Otávio Júnior, premiado com o Jabuti em 2020, lança livro infantil sobre o passinho

Otávio Júnior, escritor que ganhou o prêmio Jabuti de 2020 na categoria infantil com o livro Da minha janela, lança em julho seu novo título, De passinho em passinho, pela Companhia das Letrinhas. No livro, o autor - que já disse aqui no Blog que “a favela é um grande hub de criação e criatividade” - apresenta e homenageia um dos movimentos culturais mais criativos e genuínos que surgiram nas comunidades cariocas: o passinho, estilo de dança que nasceu no cenário do funk e ganhou o mundo.

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Uma homenagem poética, cheia de ritmo e movimento
sobre o passinho, que nasceu no meio do funk. Leia +.

Trazendo uma expressão da cultura popular urbana para a literatura, Otávio criou, com a ilustradora  mineira Bruna Lubambo, um cruzamento entre prosa poética, ilustração, movimento e som, dando mais camadas a um fenômeno que nasceu multiplataforma, com vídeos que eram postados nas redes sociais como principal forma de divulgação e comunicação entre os dançarinos. As imagens de Bruna conseguiram captar o movimento e a ginga dos jovens que dançam o passinho, usando moldes de estêncil, tinta spray e lápis de cor.

Em nova entrevista, Otávio fala sobre as inspirações para o novo livro, a admiração pelo passinho e a importância da literatura para sua formação como educador, mediador de leitura e livreiro.

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Ilustração de Bruna Lubambo para De passinho em passinho

Você diz no livro que não é muito da dança. Mas tem algum movimento do passinho que você arrisca? Quais artistas te influenciaram para criar o livro?

Bom, realmente eu não tenho as habilidades devidas para dançar o passinho. Eu acho incrível, acho maravilhosa a forma como esses jovens se comunicam com o corpo, se comunicam com os pés, se comunicam com as pernas. Eles são realmente artistas. Bom, artistas que me influenciaram foram alguns, sobretudo a galera do Passinho Carioca, que é uma companhia de dança da região onde eu vivo, no bairro da Penha (na cidade do Rio de Janeiro). Muitos desses jovens são oriundos das comunidades, eu já acompanho o trabalho deles há algum tempo, então eles me influenciaram bastante. E outros jovens também de outras regiões da cidade do Rio de Janeiro e de outras regiões do Brasil.

 

Na sua visão, o que é preciso para que outros “Otávios” despontem no meio literário e tenham o reconhecimento que você tem agora?

Bom, a literatura sempre foi muito potente na minha vida. Num primeiro momento foi através de uma busca pessoal, na qual eu me refugiava nas bibliotecas públicas da cidade do Rio de Janeiro, até mesmo para fugir de problemas pessoais. À medida que aumentava o meu acesso aos textos literários, aos livros de literatura, eu ia também me potencializando como um contador de histórias. E eu também fui desenvolvendo habilidades de escrita. Hoje eu percebo que aquele momento foi importantíssimo para o meu desenvolvimento pessoal.

 Eu acredito que os jovens quando têm acesso a uma boa educação, à educação artística, educação musical, educação esportiva, eles podem se desenvolver, desenvolver seus sonhos para desenvolver suas narrativas. E, no meu caso, a literatura foi muito importante.

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As pernas de mola dos dançarinos de passinho, por Bruna Lubambo

Qual a importância da literatura e das narrativas para a construção da identidade e do imaginário das crianças brasileiras, não só as das comunidades urbanas, mas de todas as classes sociais e regiões?

Eu acredito na potência da literatura também para o desenvolvimento de jovens em muitas periferias, não só a periferia urbana, como a periferia rural, como as periferias ribeirinhas, como as preferias indígenas, e eu luto para que esse acesso tenha constância nessas regiões. A minha ideia é potencializar esses jovens com a literatura, com as artes. Então eu sou muito grato pela literatura, que foi a primeira linguagem que eu tive um contato maior.

Atualmente, esse contato que eu tive com a literatura me potencializa também para construir narrativas, e muitas dessas narrativas são voltadas para o público da periferia, e também para que a periferia seja retratada através da arte. Às vezes, o que nós vemos na televisão sobre a periferia é 70%, 80% de questões negativas.

 

Os movimentos contagiantes do passinho, captados pela ilustração de Bruna Lubambo

Você pode falar um pouco sobre as suas influências na hora de escrever? Tem algum escritor ou escritora de livros infantis que marcou o seu fazer artístico? 

Eu sou muito grato à literatura, sobretudo a literatura infantil e juvenil. Desde muito cedo eu interajo com essa linguagem da literatura. Eu iniciei a minha trajetória como promotor e mediador de leitura, militante da promoção de leitura. Aí eu também tive a oportunidade de conhecer muitos autores, muitos ilustradores muitos editores, a partir de eventos literários de que eu participei.

Hoje eu posso dizer que esse processo das pessoas me ouvirem, me darem a oportunidade para que eu pudesse estudar literatura infantil nas instituições do fazer literário, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, como a Estação das Letras e outros lugares, foi importante para o meu desenvolvimento e hoje eu sou muito grato a esse universo.

E o Jabuti vem para consolidar as pessoas que de certa forma me deram apoio, que me fortaleceram quando eu necessitei de ajuda, de livros, de conselhos, de consultorias, então eu sou muito grato aos profissionais da literatura infantojuvenil.

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