Quando literatura e matemática andam juntas

Apesar de caminharem em lados muitas vezes opostos nos currículos escolares, a matemática e a literatura podem e devem ser grandes aliadas na sala de aula. E opções para colocar essa parceria em prática não faltam. O livro Matemática até na sopa, recém-lançado pela Companhia das Letrinhas, é um bom exemplo: conta a história de como o jovem Marcos descobriu que os números estão por toda parte do seu cotidiano, dos jogos de videogame às compras no supermercado. 

Ilustração do livro Matemática até na sopa

A obra do autor Juan Sabia pode ser considerada paradidática – quando é pensada especificamente para auxiliar no ensino da disciplina. Mas especialistas da área de educação apontam que todo livro de literatura pode ajudar nesse aprendizado. O que muda é a forma de trabalhar o conteúdo com cada faixa etária. 

A história de Marcos nos dá uma pista da principal contribuição da literatura para o ensino da matemática: o contexto. Professor do Instituto Politécnico de Viseu (Portugal) e doutor em educação matemática, Luís Menezes explica que uma das razões para haver tanto “insucesso” na disciplina é o fato de ela ser muitas vezes ensinada de forma descontextualizada aos alunos, sem que haja um pé na realidade. “A matemática é abstrata. Se não houver um contexto, torna-se muito difícil aprender. E a literatura fornece justamente esse contexto.”

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Outra colaboração é a própria atividade de leitura, segundo o especialista. “Sabemos que muitos dos problemas de ensino da matemática estão ligados a alguma incapacidade que os alunos têm de interpretar texto. Introduzir livros é uma forma de trabalhar a compreensão e, por consequência, a matemática.”

Página do livro Matemática até na sopa

 

Como a literatura pode auxiliar no aprendizado de matemática

Uma estratégia que tem dado certo nas escolas é associar humor e literatura nas tarefas de matemática, principalmente por meio de charges e histórias em quadrinhos. Foi por isso que Menezes e outros autores do Instituto Politécnico de Viseu desenvolveram quatro livros gratuitos com sugestões de como trabalhar o tema. “É uma forma mais prática de ensino, pois não é preciso ler uma obra inteira para entender a história.”

O quadrinho abaixo é um exemplo. A partir dele, os estudantes – de ensino fundamental l e ll – devem responder a questões como: por que a situação pode ser engraçada e por que o aluno respondeu “seis”. 

Ilustração retirada do livro Humor para aprender matemática, de Luís Menezes e outros autores

Situações como a da charge acima mostram que saber ler e escrever é fundamental para conseguir resolver problemas - e por isso exercitar a leitura melhora a habilidade para matemática. Mas como trazer os livros para as aulas de matemática?

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Passos para trabalhar os números nas histórias

O primeiro passo é não usar a literatura como um pretexto para trabalhar a disciplina, e sim como o contexto, explica Klinger Teodoro Ciríaco, professor adjunto do curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “O livro não deve ser um canal que leva da literatura para o conteúdo matemático”, diz o pedagogo, que desenvolve estudos e pesquisas em Educação Matemática. 

 

1) Como fazer isso na educação infantil

No caso da educação infantil, Ciríaco diz ser preciso propor vivências práticas que demonstrem como a matemática está presente no cotidiano das crianças. “Se for pensar no livro Listas Fabulosas (editora Moderna), da Eva Furnari, é possível perguntar às crianças em quais situações da vida delas há listas. E, a partir disso, pedir para que façam as próprias listas, tendo como tema, por exemplo, suas brincadeiras preferidas.”

Livros paradidáticos que apresentam a relação do número escrito com a quantidade não necessariamente vão ser suficientes para ensinar crianças a contar, diz Ciríaco. Eles vão, sim, permitir uma melhor visualização dessa relação número e numeral, mas o aprendizado mesmo depende da interferência pedagógica do professor – que pode procurar na obra outras conexões possíveis para trabalhar vivências matemáticas com as crianças.

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Segundo o especialista, é importante sempre ter um contexto lúdico e exploratório para essas aulas. Livros como Quem Vai Ficar Com O Pêssego? (Callis), de Yang Hye-Won, e Quem soltou o Pum? (Companhia das Letrinhas), de Blandina Franco, permitem discutir com as crianças qual a resposta para as perguntas colocadas no título. É um exercício simples, mas que explora um ponto matemático: a formulação de hipóteses.

Página do livro Todas as pessoas contam

 

2) No ensino fundamental 1

Quando vamos para os anos iniciais do ensino fundamental, a perspectiva lúdica se mantém, mas agora deve ser articulada com conteúdos específicos, afirma o professor. O livro de Yang Hye-Won, neste caso, seria abordado sob o ângulo da estatística e da probabilidade. “Mas sempre tendo a narrativa como o aspecto de referência.” Uma sugestão para esse público é desenvolver a escrita de narrativas matemáticas, pedindo aos alunos para criarem seus próprios enigmas e charadas. 

 

3) No ensino fundamental 2

No fundamental 2, quando o foco da matemática é nos aspectos da linguagem algébrica, a literatura se distancia do aspecto prático para ir ao campo do raciocínio, segundo Ciríaco. 

Como nestes anos há professores separados para cada disciplina, Menezes sugere que os docentes de português e matemática trabalhem a mesma obra, mas com abordagens diferentes. 

 

15 LIVROS QUE FALAM DE MATEMÁTICA

Educação infantil (também indicados para ensino fundamental 1)

Matemática até na sopa, de Juan Sabia: Foi durante uma visita à casa de seu tio-avô matemático que Marcos deixou de lado a visão negativa sobre a disciplina. O jovem aprendeu que a matemática está em todos os lugares, do jogo de videogame a uma ida à sorveteria, e pode sim ser divertida. 

Todas as pessoas contam, de Kristin Roskifte: A cada página, sempre um número a mais. Mas não só isso. São cenas, interações, formas de estar no mundo, com alegrias e tristezas e respeito às diferenças e semelhanças. Vidas individuais que se somam, que se multiplicam, que se completam.

365 pinguis, de Jean-Luc Fromental: No primeiro dia de janeiro, uma caixa misteriosa chega à casa de Amanda e Téo. Dentro, tem um pinguim e instruções para cuidar da ave. No dia seguinte, a mesma coisa. A cada dia que passa, um novo pinguim chega até que, no último dia do ano, já são 365 pinguins. Imagine o trabalhão que dá para criar todos esses bichos em casa! Com situações divertidas e inusitadas, o livro traz matemática, animais, humor e também uma reflexão sobre a preservação ambiental.

Girafas, de Jean-Claude: O papai dessa história desenha girafas como ninguém. Deve ser por isso que o filho pede sempre mais uma. E, assim, a coleção de girafas só cresce: 1, 2, 3, 4, 5... quando chega a 10, só podia dar confusão. É um livro que fala de números, mas também de desenho, de relacionamento afetivo, de brincadeira e de animais. 

Dez patinhos, de Graça Lima: No início, eram dez patinhos a nadar. Mas, de distração em distração, o grupo vai sempre perdendo um, numa contagem regressiva. O livro trata de números, mas também traz rimas simples e temática de animais, que as crianças amam.

1, 2, 3, estrelas!, de Anne-Sophie Baumann e Anne-Lise Boutin: Os números estão por toda parte e escondidos na natureza. Basta parar e contar: quantas asas tem uma libélula? Quantas estrelas tem o céu? Mais do que números e contas, o livro mostra com poesia curiosidades da fauna e flora.

A visita dos dez monstrinhos, de Angela-Lago: De um em um, os monstrinhos vão chegando em versos rimados e cheios de humor. Quando finalmente eles são mandados embora, o senhor zero aparece para assombrar o livro. 

 

Ensino fundamental 1 (também são recomendadas os anteriores, para educação infantil)

Os 33 porquinhos, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta: Não foi um, nem dois, nem três. Foram 33 porquinhos! Cada um com uma casa diferente - esqueça palha, madeira e tijolo. Esses daqui constroem pirâmides, estações espaciais, mansões e até castelos de areia, que vão dar trabalho para o lobo. Além do humor, o livro traz uma possibilidade gigante de combinações, já que as páginas são divididas em três tiras que permitem a construção de muitas histórias diferentes.  

Um número depois do outro, de José Paulo Paes: Com bom humor, poemas e ilustrações vibrantes, este livro brinca com os números

O que eu posso ser?, de Mariana Zanetti e Silvia Amstalden: A vida não é exata como as contas de matemática. Pensando nisso, as autoras convidam os leitores a viajar pelas formas geométricas clássicas e as nem tanto assim, como um "quase retângulo" ou um "pedaço de círculo".

Monstromática, de Lane Smith e Jon Scieszka: A matemática está na vida cotidiana da gente, desde a hora que acordamos ao tempo que levamos para fazer cada atividade, e não é nenhum monstro. Mas a protagonista desse livro vai ter de aprender a dominar essa fera (ou esse medo) e ver que ela não é assim nenhum problemão. Indicado para os anos finais do fundamental 1.

Se..., de David. J. Smith: Já pensou se grandes dimensões como a Via-Láctea ou os oceanos fossem reduzidos para uma escala do nosso cotidiano? Por exemplo, se o tempo de existência da Terra fosse transferido para caber em apenas uma hora? Ao condensar 3,5 bilhões de anos em 60 minutos, em que minuto os humanos surgiriam e quanto tempo teriam para existir? Os dinossauros, por exemplo, apareceriam no 56o minuto e sumiriam três minutos depois. Fascinante pensar dessa forma, não?

 

Ensino fundamental 2

Alex através do espelho, de Alex Bellos: O autor mostra como a matemática modificou o mundo, transformando conceitos que parecem complexos em explicações simples e divertidas. 

O diabo dos números, de Hans Magnus Enzensberger: Criadas por um poeta alemão, as histórias desse livro mostram como os números, com um pouco de humor, podem deixar de ser malditos. O fio condutor são os sonhos do menino Robert, que achava matemática inútil.

Galileu Galilei, de James MacLachlan: A vida de um dos maiores físicos de nossa história é destrinchada nesse livro de linguagem acessível e muitos gráficos, que conta sobre sua educação, sua vida, suas teorias sobre corpos em queda, suas descobertas com telescópio e seus experimentos com pêndulos.

 

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