Quais livros não podem faltar nas escolas?

 

Teatro, biografia, romance, quadrinhos, conto, crônica... A lista de gêneros literários incluídos no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) 2020 é diversa – assim como a dos livros do Grupo Companhia das Letras aprovados nesse programa. Há desde histórias e autores clássicos, como Carlos Drummond de Andrade e O diário de Anne Frank, até temáticas e personagens contemporâneos, como o feminismo que aparece em Chapeuzinho esfarrapado: E outros contos feministas do folclore mundial e Malala. O embate passado e presente, tradição e tendência está bem colocado e pode gerar boas discussões em sala de aula.

O PNLD avalia e disponibiliza as obras didáticas, pedagógicas e literárias às escolas da rede pública e às instituições educativas sem fins lucrativos conveniadas com o poder público. Desde 2017, a partir de um decreto que unificou dois programas (Programa Nacional do Livro Didático, PNLD, e Programa Nacional Biblioteca da Escola, PNBE) e lhe conferiu essa nova nomenclatura, também pensa a inclusão de outros materiais de apoio, como jogos educacionais e softwares. 

 

 

Ilustração Bruna Assis Brasil

 

Vale acessar na íntegra o site com as obras do grupo Companhia das Letras que foram aprovadas, assistir a aulas em vídeo e ainda consultar manuais de apoio ao professor, todos elaborados em parceria com a Comunidade Educativa Cedac. Mas quer já descobrir um pouco sobre o que vai encontrar? Confira a seguir os livros da categoria, que abrange 6º e 7º anos, com um resumo das possíveis abordagens propostas pelos vídeos e pelos manuais. E já fica o convite para você acompanhar nossa próxima postagem, que trará os livros da categoria 2 (8º e 9º anos). 

 

Categoria 1 – 6º e 7º anos 

 

Malala, a menina que queria ir para a escola 

 

Ilustração Bruna Assis Brasil

 

A partir de entrevistas coletadas em uma visita ao vale do Swat, em tempos de guerra, a jornalista Adriana Carranca conta de forma lúdica os momentos difíceis que Malala Yousafzai passou durante sua infância no Paquistão. A observação atenta da autora também fica presente no texto com a descrição detalhada das paisagens e dos lugares por onde passou, coroada pelas ilustrações de Bruna Assis Brasil. Malala, que em 2014 recebeu o prêmio Nobel da Paz, inspirou a escritora brasileira a registrar sua história, dentre outros aspectos, pela sua vontade grande de perguntar às pessoas e aos livros. Na obra, os professores têm a oportunidade de discutir com os alunos temas urgentes como a escola, a família e o encontro com as diferenças. E, pensando em uma atividade interdisciplinar com a disciplinade artes, o educador pode propor a elaboração de um livro-álbum autobiográfico.

 

Minha querida assombração

 

Ilustração Rodrigo Rosa

 

Neste romance, o sociólogo Reginaldo Prandi escreve sobre as histórias mal-assombradas que ainda habitam o interior do estado de São Paulo. Tendo na sociologia a religião como seu principal foco de estudo, recupera o assunto sobre essa crença em torno dos contos de suspense que fazem parte da tradição caipira. É justamente nesse ponto de "mundo natural/mundo social" que se concentra um dos temas a ser aproveitado em sala de aula. Pensando nele e nas possibilidades de desenvolver discussões sobre uma cultura que se difere das cidades, é interessante considerar a inclusão do livro em um projeto pedagógico atrelado a um momento de leitura compartilhada. A respeito da interdisciplinaridade da obra, temas como "o sujeito e seu lugar no mundo” podem ser abordados nas aulas de geografia, como sugere Alda Beraldo (CEDAC), neste manual do professor. 

 

As velhas fiandeiras

 

Ilustração Raul Aguiar

 

Cinco autores assinam esta peça que, seguindo uma prática cada vez mais comum nos dias de hoje, é resultado de um "processo colaborativo", feito em grupo, envolvendo improvisação, escrita livre ou planejada. A história teve como ponto de partida o conto "As três fiandeiras", dos irmãos Grimm, e uma versão dele feita pelo folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascuda, "As três velhas". Tendo como protagonista uma menina que não se identifica com a tradição de fiar, a qual parece ser sua sina, a dramaturgia trata sobre temas importantes para o desenvolvimento da criança e do adolescente, como o autoconhecimento. O desafio imposto pela leitura de uma peça permite que sejam elaboradas estratégias para a apreciação estética da obra. Os diálogos do gênero são um prato cheio para tratar a questão da oralidade e, nesse sentido, explorar a inventividade dos alunos em uma prática de leitura em voz alta.

 

O dia em que minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas 

 

Ilustração Vin Vogel

 

Escrito por Keka Reis e ilustrado por Vin Vogel, o livro envolve e diverte o leitor com um ritmo ágil. Assim como a protagonista de As velhas fiandeiras, Mia também está em uma fase de mudanças e descobertas. Os conflitos da personagem, desse modo, podem ser puxadores de conversas que giram em torno de assuntos como autoconhecimento, amigos e escola. Outros elementos fazem com que a leitura da obra valha a pena, como o uso de alguns recursos de linguagem pela autora, que enriquecem o texto e o tornam mais expressivo, e o tempo da narrativa que relata um único dia de aula. Sobre as discussões que o livro suscita, a capa pode ser bastante explorada nesse sentido, seja pela análise das ilustrações seja pela tentativa de entender as motivações do título. Afinal, por que é tão longo? 

 

Histórias de antigamente

 

Ilustração Patricia Auerbach

 

A memória também é contemplada no PNLD 2020. Na obra Histórias de Antigamente, a autora Patricia Auerbach relembra histórias que ouviu quando criança e conta sobre períodos que precederam algumas grandes invenções, tais como a geladeira e o vaso sanitário. Esse tema do mundo natural e o mundo social, assim como os diálogos do livro com história e filosofia, já seria bastante interessante para gerar diversas discussões na sala de aula. Mas as ilustrações acrescentam mais uma possibilidade de interpretação. Permitem que o leitor tire suas próprias conclusões da relação entre texto e imagem, como no caso da onomatopeia “shhhhhhh”, que é ilustrada antes de a escritora expor suas memórias sobre a televisão nas páginas seguintes. O leitor se utiliza de seus conhecimentos prévios para extrair significados antes mesmo da leitura da narrativa verbal.

 

Os Lohip-Hopbatos em A guerra da rua dos Siamipês 

 

Ilustração Suppa

 

Sete jovens precisam ultrapassar as diferenças e se unir quando dois ipês da rua onde moram, que servem de sombra para os encontros diários, estão sob risco de serem derrubados. Do escritor paulistano Flavio de Souza, esse livro sensibiliza o leitor para temas sobre relacionamentos e sobre a transição da infância para a adolescência. "O conflito central da história propicia, entre outras reflexões, que o estudante pense sobre as políticas públicas para o lazer e a ocupação de áreas sem uso da cidade", explica Daniela de Amorim Lopes (CEDAC), no manual do professor. O plano de fundo da narrativa é a diversidade, cada jovem possui uma etnia, uma faixa etária e uma classe social. Assim, pode ser pensado um projeto interdisciplinar que articule as aulas de língua portuguesa e geografia. Ao considerar esta segunda disciplina uma oportunidade para promover a "consciência socioambiental e o respeito à biodiversidade e ao outro", como propõe a BNCC.

 

A esperança é uma menina que vende frutas  

 

Ilustração Amrita Das

 

Sendo uma das principais representantes da arte folclórica indiana Mithila, a artista Amrita Das escreve e desenha sobre as dificuldades de uma infância pobre e a vida das mulheres na Índia. Ainda que escrito em prosa, o texto revela um tom poético e tem a prosopopeia como figura de linguagem bastante presente. Além de apreciar um livro de estética vigorosa, o estudante pode refletir, impulsionado por um olhar mais crítico, sobre as desigualdades sociais e de gênero. Ao colocar o aluno diante de uma arte tão tradicional da Índia, o educador também pode elaborar atividades voltadas ao campo da arte. E, após o contato com uma outra cultura, pode ser proposta uma pesquisa sobre a arte tradicional brasileira, por exemplo.

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