Por que é importante contar histórias na cidade?

 

Em meio a uma cidade movimentada e barulhenta, uma placa pendurada numa das artistas indicava: “Área de sonhar acordado”. Com o objetivo de traçar uma cartografia sensível no espaço urbano, elas estavam pelas ruas a perguntar aos transeuntes onde era o melhor lugar para se sonhar acordado naquela urbe. A ação performática foi reunindo um grupo de pessoas, que acabaram rumando para a praia, onde sentaram todos juntos à beira-mar, sonhando de olhos abertos.

Essa é uma das experiências do coletivo As Rutes, criado por Cristiana Ceschi e Beatriz Carvalho, que contam histórias pela cidade a partir da desfuncionalização de elementos bem comuns a quem habita o espaço urbano. Fazem convites para transeuntes perceberem que são também organismos vivos do lugar. Dizem que dessa forma é possível penetrar o campo imaginário da urbanidade.

“A cultura da infância permeia toda a nossa pesquisa e toda a intenção do trabalho, pois, inspiradas no mundo simbólico, na fantasia, na brincadeira da criança que fomos um dia e daquelas com as quais convivemos, conseguimos elaborar ações bem simples, afetuosas e com muito senso de humor”, conta Cristiana, atriz, cientista social e mestre em ensino e aprendizagem da arte pela ECA – USP com a dissertação A menina, o cavalo e a chuva – A arte de contar histórias e a cibercultura, sob orientação de Regina Machado.

Fundou o coletivo As Rutes em 2007, em parceria com Beatriz, artista visual, animadora e arquiteta, num trabalho que começa com a criação de dispositivos diversos de escuta no espaço público para coletar histórias de vida, histórias do “homem comum”, tendo como objetivo integrar as diversas possibilidades narrativas que possam unir artisticamente as histórias da literatura e/ou tradição oral e as histórias do tempo presente, cotidianas.

 

 

“Entrar em contato com nosso mundo interior, com os símbolos nele contidos, vivos e em diálogo com o mundo em que estamos imersos é o nosso grande desafio.” Outro exemplo desse modelo de intervenção artística é a itinerante Botica de Histórias. Nela, as integrantes do grupo andam pelos espaços munidos de “instrumentos de avaliação poética” e um tabuleiro pendurado no pescoço cheio de frascos de várias cores e tamanhos que guardam histórias e poemas (re)mediadoras de todos os males. Ao encontrar potenciais participantes, depois de uma conversa bem humorada, as artistas fazem a pergunta: “Onde dói?”. E assim escolhem um frasco e entregam a melhor história/poesia para cada resposta.

 

 

Já num formato mais tradicional de narração de histórias, o foco é em temas que sejam importantes no tempo presente. Alguns exemplos são as sessões de contos O jogo de você: contos ancestrais sobre a fantasia de ser o que se é, que visa desconstruir estereótipos de gênero com histórias de donzelas guerreiras e príncipes amorosos, e Histórias de viajantes bem-vindos, sobre aqueles que fogem de seu lugar de origem em busca de uma vida próspera e de pertencimento. “Apresentamos caminhos de transformação em que o encontro com o "diferente" enriquece e enaltece a existência humana”, completa a narradora.

A inspiração da narração de histórias vem dos tempos de menina. Filha de livreiros, Cristiana teve uma infância cercada de livros. Vivia brincando sozinha, inventando histórias e imaginando mundos secretos. Hoje, artista da palavra, trabalha cada vez menos no palco e mais nos lugares onde as artes podem aparecer de maneira inesperada. Na cidade, por exemplo, “onde interferimos mais diretamente nas relações sociais, no espaço público, nas dinâmicas existenciais de quem está ali inesperadamente envolvido, não mais segmentando a vida”.

Desde 2002, quando começou a contar histórias, defende a constante reinvenção dos contadores de histórias atuais. “Hoje a indústria do entretenimento comanda o mundo barulhento da quantidade de informações e estímulos sensoriais, que tende a dificultar o encontro, a comunicação e a qualidade de desafios perceptivos que as histórias oferecem às pessoas no silêncio de sua escuta.”

Cristiana também sugere espaços de formação em literatura, oralidade e escrita, sendo alguns importantes para seu próprio repertório sediados em São Paulo, como o encontro internacional de contadores de histórias Boca do Céu e os cursos livres e programas de pós-graduação d’A Casa Tombada. Mas não ignora o conhecimento além do padrão formal: “De tudo que uma história faz por nós e em nós, o que especialmente me encanta é o quão nutritiva ela é para a nossa imaginação. Quando ouvimos uma boa história, ficamos livres para ir além dos limites impostos pelo o que vemos, ouvimos ou sentimos, transpomos as barreiras do real experimentando maneiras distintas de existir”.

 

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais