Precisamos falar sobre Kevin. E princesas

Kevin não quer ser o Super-Homem. Nem caubói. Nem bombeiro. Kevin quer se vestir é de princesa para ir à festa da escola. E não é qualquer princesa. É princesa de salto alto, maquiagem com base, coroa e tudo. Mas será que pode isso?

(Ilustração do livro "A Princesa Kevin")

No livro “A Princesa Kevin”, de Michael Escoffier, pode, sim! Ainda que Kevin se sinta bem consigo mesmo e feliz com sua fantasia, porém, isso não o protege de enfrentar olhares de espanto e rejeição. Com humor e delicadeza, a obra abre a possibilidade de refletir sobre fantasia, no sentido do faz de conta, e também identidade de gênero, porque há muitas questões em jogo quando um menino quer se vestir ou brincar com o que acabou socialmente e culturalmente definido como sendo de menina, e vice-versa. E abre uma possibilidade ainda maior de discussão: como pais, cuidadores e educadores podem lidar com a curiosidade das crianças por experimentar outros papéis.

 

Na fantasia pode tudo?

“Não existe roupa de menino ou menina no sentido de que as crianças precisam ter liberdade de vestir o que elas quiserem e experimentar a fantasia na infância”, explica a psicóloga Nanda Pontual Perim. Também para Adriana Friedmann, doutora em Antropologia, mestre em Educação e coordenadora de pós-graduação d’A Casa Tombada, a fantasia deve ser explorada livremente pelos pequenos: “É válido o brincar simbólico, que permite experimentar diversos papéis”.

 

“A menina pode experimentar roupas de menino e gostar e vice-versa. Mas isso não significa nada necessariamente." (Nanda Pontual Perim, psicóloga)

 

A criança pode passar por fases, de se vestir de princesa, depois de Hulk, depois de sereia, depois de astronauta... Para a psicóloga, quanto mais essas experimentações e mudanças forem tranquilas e bem vivenciadas, mais cedo a criança pode partir para novas etapas e experiências. “A menina pode experimentar roupas de menino e gostar e vice-versa. Mas isso não significa nada necessariamente. Temos que tomar cuidado para não querer colocar a criança na terapia ou pensar que é transgênero só por conta disso”, alerta. 

 

Como saber se é um caso transgênero

Casos de crianças transgênero, ou seja, que não se identificam com a identidade de gênero (homem ou mulher) correspondente ao seu sexo biológico, existem, sim. Mas os sinais vão muito além de querer usar fantasias e roupas atribuídas ao outro gênero. “Essas crianças se identificam tanto a ponto de pedirem para outras pessoas usarem pronomes correspondentes ao outro gênero – por exemplo, usar “ela” em vez de “ele” ou vice-versa. Querem participar socialmente de grupos do gênero com o qual se identificam e até podem se automutilar [por não aceitarem seu sexo biológico]”, explica Nanda. Há um conjunto de fatores que englobam o jeito como a criança se expressa, como se identifica e como quer ser tratada pelos outros aos quais os adultos precisam estar atentos para identificar a disforia de gênero.

 

Nem todo mundo entende

Embora o preconceito com meninos se vestindo de meninas e vice-versa não seja novo, para Adriana, as pesquisas sobre a relevância do brincar têm, em certa medida, ajudado a quebrar barreiras. “Com os crescentes estudos sobre a importância e os benefícios do brincar – sobretudo como oportunidade de expressar emoções, sentimentos, fantasias, realizar medos, perdas, frustrações, imitar e experimentar a vida à sua volta –, temos pais e educadores compreendendo e liberando a importância de deixar a livre expressão das crianças”, explica.

(Ilustração do livro "A Princesa Kevin")

Ainda assim, é importante que os pais preparem a criança que deseja experimentar outros papéis para lidar com terceiros. Se um menino quer, por exemplo, usar uma sapatilha rosa com um laço, os pais e cuidadores precisam alertá-lo sobre possíveis repreensões e até ofensas. “Eles podem explicar que antigamente isso não acontecia, que quando nossos avós eram crianças, achavam que era feio um menino usar roupa de menina”, sugere Nanda. 

 

A evolução do vestuário e a divisão de gêneros

Aliás, a própria evolução do vestuário mostra que as roupas divididas por gêneros são convenções que mudam ao longo dos tempos. Na Idade Média, por exemplo, meninos e meninas de até 3 anos usavam batas e vestidos. No século XVII, o rei da França Luís XIV, conhecido como "Rei Sol", instituiu peruca e salto alto como artigo comum no vestuário de luxo, para homens e mulheres.

Mesmo o "azul para meninos e rosa para meninas" é uma invenção (ou convenção) relativamente recente - o branco foi a cor universal para as crianças por muitos séculos. Até os anos 1920, não existia essa distinção e havia quem defendesse o rosa para os meninos, por ser considerada uma "cor mais forte". A divisão como conhecemos hoje aparece, de forma consolidada, nos anos 1980 - e cada vez mais acentuada com a popularização de exames de ultrassom e enxovais divididos por gênero. No entanto, é bom lembrar: uma roupa é uma roupa e, para uma criança, pode significar uma brincadeira, uma fantasia, uma experimentação de papéis ou a forma como ela prefere se mostrar ao mundo. 

 

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