Quem tem medo dos contos de fada?

Fascínio e medo. Contato com emoções e conflitos humanos primais. Possibilidade de lidar com temas difíceis e a natureza humana. Ao longo dos séculos, gerações inteiras aprenderam a significar a tristeza, a morte e a maldade presentes nos contos de fadas, reconhecer sentimentos primordiais e identificar situações universais. Não à toa, essas histórias são potencialmente tão apaixonantes e, às vezes, tão incômodas. Na última década, no entanto, e em especial neste último ano, esse incômodo parece ter sido amplificado a ponto de surgirem tentativas de moralizar a literatura e transformar os contos em manuais de comportamento politicamente corretos, sob o pretexto de proteger as crianças. 

Mas será que ao retirar o lado sombrio estamos realmente protegendo a infância? Ao expurgar dos contos de fadas qualquer aspecto obscuro, para blindar os pequenos leitores, estamos fazendo bem? Não estaríamos tirando a oportunidade de elas refletirem sobre valores essenciais e lidarem com eles? Trocando em miúdos, existe alguma vantagem em "açucarar" e moralizar os contos a ponto de as madrastas se tornarem aliadas boazinhas e de as princesas não serem acordadas pelo beijo do príncipe?

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Ilustração de Cinderela dos anos 1900. Fonte: NYPL

De acordo com a artista Katia Canton, que é doutora e pesquisadora interdisciplinar da relação entre as artes e os contos de fadas, “é muito ruim a iniciativa de transformar os contos em ‘guias’ politicamente corretos, com textos insossos, que ‘achatam’ a experiência da leitura e da escuta. A criança pode e precisa lidar com o mundo em que vive. Necessita aprender que nem tudo é fácil”.

Ela explica que “o conto de fadas permanece vivo entre nós porque contém a potência de falar sobre os valores humanos mais essenciais, como amor, medo, desejo”. Assim, quando os conteúdos mais profundos relativos à existência humana são retirados, “os contos se esvaziam da sua inerente potência - justamente o elemento que os mantêm vivos, sempre”. 

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Ilustração de Walter Crane de 1911 para A bela adormecida. Fonte: NYPL

 

O filtro nos contos de fadas ao longo da história

Modificar trechos dos contos de fadas não é exatamente novo, mesmo porque muitos deles foram transmitidos pela tradição oral e não conseguiriam chegar iguais e inteiros aos mais variados lugares. No entanto, seu aspecto sombrio ou conflituoso nunca foi totalmente apagado ou retirado. No livro Contos de Fadas (Zahar, 2013), a pesquisadora e professora da Universidade Harvard, Maria Tatar, argumenta que, desde tempos imemoriais, os contos de fada constituem “um poderoso legado cultural transmitido de geração em geração” e “uma parte vital de nosso capital cultural”. 

Essas narrativas começaram a fazer sucesso com o público infantil principalmente depois da consolidação escrita pelos irmãos Grimm, que recolheram as histórias da cultura popular alemã. Já na segunda edição de sua coletânea, os irmãos atenuaram certas passagens, especialmente algumas mais claras sobre sexualidade. Desde então, houve uma variedade de edições mais ou menos higienizadas em relação à primeira edição dos Grimm, de 1812. Mas, mesmo em versões como as da Disney - conhecidas por terem "açucarado" intensamente essas histórias -, alguns conflitos essenciais ainda são mantidos, caso da inveja das madrastas da Branca de Neve e da Cinderela.

Da mesma maneira, há uma diversidade de recontos que fazem graça, em geral, justamente com os aspectos de maior tensão e conflito dos contos originais. Eles não eliminam ou moralizam a história, mas apresentam outros ângulos e pontos de vista. É o caso de livros como A verdadeira história dos três porquinhos As belas adormecidas (e algumas acordadas), da Letrinhas; Este é o lobo, da Pequena Zahar; e Chapeuzinho e o leão faminto, da Brinque-Book - para ficar com alguns poucos exemplos. 

Assim, quando se opta por apagar a maldade da madrasta de João e Maria, por exemplo, que é justamente o elemento disruptivo a partir do qual a história começa, a criança é privada de entrar em contato com essa rica experiência estética e literária. Além disso, mas não menos importante, nega-se a elas uma via de elaborar e aprender a lidar com o que “inconscientemente sabem – que a natureza humana não é inatamente boa, que o conflito é real, que a vida é severa antes de ser feliz” (Contos de Fadas, Zahar).

 

É bom tirar o que é mau?

Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Instituto de Psicologia da USP, aponta que, quando a contundência, a profundidade e a complexidade dos contos de fada são retiradas, o que se parece querer é “transmitir a ideia de um mundo desprovido de maldade, tristeza ou morte. Isso não é uma forma de proteger as crianças".

De acordo com ela, "um grande mérito dos contos de fadas é falar dos aspectos difíceis numa linguagem acessível para as crianças. Eles oferecem um repertório de imagens, metáforas, narrativas; é um pouco como se fossem emblemáticos de certas situações universais. São histórias importantes para as crianças - e têm o impacto e a ressonância que têm ao longo dos tempos - justamente porque nomeiam essas situações". 

 

"Quanto mais os contos de fada puderem falar da vida de maneira verdadeira, rica, mais plena de metáforas, mais podem ajudar as crianças a elaborar circunstâncias difíceis de vida, que elas vão inevitavelmente enfrentar: a perda de pessoas queridas, situações de rivalidade, o contato com a maldade. Mas, como a boa literatura em geral, fazem isso de maneira mais protegida para a criança do que na vida real." (Belinda Mandelbaum, do Instituto de Psicologia da USP)

 

Maria Tatar analisa que os contos estabelecem essa possibilidade terapêutica e libertadora de enfrentar “medos e desembaraçar-se de sentimentos hostis e desejos danosos”, além de garantir “um espaço seguro em que os medos podem ser confrontados, dominados e banidos”. A pesquisadora afirma que, “dando vida às figuras sombrias de nossa imaginação como bichos-papões, bruxas, canibais, ogros e gigantes, os contos de fadas podem fazer aflorar o medo, mas no fim sempre proporcionam o prazer de vê-lo vencido”.  

Dessa maneira, através das narrativas e de sua linguagem, os contos de fadas permitem às crianças viver uma série de conflitos, desejos, medos e ansiedades, complementa a professora Belinda. "Essas histórias lidam com os grandes temas da existência: o amor, a maternidade, a paternidade, a rivalidade entre irmãos, a ambição, a ganância, a maldade, a vida e a morte. Muitas vezes são temas que a criança também vive na realidade da sua família e assim pode encontrar uma forma de nomear esses conflitos, temores e angústias".

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Para além disso, é a possibilidade de refletir sobre os próprios comportamentos. "Testemunhar lados obscuros nas histórias - com os limites éticos que temos em nossa cultura, é claro - faz pensar e ensina a lutar, a se posicionar, a crescer. Esse é um dos modos importantes do funcionamento das narrativas dos contos de fadas para crianças e adultos. Ensinar a lutar e a vencer nossos medos. Encarar as sombras para transcendê-las”, acrescenta Katia Canton.

 


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