Qual o lugar do ilustrador brasileiro na cena internacional?

Roger Mello, Ângela Lago, Guilherme Karsten, Fernando Vilela, Daniel Bueno e Marilda Castanha são alguns dos autores e ilustradores brasileiros que compõem um seleto grupo de artistas premiados e reconhecidos no exterior por seus trabalhos com livros infantis. Considerando a quantidade e a qualidade dos ilustradores nacionais, parece ainda uma representação muito tímida. Na semana em que se comemora o Dia do Ilustrador, o blog falou com especialistas e autores para refletir o lugar do ilustrador brasileiro no mundo e entender o que acontece para não sermos mais bem reconhecidos. Será que ainda não somos tão bons assim? Ou: o que impede que os trabalhos de brasileiros estejam mais bem representados no mundo? 

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Os últimos prêmios

Roger Mello venceu o Hans Christian Andersen na categoria ilustração, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil, em 2014 - foi o único ilustrador brasileiro a conquistar o prêmio, que existe desde 1966 com essa categoria. No mesmo ano, obteve o Prêmio Chen Bochui International Children's Literature, da China, como melhor autor estrangeiro. Fernando Vilela e Daniel Bueno receberam, em 2007 e 2011, respectivamente, a menção New Horizons, na Feira de Bolonha. Em 2017, Marilda Castanha foi premiada na categoria Purple Island do Nami Concours (Concurso Internacional de Livros Ilustrados da Ilha de Nami), na Coreia do Sul, onde Marcelo Pimentel recebeu o prêmio principal em 2015. Ângela Lago conquistou o Prêmio da Bienal de Ilustração de Bratislava (Eslováquia) na categoria BIB Plaque duas vezes, em 1995 e em 2007. Guilherme Karsten também ganhou o BIB Plaque em 2019, assim como o Golden Pinwheel Young Illustrators Competition Internacional 2019 (China), os dois com o livro Aaahhh! (HarperCollins). Neste mês, ele lança Carona pela Companhia das Letrinhas, uma divertida história cumulativa sobre um surfista que vai à praia e acaba levando junto uma turma bem misturada. 

São todas ótimas notícias, mas sempre pulverizadas, dadas as proporções do Brasil e a qualidade dos nossos artistas. 

O caso da Feira de Bolonha 2020, uma das mais importantes vitrines mundiais do livro infantojuvenil e que dita tendências nesse mercado editorial, é o exemplo mais representativo desse debate: nenhum brasileiro foi selecionado para expor na famosa Mostra de Ilustradores (com a pandemia, a feira acabou cancelada, mas teve uma edição virtual em maio), interrompendo uma sequência de participações. Em 2014, o Brasil foi o país homenageado da feira e levou uma grande delegação de artistas. Em 2017, ilustrações de Talita Nozomi e Bruna Ximenes foram selecionadas. Em 2018, Stela Barbieri foi a representante do país e, em 2019, Fernando Vilela.

Capa do catálogo da Mostra de Ilustradores de Bolonha 2020, ilustrada pelo iraniano Hassan Mousavi, vencedor do Grand Prix da Bienal de Bratislava 2019

Em 2020, entre os 75 trabalhos selecionados de 24 nacionalidades, 31 foram de países asiáticos (15 somente da Coreia, o país mais bem representado), 14  da Itália e havia até cinco latino-americanos na seleção, representados por Argentina, Chile, Uruguai e Peru. Mas nenhum do Brasil. O que acontece? Qual o momento do Brasil no cenário mundial da ilustração?

 

A "depressão bolonhesa"

A qualidade do trabalho nacional e a busca pelo que é ser brasileiro em ilustração não dão mais conta de explicar essa questão. O pesquisador, professor e ilustrador Odilon Moraes relembra o grande “susto” pelo qual os ilustradores brasileiros passaram quando foram a Bolonha em 1995, ano em que o Brasil foi homenageado pela primeira vez. O grupo se deparou com uma qualidade técnica e gráfica muito superior ao que havia aqui, além de perceber um “jeito de ser” de cada país que era captado nos livros, mas que ainda não aparecia nas produções brasileiras.

Depois desse choque, que ficou conhecido de maneira anedótica como a “depressão bolonhesa”, em que os brasileiros puderam se ver de fora, houve um esforço deliberado para superar essas defasagens na produção nacional de livros infantis. “Não é à toa que a CosacNaify apareceu nessa sequência, porque as editoras em geral começaram a enxergar o livro de outra maneira. E passou a haver essa preocupação sobre ‘qual livro fala de mim’. Mas, nos dois sentidos, o Brasil venceu esse gap; nós passamos a ser vistos de igual pra igual”, conta Odilon.

Estabelecer uma identidade cultural brasileira, que condense uma estética nacional na ilustração, acredita ele, é dificil porque o país tem uma pluralidade enorme. “O Brasil é tanto solar, com as cores e a luz, como lunar, uma característica mais do interior, da solidão.” Para o ilustrador, a discussão sobre o livro ilsutrado como forma literária prevalece atualmente, porque já temos o domínio das técnicas, e ser brasileiro não é mais um norte, embora acabe perpassando a produção. 

O ilustrador Nelson Cruz aponta que o Brasil ainda está nessa busca por esclarecer o que é a imagem brasileira nesse mundo do livro ilustrado. Ele considera que cada uma das cinco regiões do país produz uma imagem diferente, e o nosso valor é justamente esse - a diversidade, por mais gasto que considere esse termo. "Eu acredito que temos culturas suficientemente fortalecidas e ricas plasticamente, com todo fundamento para criar o nosso mercado editorial baseado nisso. Mas é claro: nós temos que dialogar com o exterior? Temos. E, no meu entender, o que interessa a um mundo globalizado é a diferença, a nossa cultura. O que um povo tem como identidade visual é o que interessa."

Ilustração de Stela Barbieri selecionada para a Mostra de Bolonha 2018

Ilustração de Stela Barbieri, que compôs a Mostra de Ilustradores de Bolonha em 2018

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Brasil mal na foto

Para o ilustrador Maurício Negro, um dos motivos para que a ilustração brasileira não esteja em destaque tem a ver com a nossa situação política, econômica e social. 

“Neste momento, o Brasil está muito mal na foto. A gente está mal do ponto de vista sanitário, político, econômico. A gente está péssimo do ponto de vista ambiental e assim por diante. Embora exista gente trabalhando com excelência, honestidade e muita garra, como é o caso dos nossos autores indígenas. É um momento muito ruim, muito vergonhoso.” (Maurício Negro)

Para ele, o significado de estar fora de Bolonha é justamente esse: o resultado de um momento de disrupção vivido pelo país, em que não há uma articulação com propostas e contrapontos a isso. “Não participar de Bolonha é uma decorrência de um momento muito negativo pelo qual estamos passando. Eu acho até esperado. Precisamos tirar partido da derrota, pra poder nos preparar para uma vitória lá na frente.”

A autora, artista plástica e pesquisadora Kátia Canton, que foi vice-diretora do MAC-USP e é diretora artística do MIMA - Museu Internacional da Mulher, em Portugal, concorda.

“É quase sintomática essa ausência dos brasileiros. Existe a questão da feira ser atenta às tendências, mas não é só uma questão de não estarmos ditando tendência. O Brasil está de fora de uma discussão maior por uma questão de raiz: estão cortando cada vez mais as possibilidades de expressão no universo da literatura, do livro infantojuvenil e da arte em geral. Há um desamparo, uma ausência completa de incentivo. É esse panorama geral triste que o Brasil vive.” (Kátia Canton)

Dolores Prades, que é consultora da Feira de Bolonha para a América Latina e publisher da Revista Emília, entoa o coro: “Eu acho que realmente essa ausência dos brasileiros neste ano demonstra a crise econômica, social e cultural do Brasil”. Ela acrescenta ainda o retrocesso e a crise pelos quais a indústria editorial infantojuvenil passou nos últimos anos aqui no país. “Tem também o preço elevadíssimo da moeda estrangeira, que impede que jovens ilustradores invistam nisso, e as editoras também estão envolvidíssimas nessa crise, com redução de compras governamentais e de lançamentos.”

 

Custos e desafios

Ainda na esteira da crise que o país enfrenta, Dolores e Odilon apontam para os custos que envolvem a inscrição para a mostra. O ilustrador pode enviar seus trabalhos individualmente, o que “é caro e arriscado. Até pouco tempo atrás, era preciso enviar os originais, o que é sempre um risco porque você não sabia quando e se a feira ia devolver o trabalho”, aponta Dolores.

“Bolonha era muito purista e só recentemente passou a aceitar cópias das obras em fine art, que é uma técnica de qualidade altíssima e também muito cara de fazer”, explica Odilon. As inscrições podem ser feitas por outros dois caminhos: as editoras inscrevem os ilustradores ou escolas de ilustração fazem a inscrição de seus alunos - e, nesse quesito, o Brasil tem pouca tradição de instituições e cursos que oferecem esse apoio.

Dolores indica que o processo de inscrição é facilitado quando há uma orientação prévia para Bolonha e isso não é sistematizado no Brasil. “Há caminhos, uma forma de se apresentar, como se inscrever, o que mandar. É um conhecimento que deixa em desvantagem quem não tem, porque tem muito ilustrador que se inscreve, é muito fácil se perder no meio de tanta gente.” De acordo com ela, a questão fundamental é a falta de um incentivo maior como política pública. No Uruguai, por exemplo, há uma política do Ministério da Cultura para a ilustração. O país financia artistas para ir à feira, assim como o Chile. São investimentos que evidenciam os países. “É claro que faz diferença, porque é uma presença institucional, que fala em nome de um país, com autoridade. Bem diferente de ir um pessoal isolado, sem articulação.” 

A autora Marilda Castanha aponta que a realidade pela qual o Brasil passa já há algum tempo acabou por deixar os artistas nacionais num casulo, investindo tempo, recursos e energia apenas nessas questões internas.

“Não acho nada gratuito nem um acaso que não tivemos representatividade na mostra este ano. Primeiro, vamos ter que vencer esses desafios internos, antes de buscar uma representatividade de novo. Inclusive para fazer o mercado editorial ficar em pé diante de ataques tão vis como a taxação de livros e programas de governo cada vez mais autoritários. É preciso antes firmar aqui o livro como espaço de liberdade. Então vamos poder dizer, também no exterior, que somos livres para desenhar a nossa narrativa, a nossa história, o nosso país.” (Marilda Castanha)

 

Ilustração de Fernando Vilela selecionada para a Mostra de Ilustradores de Bolonha de 2019

 

Eurocentrismo?

Dada a presença maciça de asiáticos na mostra, Odilon considera que não é possível atribuir a ausência brasileira a um olhar eurocêntrico - ainda que os europeus respondam por cerca de 40% dos ilustradores escolhidos neste ano. “Essa questão não é simples, não tem apenas um fator determinante. A primeira coisa a se levar em conta é que Bolonha dita a tendência e, neste momento, talvez o Brasil simplesmente não seja uma delas. Agora está muito claro um olhar para o leste, para o Oriente Médio e para os países orientais, basta ver a quantidade de coreanos selecionados”, opina o ilustrador. 

Essa mesma visão é partilhada por Dolores, para quem o eurocentrismo não conseguiria explicar a ausência. “Você vê nas últimas feiras que há uma porcentagem enorme de asiáticos. As ilustrações deles são muito marcantes, maravilhosas, e um pouco fora do nosso repertório mais tradicional. A América Latina também tem participado, então não é que eles não têm olhado pra cá. A Issa Watanabe foi a primeira ilustradora peruana selecionada e conseguiu expor duas vezes. Tem Argentina, Chile, Uruguai”, pondera.

Odilon acredita, no entanto, que essa seleção de tendências do que não é europeu também precisa levar em conta um questionamento: o que eles procuram quando olham para fora?

“Quando o Brasil é tendência, por exemplo, o que buscam? Algo diferente ou algo que confirma a visão deles sobre o que seria a ilustração brasileira? A Ângela Lago nunca teve esse olhar a partir do que seria uma brasilidade em ilustração, e ela é genial, mas talvez estivesse em desvantagem porque não atendia ao que eles queriam como tendência”, reflete. 

Nesse sentido, Odilon acredita que haveria um eurocentrismo no fato de a mostra privilegiar um olhar europeu sobre o que é brasileiro ou o que é coreano. "E ai do iraniano que não pareça iraniano!", ele brinca. "É como se existisse uma busca pela arte 'pura' nesses países de origem. Como se não houvesse uma influência deles próprios sobre nós. Ao mesmo tempo, quando um país vira tendência, os próprios trabalhos europeus são influenciados por essa ela. Há momentos em que ser europeu é justamente assimilar culturas não europeias.”

Marilda considera que, entre as milhares de ilustrações que são inscritas todos os anos, é possível que pese o fato de o júri ter alguma familiaridade com as imagens europeias. “De outra forma, acompanhando algumas edições, percebo que ilustradores jovens, com um olhar diferenciado e renovado para o mundo também são muito bem aceitos ali. Há grande representatividade de coreanos, como já houve no caso da ilustração iraniana.”

A ilustradora levanta ainda outro fator importante, que é a menor quantidade de traduções dos trabalhos brasileiros em relação aos europeus. "Os ilustradores lá fazem uma edição alemã, por exemplo, e daqui a pouco isso está na França, na Inglaterra. Há uma facilidade editorial e um circuito de tradução que a gente não tem tanto. Então, a gente fica circunscrito a este mercado, com todos os problemas que ele tem. E eu questiono: por que não buscar uma representatividade na América Latina? Nos países ibero-americanos?". 

Marilda Castanha faz ainda a ressalva de que não estar em Bolonha não quer dizer que não haja representação brasileira em nível internacional. "A representação mais desejada continua sendo Bolonha, mas não é que o Brasil não tem representação em outras mostras internacionais. Tem Nami Concours, tem Bratislava, por exemplo."

Há também uma questão de alinhamento entre os atores da cadeia do livro que existe na Europa, mas não aqui, como sugere Nelson Cruz: "Nós não temos como oferecer aos julgadores de Bolonha esse alinhamento que eles têm entre escolas de ilustração, editoras e mercado editorial. A ilustração europeia tem uma excelência e um alinhamento entre esses elementos, que conversam entre si. Aqui no Brasil, a conversa sobre o livro ilustrado é dos ilustradores."

Apesar de concordar que em Bolonha há esse olhar para os países asiáticos, do Oriente Médio e outros, Maurício Negro acredita que a feira gira, sim, em torno do eixo europeu. “O tal do eurocentrismo está em tudo, está em todos.” Mas ele também considera que “Bolonha é um centro certificador de qualidade da literatura ilustrada. Então, é importante estrategicamente que o Brasil esteja lá, como batalhou quarenta, cinquenta anos para ter destaque ali. Até chegar a ser tema da feira, até ter um brasileiro premiado com um Hans Christian Andersen de ilustração.”


 

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