessoas negras eleitas prefeitas no primeiro turno (de 29% em 2016 para 33% em 2020, segundo o TSE).

Em escala global, tivemos um respiro que aconteceu um pouco antes, em 31 de julho, quando Beyoncé relembrou e proclamou: "Black is King". O álbum visual da diva pop se tornou mote de muita discussão sobre identidade negra, ancestralidade, estética, afrofuturismo, formas de ativismo, supremacia branca e, fundamentalmente, autoestima de pessoas negras, concretizando a provocação do provérbio africano que diz: "Até que os leões contem suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça".

Contar a própria história é algo que os movimentos negros vêm fazendo há um tempão e de várias formas. Na literatura brasileira, por exemplo, um marco, em 1978, foi o surgimento do Quilombhoje Literatura, movimento literário formado por escritores negros que anualmente publica os Cadernos Negros, uma coletânea de contos e poemas.

Somando esforços ao Quilombhoje, surgiram outras editoras e selos voltados exclusivamente à produção intelectual e literária negra, como a Aziza Editora, Editora Oralituras, Malê Editora, Mazza Edições e Nandyala Livros. Há ainda outras editoras preocupadas com a publicação de autorias negras de referência, como Boitempo Editorial, Editora Perspectiva, Grupo Autêntica, Grupo Companhia das Letras e Pallas Editora.

No último mês de 2020, presenciaremos com alegria os novos-velhos caminhos que passaram a ser percorridos em parceria pelas editoras citadas: o lançamento de um projeto de construção de comunidades educacionais antirracistas a partir da literatura, que vem sendo gestado há mais de um ano.

Em paralelo, vale conhecer o trabalho de Kiusam de Oliveira, que vem criando um território epistêmico na literatura que se faz no campo da decolonialidade, a Literatura Negro-brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil (LINEBEIJU). Em seus livros, a escritora e educadora apresenta personagens negros fortalecidos em suas identidades e firmados na ancestralidade, que fortalecem a autoestima das crianças e jovens negros.

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Baby Suggs, avó de Amada, ensina que "Mais que olhos e pés. Mais que os pulmões que ainda vão ter de respirar ar livre. Mais que o seu útero guardador da vida e suas partes doadoras de vida, me escutem bem, amem seu coração. Porque esse é o prêmio". Por estas vias e veias, percebemos que a literatura é potência, elemento fundamental no (re)conhecimento de múltiplas narrativas, e na possibilidade de um novo fôlego a Ágathas, Kauês, Kauans e Joões Pedros.

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Débora Medeiros de Andrade é psicóloga com especialização em Educação e mestranda em Educação e Relações Raciais. Possui mais de dez anos em projetos e eventos educacionais de forma multidisciplinar, congregando desenvolvimento humano, território e arte.

 

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