Os “quintanares” do poeta-anjo

 

Estranhar o cotidiano era marca registrada de Mario Quintana (1906-1994), poeta que deixou um importante legado à literatura brasileira. Em sua vasta produção, seis títulos foram dedicados às crianças. Mas, assim como sugeriu em carta o amigo Érico Veríssimo, as obras infantis do poeta de Alegrete podem – e devem – ser também lidas por gente grande.

Uma delas é a recém-editada Pé de pilão, publicada neste mês pela Companhia das Letrinhas. Agora com as ilustrações de Rosinha, o livro traz em versos histórias diversas e divertidas, como a de um patinho que na verdade é um menino, um macaco retratista, uma fada maldosa que vive em uma floresta encantada. Em um texto dedicado à obra, Veríssimo compara o autor a um anjo disfarçado de homem. “Ser poeta é saber ver o mundo como o veem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem o lê o que ele vê e sente, em resumo, é ter os olhos para revelar a face secreta das pessoas e das coisas”, explica.

 

Ilustração de Rosinha para o livro "Pé de pilão"

 

A dica de Veríssimo é que o livro seja lido em voz alta: “Quem já souber ler, que leia este conto em voz alta e clara. Se não souber, peça a outra pessoa – mãe, pai, irmão ou irmã mais velha, baba, alguma titia... – que se encarregue disso. E, se durante a leitura por acaso aparecer na história alguma palavra que vocês nunca tenham visto antes, perguntem a quem sabe o que ela significa.” O escritor gaúcho ressalta ainda que o livro “se vai transformando, de verso em verso, no caso de outros personagens, bem como um rio que vai correndo para o mar e encontrando no caminho pessoas, animais e coisas que o leitor não esperava".

É assim também que o próprio autor descreve a sua obra: "Jamais compreendereis a terrível simplicidade das minhas palavras / porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves...". E é esse aspecto que tenta compreender Paulo Henrique da Silva Santos em sua dissertação de mestrado Mario Quintana: A (re)construção lírica do mundo, pela UFRJ. Ele explica uma busca de Quintana de sensibilizar o cotidiano, de demonstrar as suas necessidades imateriais por um tom introspectivo, o que ele chamava de "desmaterializações", ou "subjetivações de objetos".

É um discurso crítico que se combina com uma voz lírica em dois momentos: um primeiro, de aversão ao mundo externo, e um segundo, de sentido reformulador da realidade. Em um exercício constante da imaginação, faz uma “poética da negação”, rejeitando alguns valores modernos, “relação anuladora entre espaço infértil da urbanidade e elementos do espaço natural, bucólico, agora abafado”. É um poeta que exalta o contraditório e a liberdade. Chegou a dizer: “Não sou desses que um dia pensam uma coisa e no outro pensam outra coisa muito diferente. Eu penso as duas coisas ao mesmo tempo”, e até que “pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua”, como bem lembra o pesquisador no estudo.

Essa liberdade percorre as outras seis obras infantis de Mario Quintana. Primeiro livro infantil do poeta, O batalhão da letras foi publicado pela primeira vez em 1948. A poesia presente na obra apresenta também o alfabeto para os jovens leitores. Não só as letras têm vez, mas também sua forma gráfica e seus fonemas. Além disso, são associadas a diversos objetos do universo infantil. O site de curadoria de literatura infantil A Taba classifica essa obra como a "menos reflexiva" e a "mais lúdica". Também lembra que os poemas desse livro instigam a memória e a imaginação.

Lili inventa o mundo, de 1983, é uma reunião de 60 textos do autor, uma mescla de sua obra e das publicações no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, onde era colunista.  A protagonista é Lili, uma menina que vive no mundo do faz de conta, dentre textos poéticos e pequenas narrativas.

O tom em Nariz de Vidro (1984) é outro, com um humor irônico que traz a nostalgia e a ternura da infância. Outras obras que não subestimam os leitores e provocam reflexão são O sapo amarelo, de 1984, e Sapato furado, de 1994. O poeta ainda tem uma compilação de textos que podem ser lidos em sala de aula, Poemas para ler na escola - Mario Quintana, com a seleção de Regina Zilberman.

 

Ilustração de Rosinha para o livro "Pé de pilão"

 

A obra do autor, aliás, é bastante lida nas escolas. E circula em projetos como Crianceiras, de Márcio de Camillo, que transforma os poemas em canções, trabalhadas por professores tanto de Educação Infantil quanto de Ensino Fundamental. Também não faltam relatos de professores responsáveis por trazer a obra do autor para sala de aula, como Cláudia de Villar, que propôs leituras e interpretações de alguns poemas, e Jussara de Barros, que sugere passeios a museus e casas de cultura.

Você sabe quem é Mario Quintana?

O poeta e tradutor nasceu na cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1906. Não se casou nem teve filhos. Um fato curioso de sua vida é que morou a maior parte da vida em diferentes hotéis, sendo um deles o Hotel Majestic, em Porto Alegre. Viveu durante 12 anos no apartamento 217. Em 1982, o governo do Rio Grande do Sul comprou o prédio e transformou o lugar em um grande Centro Cultural, que hoje oferece uma programação variada de cinema, música, dança, artes visuais e teatro.

Outro episódio instigante de sua vida é a participação na revolução de 1930, momento histórico que levou Getúlio Vargas ao poder. Naquela época, integrou durante seis meses o 7o Batalhão de Caçadores de Porto Alegre como voluntário. Também chegou a tentar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1981, sem sucesso. Isso, no entanto, não diminui em nada seus méritos – é até hoje reconhecido como o poeta do cotidiano e do lirismo, especialmente por sua obra infantil.

De Alegrete, sua cidade natal, ganhou uma placa de bronze como homenagem, à qual respondeu com a frase irônica: “Um engano em bronze é um engano eterno”. Recebeu também versos de outro grande nome da literatura brasileira, Manuel Bandeira, que lhe escreveu:

“Meu Quintana, os teus cantares

Não são, Quintana, cantares:

São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…

Insólitos, singulares…

Cantares? Não! Quintanares!”

 

 

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