Qual mulherzinha você é?

Por Janaina Tokitaka

Desde que essa adaptação para cinema de “Mulherzinhas” (Penguin) foi anunciada – “Adoráveis mulheres”, que concorre ao Oscar 2020 em seis categorias, entre elas a de Melhor Filme –, eu e minha irmã mais nova começamos a fazer planos pra ver a primeira sessão disponível. Discutimos o casting, animadas e com medo de o filme não alcançar as nossas expectativas. Isso tudo porque o livro é um dos favoritos da família, o que faz bastante sentido, já que somos três irmãs com uma relação bem próxima.

(Ilustração de Janaina Tokitaka)

 

"Mulherzinhas" foi escrito pela norte-americana Louisa May Alcott em 1868 e conta a história de quatro irmãs e sua mãe, se virando como podem enquanto o pai está ausente, na Guerra Civil, mas parecia ter sido escrito especialmente para a nossa família de classe média, brasileira, vivendo em São Paulo na década de 1990. Livros tem dessas coisas. Eu lembro de passar bastante tempo pensando sobre quem cada uma de nós seria, se fôssemos as personagens do livro.

Minha irmã mais velha é uma Meg, com toda certeza, como, desconfio, boa parte das primogênitas. Assim como a personagem, ela era (ainda é) razoável, pragmática, aplicada, bonita e, bem, perfeita ao menos aos nossos olhos de irmãs mais novas. Queria muito que ela pudesse ter visto o filme com a gente, mas ela mora longe, nos Estados Unidos, em uma casa com um jardim bonito, visitada por coelhos e cervos, saída diretamente do universo de Louisa May Alcott.

Já eu nunca fui muito perfeita. Lembro de ter uns quatorze anos e entrar fazendo zona e falando alto, com meus amigos, na biblioteca do colégio onde estudava. Quando já estava saindo, ouvi, de longe, a bibliotecária reclamando para sua colega: "Por que essa menina não pode ser como a irmã? A mais velha é uma verdadeira lady". Aquela frase fez meu sangue subir. Eu dei meia-volta e confrontei a funcionária, furiosa: "Se tiver alguma coisa pra me dizer, pode dizer na minha cara", falei, com toda a certeza e eloquência de uma adolescente com raiva. Foi sem dúvida um pouco ridículo e provou que a bibliotecária não estava errada – realmente nunca fui uma lady. Lógico que, depois dessa cena toda de valentona, eu chorei escondida, no banheiro das meninas, tal e qual a personagem Jo March depois de cortar seus cabelos.

 

“Mulherzinhas” importa porque sua história é a nossa história, ou pelo menos é mais a nossa história do que uma narrativa sobre mafiosos, guerras ou carros.

 

Sempre me vi como a Jo March. Sempre quis ser escritora e meu gênio era (é?) um pouco difícil. A vida deu uma amenizada na teimosia e hoje em dia eu grito bem pouco, mas nunca virei uma lady. Antes de escrever esse texto, perguntei para minha irmã mais nova com qual das irmãs ela se identificava mais. Sabe como é, melhor não presumir. Ela confirmou minhas suspeitas, dizendo que era com a Amy. "Porque eu quero uma vida bonita com coisas bonitas. A Amy não quer ter uma vida medíocre e eu também não quero."

Minha irmã também escreve. Eu acho que tem um tanto de Jo nela e um tanto de Amy em mim. Ela fez uma ressalva dizendo que "Não tem tantas certezas quanto a Amy" e eu faço uma ressalva dizendo que me identifico demais com a alma dramática e estética dessa personagem. Dito isso, sinto que essa divisão mental que fizemos faz sentido. Sou Jo com ascendente em Amy e ela Amy com ascendente em Jo.

Mas por que estou contando tudo isso? Simplesmente para justificar minha opinião de que essa história é das mais relevantes que existem. Não importa a distância temporal e geográfica, nem se essa é a primeira, segunda ou terceira adaptação cinematográfica de “Mulherzinhas”. A história da vida doméstica de quatro mulheres é importante ao ponto de fazer com que eu (que tenho uma filha pequena em plenas férias escolares e um trabalho que demanda muitas horas diárias) desse um jeitinho de cavar duas horas para ir ao cinema com a minha irmã. Mais do que isso, me fez arranjar tempo de encaixar um texto sobre tudo isso, entre um roteiro, uma escaleta e esquentar a janta da minha filha, Rosa.

(Cena do filme "Adoráveis mulheres", baseado no livro "Mulherzinhas"/Divulgação)

 

“Mulherzinhas” importa porque sua história é a nossa história, ou pelo menos é mais a nossa história do que uma narrativa sobre mafiosos, guerras ou carros. É uma história que, mesmo em 1800 e qualquer coisa, já oferecia cinco formas diferentes de existir como uma mulher. Eu diria que é mais do que muitas narrativas oferecem hoje em dia. Nessa discussão aparentemente boba sobre se enxergar como uma Jo, Meg, Beth, Amy ou uma mistura de duas ou mais, existe algo mais profundo: existem possibilidades, complexas, completas, dignas e prazerosas.

Depois de sair (feliz!) do cinema, lembrei de algo que minha mãe falou quando eu era mais nova: "Hoje em dia eu me vejo muito mais na Marmee March (a mãe das meninas) do que na Jo". Confesso que, desta vez, eu prestei bem mais atenção nessa personagem, que antes parecia tão periférica e que, na verdade, é muito central. Talvez, então, hoje eu seja uma Jo com ascendente em Marmee. Essa possibilidade me deixa feliz. Veremos se, daqui a alguns anos, ainda me sinto assim, já que espero ver essa história muitas e muitas vezes, de preferência com a minha irmã, comendo pipoca. Longa vida às Mulherzinhas!

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Janaina Tokitaka começou sua carreira como escritora em 2010, quando lançou seu primeiro álbum ilustrado, “Tem um Monstro no Meu Jardim”. Desde então, publicou quarenta outras obras para o público infantil e juvenil, entre eles “Pedro Vira Porco Espinho”, “Vovó Veio do Japão” e "ABCDelas". Recebeu, entre outros, o selo altamente recomendável pela fundação FNLIJ e o Cátedra Unesco de qualidade e excelência em literatura infantil. É também roteirista de televisão, tendo escrito, entre outras, as animações infantis “Oswaldo”, “Tuiga” e “As Micro Aventuras de Tito e “Muda”, entre outras. Foi headwriter da animação “Clube da Anittinha”.

 

 

 

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