Pandemia: ação une livros parados a alunos que precisam

Com as bibliotecas escolares e públicas fechadas por conta da pandemia por Covid-19, os estudantes que precisavam emprestar livros para seguir com seus estudos se viram, de uma hora para outra, sem ter como continuar com suas leituras. Comprar tantos livros não é solução para a maioria das famílias. Então, como se virar nesse período?

(Álvaro Samuel de Oliveira Batista, 16 anos, com os livros que pediu e recebeu de doadores / Arquivo pessoal)

 

Foi pensando nisso que o projeto Quero na Escola – que tradicionalmente promove o encontro das necessidades dos alunos das escolas públicas, para além da grade curricular, com o trabalho de voluntários – lançou uma nova ação de doação de livros. A plataforma continua com seu DNA: conectar estudantes a voluntários, mas, em vez de serviços, crianças e adolescentes (acima de 12 anos) pedem obras literárias específicas e o projeto dá match com quem tem o livro parado em casa ou pode comprar um para doar.

Os estudantes entram no site do Quero na Escola, preenchem o cadastro e indicam qual livro estão precisando. Cada pedido é analisado, a plataforma entra em contato com o aluno e, só depois de tudo checado, o pedido é liberado para visualização. Quem tem algum dos livros pedidos e que já não os utiliza mais ou deseja comprar para presentear também se inscreve na plataforma e os administradores fazem a conexão entre os dois.

“Sabemos que há obras que estão disponíveis gratuitamente online, principalmente as de domínio público. Vamos, inclusive, compartilhá-las com os estudantes. Ocorre que nem sempre são os livros que eles precisam, inclusive livros obrigatórios em grandes vestibulares. Além disso, achamos que o livro presenteado nas mãos do estudante atende a mais objetivos do que apenas o conteúdo: mostra empatia com os jovens que estão sem escola para evitar a propagação do vírus”, explica a jornalista Cinthia Rodrigues, uma das fundadoras do Quero na Escola.

 

Demanda veio dos alunos

A semente dessa ação de doação surgiu entre os próprios estudantes. Cinthia conta que, no início da pandemia, o Quero na Escola migrou dos encontros presenciais para os virtuais – na plataforma, alunos do Brasil inteiro costumam pedir aulas e palestras que estão fora da grade curricular, como sobre feminismo, fotografia, grafite, música, dança, informática, depressão, drogas, mercado de trabalho, gastronomia, desenvolvimento sustentável, racismo, bullying entre outros; do outro lado, voluntários se candidatam a falar sobre esses assuntos ou ministrar oficinas. Mas o formato das lives – foram mais de 50 nesse período – começou a ficar cansativo depois de um tempo e os coordenadores consultaram o Conselho de Estudantes para ouvir de que forma poderiam ajudar mais. “Um dos alunos comentou que queria um ‘drive de livro’, porque desejava estudar e não tinha como comprar todos os livros obrigatórios”, comenta ela.

Esse aluno é Álvaro Samuel de Oliveira Batista, 16 anos, aluno do 2o ano do ensino médio. “Por causada quarentena, o ensino remoto apareceu como uma alternativa, mas algumas coisas importantes eram marcantes no ensino presencial, como o empréstimo de livros das bibliotecas. E isso aconteceu comigo, pois eu senti a necessidade de realizar uma leitura para estudo e não encontrei em casa”, diz ele. Em menos de três dias após cadastrar seu pedido na plataforma, Álvaro recebeu os dois livros solicitados: “Poemas escolhidos de Gregório de Matos”, com seleção de José Miguel Wisnik, e “Angústia”, de Graciliano Ramos. 

A iniciativa foi muito bem recebida. Lançada no dia 6 de julho, tinha até ontem 130 inscrições de alunos e 61 voluntários, e já foram enviados 25 livros pedidos. Era para ser uma ação de quarentena, mas o sucesso foi tanto que há uma possibilidade – ainda a ser estudada quanto à viabilidade – de tornar a ação permanente.

 

Sucesso do Quero na Escola

Independentemente de a campanha continuar, assim que a pandemia acabar, o projeto Quero na Escola volta com as ações presenciais. Lançado em 2015, o programa já se espalhou para oito estados do Brasil e atende um número cada vez maior de estudantes. Somente no ano passado, 79 escolas receberam visitantes para a realização de 173 atividades no total. Isso representou 11.846 estudantes atendidos e 200 voluntários mobilizados, além de 782 educadores. Um trabalho que só vem a somar ao esforço dos professores das escolas públicas.

 

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