Quando as bibliotecas ocupam áreas carentes

“Moradia não é apenas ter um canto para ficar, é a porta de entrada para outros direitos e o direito à leitura, cultura e educação são primordiais para as pessoas.” Quem diz isso é Carmen Silva, líder do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) que, entre outros, recuperou o prédio da Ocupação 9 de Julho. Foi ali que, em agosto de 2018, ela e outros moradores realizaram um sonho de 1997: organizar uma biblioteca. Tudo com o esforço da sociedade civil, de gente que sabe que o futuro se faz com livros e que bibliotecas são poderosos instrumentos para inclusão social e combate à violência urbana. Mais do que um espaço para leitura, aquele é um local para conviver e sonhar. E isso faz uma brutal diferença na vida de crianças e jovens, especialmente os de famílias carentes.

(Crianças se divertem em oficina na biblioteca da Ocupação 9 de Julho)

Na Colômbia, por exemplo, as bibliotecas foram usadas como importantes ferramentas no processo de paz do país. Lá, existem cerca de 21 mil centros de leitura para uma população de 48 milhões de habitantes, ou seja, uma média de uma biblioteca para pouco mais de 2,2 mil pessoas – e um número total de 10,6 milhões de usuários registrados, segundo dados do Library Map of the World. Em Medellín, por exemplo, que era a “capital” do narcotráfico nos anos 1990 e uma das cidades mais violentas do mundo, a construção de parques-biblioteca em bairros mais carentes, entre outros dispositivos de educação e cultura, trouxe empoderamento para a comunidade e ajudou a reduzir a violência.

A título de comparação, no Brasil, existiam apenas 6.057 bibliotecas para uma população de cerca de 206 milhões de habitantes em 2015, de acordo com os dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP). É o equivalente a um equipamento para aproximadamente 34 mil pessoas. Um número muito longe do ideal, mas que só não é pior por causa do esforço de membros da sociedade civil que acreditam no poder dos livros e da formação de leitores para combater o crescimento das armas.

 

O poder dos livros na Ocupação 9 de Julho

(Criança na biblioteca da Ocupação 9 de Julho, na ação #NossaSomaMultiplica, da fundadora do coletivo Linkart e ativista Lua Leça)

Na biblioteca da Ocupação 9 de Julho, há livros, mas há também atividades culturais, tanto de mediação de leitura, como de educação. “A biblioteca da ocupação, um importante espaço de convivência entre crianças, adultos e idosos, é o primeiro ponto que liga as crianças e reflete a preocupação do movimento com a educação. É também onde fomentamos outras atividades educativas baseadas na interpretação de texto e o reforço escolar”, explica Carmen. Localizada no 5o andar do prédio que fica na Bela Vista, em São Paulo, tem atividades promovidas por voluntários que acontecem às terças, quintas e sábados, atendendo aproximadamente 80 crianças de até 12 anos que moram no local. A intenção dos colaboradores é fazer com que o espaço abra mais vezes por semana.

A imigrante paraguaia Sonia Mabel Barreto é uma grande entusiasta da iniciativa. Suas três filhas, Lisete, Milanos e Clarisse, frequentam o espaço às terças. “Elas encontram amigos e se envolvem com as atividades”, conta a moradora. Um dos voluntários é o educador Paulo Santiago, de 73 anos, que levou o projeto Saltamontes para lá. “Todas as nossas atividades são baseadas no desenvolvimento humano”, resume. Recentemente, ele trabalhou, com crianças de até 12 anos, o texto “Rei Matheusinho Primeiro”, do polonês Janusz Korczak, um precursor dos direitos das crianças, que criou um método pedagógico baseado na autogestão infantil. 

O clássico conta a história de um menino que é coroado rei e luta para reformar seu reino em defesa das crianças. Para Paulo, a escolha do texto era uma forma de dialogar sobre questões de moradia e cidadania, essenciais para o desenvolvimento infantil – e especialmente importantes para as que moram em ocupações. “Esse diálogo é fundamental para ampliar horizontes”, reforça o educador.

 

Palavras que salvam vidas na Cidade de Deus

(Jota Marques em ação no coletivo Marginal, em Cidade de Deus; ele luta para criar uma biblioteca)

Jota Marques, coordenador do coletivo Marginal, que atua na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, sabe muito bem do poder que a leitura tem em ampliar horizontes e fomentar sonhos. Por isso, quer tanto criar uma biblioteca na comunidade. Ele mesmo foi um desses meninos criados em contexto de extrema vulnerabilidade social, em uma favela no Espírito Santo. “Fui atravessado pela violência do Estado, com braço armado, pela sua ausência na falta de moradia e ao sentir fome. Toda a minha família, infelizmente, cresceu e se desenvolveu na falta de estrutura social.”

Filho de um educador popular e de uma cozinheira, que sempre foi sua professora, seu contato com os livros foi estimulado na infância. “Tive a oportunidade de reconhecer potência na linguagem, no estudo, na observação do mundo, nas artes”, comenta. O livro preferido de sua mãe, “O corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo, proporcionou o primeiro contato com as palavras. “Eu até brinco que não sei se ela de fato leu esse livro, mas gostava muito da história e eu queria ler sua história favorita. Li e reli o livro por muitos anos até entender, mas esse exercício, que se tornou hábito, foi primeiro para agradar quem eu tinha como maior referência de pensamento, atuação e vida”, explica.

Mais do que enxergar a potência da leitura, Jota viu nas palavras um sentido para a vida quando menino. Pelo fato de ter déficit de atenção e hiperatividade, não conseguia acompanhar completamente as aulas. “Ainda que eu tenha sido alfabetizado, tinha muita dificuldade de escrever corretamente, ao menos para o que a norma pede, e de dar conta das demandas conteudistas da escola defasada do século presente. Por muitos anos, eu me considerei uma criança burra, que não conseguiria aprender nada. Assim, desde muito pequeno, a literatura foi meu refúgio, companhia, um mundo possível. As minhas histórias eram sempre sobre outros tipos de relação, outras formas de construção da sociedade, fantasias que eu queria que fossem realidade. As palavras me deram sentido para continuar vivendo. A vida definitivamente não é a norma culta, é muito mais diversa e adversa do que isso.”

Hoje, como coordenador do coletivo Marginal, que se define como uma escola de educação popular, comunicação comunitária e política para crianças, adolescentes e jovens, Jota tenta levar esse poder e encantamento da leitura para a Cidade de Deus. A comunidade, com cerca de 60 mil pessoas, em que apenas 12% terminaram o ensino fundamental, não tem biblioteca comunitária nem pública, nem escola de ensino médio. “É um lugar de produção artística imensa e é por isso que batalho para construir a primeira biblioteca da Cidade de Deus.”

 

No Cariri, longe dos centros urbanos, perto do coração

Em cidades do interior, onde o acesso às obras literárias é ainda mais escasso, iniciativas como a da ONG Fundação Casa Grande são extremamente necessárias. Localizada em Nova Olinda, município do Ceará na região do Cariri, com aproximadamente 12 mil habitantes, a fundação mantém um museu, laboratórios de conteúdo e atividades para crianças no contra-turno escolar. Lá, elas atuam como gestoras culturais, aprendendo a gerenciar, catalogar, acondicionar, armazenar e principalmente a desenvolver pesquisas a partir desse acervo. 

“Algumas cidades pequenas não possuem escola e a leitura se torna ainda mais importante. Não é o caso de Nova Olinda, que tem uma cultura bem grande, mas não temos uma biblioteca municipal”, conta Anna Beatriz, de 11 anos, gerente da gibiteca. “Com a leitura e o estudo, podemos chegar aos lugares, não só os de passear, mas os lugares de felicidade. Você pode gerenciar o mundo. Podemos contar com nossa própria ajuda”, complementa Lara, de 10 anos, gerente da biblioteca de pesquisa e referência escolar.

 

Quando o poder público se envolve

(Foto do projeto Guardiões da Biblioteca, no CEU Heliópolis, na periferia de São Paulo)

Essas iniciativas da sociedade civil são importantíssimas especialmente para aqueles lugares em que o poder público não está presente da forma como deveria. Quando o Estado cumpre seu papel, no fornecimento de infraestrutura e condições de funcionamento, importantes diálogos são construídos com a comunidade. No CEU Heliópolis, em São Paulo, por exemplo, a contadora de histórias, bibliotecária e ativista cultural Suelen Camilo Ferreira, de 30 anos, desenvolve o projeto Guardiões da Biblioteca, no qual os próprios leitores são convidados a participar de conversas sobre a formação da biblioteca como um espaço construtivo. O objetivo é justamente fomentar o diálogo e ampliar as visões de mundo a partir da literatura e da escuta, abordando temas como racismo e opressão. Suelen lembra, emocionada, como o projeto pode fazer diferença na vida de cada criança ao citar o caso do menino Artur, que teria dito: “Eu aprendi, na biblioteca, que lendo você aprende a conversar”.

Ao ocupar espaços carentes com livros, leituras e bibliotecas, as próprias crianças aprendem a ocupar seu espaço no mundo, e sonhar e lutar por seus direitos.

(Reportagem de Duda Porto de Souza)

 

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