Oxigênio para leitores

 

 

Por Peter O’Sagae

 

Livros independentes, arte impressa e literatura para crianças?

Começo este texto com uma só interrogação que, na verdade, esconde três outras perguntas: o que significam essas categorias em tempos de significativas transformações no cenário editorial brasileiro?

Muitas dúvidas se insinuam a nosso olhar, ao entramos em uma feira de publicações independentes com alternativas díspares reunindo artistas gráficos, escritores e coletivos autopublicadores, pequenas e pequeníssimas editoras, até mesmo editoras de uma única pessoa... Num primeiro golpe de vista, tudo pode parecer confuso e já alguma coisa dentro de nós faz soar o alarme da desconfiança. No entanto, esse tipo de evento vem se tornando uma constante em grandes cidades e capitais, no intuito de fomentar uma produção cultural bastante diversa.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Feira Tijuana. Plana Festival. Miolo(s). Feira SUB. Parada Gráfica. Parque Gráfico. Faísca. Ugra Fest. Maru’99. Tinta Fresca. PrintA-Feira. Kraft. Dente. Grampo. Folhetaria. E-cêntrica. YOYO. Esses são apenas alguns nomes que podem servir de alinhavo para quem deseja conhecer o novo ambiente que tem se formado ao longo dos últimos anos, através de espaços culturais, universidades, ruas, escolas, bibliotecas públicas etc. Talvez essa cena pareça vir à deriva dos eventos do mercado livreiro tradicional, como as bienais, feiras e festas literárias, mas não. Essa movimentação de publicações autorais existe quase desde sempre, juntamente ao ideário da contracultura típica dos anos 1970, da arte “alternativa”, do universo particular das fanzines ou de propostas a partir de residência artística e literária. É tudo isso e mais um pouco. É nesse contexto de experimentação da arte impressa que podemos nos orientar.

Sinto que meu envolvimento com esse modo de perceber e produzir livros artesanais tenha começado uns cinco anos após concluir meu doutorado em letras, quando o mercado da literatura infantil já dava sinais bastante claros de sufocamento. No final de 2014, abri uma oficina chamada Escrever para Crianças no intuito de trabalhar mais de perto com autores ou futuros autores. Como leitor crítico de diferentes casas editoriais, era comum encontrar originais-nada-originais, fosse na escolha de temas, na constituição dos personagens, além de falhas graves na estrutura e na linguagem narrativa. Muito do que me vinha para avaliação era tedioso.

O que não imaginava, então, era que minha necessidade pessoal de ler e acompanhar os processos criativos de outras pessoas viesse resultar em um coletivo literário. Em 2016, eu já era um tímido visitante das feiras de publicações independentes e incentivei seis participantes que resistiam comigo, por quase dois anos no exercício do texto, a formarem um grupo rumo à autopublicação e à participação naqueles eventos. Estive com a BabaYaga desde a escolha do nome. Fizemos a inscrição para a Feira Miolo(s), mas parecia que a coisa não ia dar em nada... Quando fomos aprovados, ficamos alegres e imediatamente apavorados porque não tínhamos uma produção fora de nossas cabeças. Foi preciso encarar a realidade de que nem tudo o que se sonha e escreve torna-se factível com as possibilidades de impressão (incluindo as financeiras).

Contudo mergulhamos na brincadeira e na interação por meio das redes sociais. Na fanpage da BabaYaga, fomos publicando receitas culinárias cheias de nonsense, durante um mês, e depois abrimos um concurso para “escolher” o nome do verdadeiro bicho-papão, enquanto corríamos com a produção das primeiras publicações: um poema transformado em livro-concertina, um conjunto de parlendas na forma de encartes, um pequeno livro impresso convencionalmente.

Após um ano de trabalho e exposição com o coletivo, decidi me afastar e reentrar na cena das publicações independentes numa atitude quase solo. A Suryara também deixaria o grupo logo depois. Conversamos. É como se existisse um amor de outra vida, de outra “encadernação”, e inventamos ser os 2 no Telhado. Nosso trabalho tem focado livros de caráter artesanal. Queremos entender como funcionam os variados tipos de costuras manuais, livros-cenários e brinquedos de papel. As tiragens simplesmente são feitas em escala de trinta, setenta, mal chegando a cem exemplares. Definimos também um universo de criação povoado de animais da noite e seres imaginários, gostamos do jogo de luz e sombra, transformações, investindo no folclore, na poesia e numa espécie de literatura infantil não-infantil. Arriscamos a fazer cadernos de artigos teóricos. Para o próximo ano, nosso desafio será uma novela gráfica.

Ora, essa é a liberdade com que se pode assumir o jargão das publicações independentes: escrever, ilustrar e produzir livros seguindo nossa própria vontade, a despeito do tamanho que tenhamos.

Tem ocorrido uma constrição do mercado editorial, pelo menos, em marcha desde 2010. Esse fenômeno pode ter passado despercebido para algumas pessoas, em função, por exemplo, do Acordo Ortográfico em vigor a partir de 2009, que levou a estender por mais alguns anos as aquisições do Governo no setor da literatura no que toca à distribuição de obras às escolas de educação infantil até o ensino médio. No entanto, já víamos uma diminuição do número de profissionais nas grandes casas editoriais.

Explico: um editor não apenas deveria gerenciar o negócio dos títulos, mas passaria a desempenhar outras atividades, como a leitura crítica, a preparação de texto, a revisão, a tradução, a elaboração de materiais para divulgação, os textos de quarta capa, e, com isso, eliminando demais colaboradores. Lembro de, nesse período, ter participado de uma convenção de vendas cuja impressão que me deixou era que ali se celebrava o fim do autor em favor de uma supereditora de conteúdos na produção do livro. Existe mesmo uma anedota a respeito de que autor bom é autor morto porque não reclama direitos nem vencimentos... Em outras palavras, o velho e sonhado nicho de criação deveria passar à mão de poucos, com a exclusão de muitos. Assim, a alternativa dos coletivos, escritores e ilustradores que publicam o próprio trabalho não é apenas uma postura de enfrentamento, mas um desejo maior de expressão e sentir que são ainda capazes de produzir cultura.

A novidade estaria no fim dos limites impostos pela indústria livreira, mas isso é somente uma aparência. Os papéis se fundem nas pessoas: editores que aprendem a escrever, escritores que aprenderam a editar.

No entanto, é também uma volta ao passado e à fervilhante propagação de um sem-número de publicações, na forma de livros, folhetos, broadsides e cartazes, com o advento da prensa por tipos móveis no século XVI. Agora, os meios tecnológicos facultam o manuseio digital de arquivos de literatura e da imagem no exercício do design. A passagem da máquina para a impressão física se faz com muito mais facilidade. Não bastassem essas pequenas revoluções que a informática trouxe para o cotidiano, temos o resgate de variadas técnicas de reprodução, a exemplo da xilografia, a serigrafia, os carimbos, ao lado dos meios mecânicos como a risografia, a fotocopiadora, as máquinas tipográficas. Tudo ao alcance das mãos e dos sonhos, opondo-se algumas vezes, combinando-se em outras, com as possibilidades de uso do papel, celuloide e outras superfícies na impressão digital ou offset. Penso ser isso o que se pretende nomear de arte impressa: uma riqueza de combinatórias.

As publicações assim impressas vão ganhando coloridos móveis, tomam outro corpo ou acento palpável. Vamos imaginar que um ilustrador decida criar seus desenhos com a intervenção de uma linha de costura ou bordado. No modo convencional, para uma produção em larga escala como é a indústria dos livros para crianças, a arte será fotografada, passará por um tratamento antes de ser impressa e, calibrados os equipamentos, todos os livros resultarão em um mesmo produto, idêntico em suas várias cópias. Haveria outra possibilidade: uma costura em linha reta nem precisa ser feita à mão sobre a arte, sendo então adicionada ao desenho digitalizado graças a potentes editores de imagem. Por sua vez, numa produção artesanal, em pequenas tiragens, o autor pode costurar ou bordar uma linha por si mesmo, tarefa que dará ao público um bom número de exemplares que se distinguirão uns dos outros de maneira intencional ou acidental. No lugar da imagem da linha, ou seja, um simulacro seu, cada leitor terá uma linha real na ponta dos dedos.

Autores e leitores encontram-se também mais próximos nas feiras e nos contatos pelas redes sociais. Além da intimidade acerca da criação literária, gráfica e editorial, a troca de conhecimentos e afetos, existe uma aprendizagem mútua sobre o manuseio do papel, as dobras e as aberturas que se pode oferecer, a recolocação de imagens no espaço da página, a legibilidade da palavra. Em cada encontro, o autor-editor independente pode tomar para si uma lição para um projeto futuro ou mesmo corrigir a edição que está comercializando naquele instante, rumo à próxima tiragem. É contagiante a troca entre os produtores durante os eventos à medida que todos se colocam, coletivamente, em situação de aprendizado e torcem pelo sucesso recíproco. As feiras tornam-se ambientes de circulação de ideias e admirações, de onde podem surgir parcerias entre expositores que conviveram, no mínimo, seis horas respirando o mesmo entusiasmo em um final de semana.

Talvez ainda seja baixa a frequência de crianças nas feiras de arte impressa e publicações independentes, embora venham se desenhando para elas espaços específicos como a Miolinho(s) e o Parquinho durante a Feira Miolo(s) e o Parque Gráfico que acontecem, respectivamente, em São Paulo e Florianópolis. É preciso citar o desbravamento da Feira YOYO dedicada inteiramente ao público infantil. Contudo, as publicações destinadas para crianças não se encontram apenas nesses eventos. Ao lado da produção para diferentes públicos, bancas de jornal revitalizadas e novas livrarias têm aberto portas para esses livros e toda sorte de impressos e brinquedos de papel.

Em um viés particular, diferente de artistas independentes que contam apenas com um circuito de feiras já estabelecido, as pequenas editoras têm sido vistas como um nicho para o mercado de livros, não apenas devido às alternativas de mobilidade que inventaram: triciclos, carrinhos, kombis, chamando nossa atenção, mas devido a um contato menos burocrático para a decisão nas vendas e sua disposição para dizerem sim. Vale considerar as diferentes editoras que se afirmam independentes e também costumaram a responder aos mesmos editais de compra de livros junto a prefeituras, governo e outras instituições em pé de igualdade com as empresas do mercado mais tradicional; ora buscam definir um catálogo sustentado por diferenciais de qualidade, autores estreantes e outras inovações, ora tomam para si as tendências de temas já explorados pelas editoras dirigidas ao segmento escolar.

Os livros independentes, folhetos e brinquedos de papel oferecem muitas vezes aquilo que o mercado editorial considerou desinteressante para a publicação. As feiras são uma festa, um terreno onde se pretende fugir às repetições do costume, na forma e no conteúdo. Por isso mesmo, demandam uma reconstrução de leituras, a respeito do livro e os modos como fazê-lo, mediante a fragilidade, a magia e a resistência do universo de tinta e letras impressas. Cada evento vai abrindo espaço para uma atitude de desobediência lúdica, e isso é o que deve agradar a muitas crianças!

 

Peter O’Sagae é formado em Rádio e Televisão, doutor em Letras pela USP e pesquisador na área de literatura para crianças. Roteirista, professor, crítico literário, poeta e tradutor, escreve para o blog Dobras da Leitura, desenvolve livros artesanais como 2 no Telhado e tem publicado Uma noite para João, pela editora Paulinas.

 
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