Os personagens LGBT+ na literatura para jovens

 

Faltavam apenas dois dias para a última Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, quando, em plena avenida Paulista, escritores se reuniam na livraria Martins Fontes, na sexta-feira (21), para o Encontro YA: Livros e personagens LGBT+, a fim de discutir a diversidade (ou a falta dela) em personagens da literatura juvenil. Dentre os convidados estavam Lucas Rocha (Você tem a vida inteira; editora Galera Record), Duds Saldanha (Confetes e serpentinas; editora Iris Figueiredo), Laura Pohl (The last 8; editora Sourcebooks Fire) e Johnatan Marques (Se tudo der errado amanhã editado por Sofia Soter e Oséias webcomic interativo). Conversamos com os autores nacionais e o mediador e também autor Eric Novello (Ninguém nasce herói) sobre a importância desse tema no contexto político vivido no país. 

Os personagens LGBT+ são minoria na literatura brasileira. É o que diz a pesquisa Personagens do romance brasileiro contemporâneo, realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), coordenado pela professora e pesquisadora Regina Dalcastagnè. Nos livros estudados que foram publicados entre 2005 e 2014, 88% dos personagens eram heterossexuais; 3,2%, homossexuais; e 4,4%, bissexuais. O resultado não é muito diferente de outros períodos, como 1990-2004, quando 81% dos personagens eram heterossexuais; 3,9%, homossexuais; 2,4%, bissexuais; e 1965-1979, quando 88% eram heterossexuais; 2%, homossexuais; e 2%, bissexuais.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Johnatan Marques, autor de Se tudo der errado amanhã, constata essa realidade em suas leituras. Avalia que a narrativa dirigida à juventude ainda é muito branca e heterossexual. "Existem jovens não brancos e que fazem parte da comunidade LGBT+ e que precisam se sentir parte do mundo, ver personagens como você nos livros provoca uma identificação maior." Isso gera um "senso de pertencimento", de perceber que outras pessoas passam pelas mesmas situações que as suas – o que não aconteceu durante a sua juventude. Ressalta também a importância de jovens que não sejam LGBT+ também terem proximidade com essas narrativas. Eles podem, a partir de leituras como essas, colocar-se no lugar de outros, conhecer realidades distintas, criar empatia por pessoas diferentes e, assim, evitar casos de bullying e homofobia nas escolas. 

Ainda sobre representatividade na literatura, Eric Novello, que publicou Ninguém nasce herói pelo selo Seguinte e também traduziu Fera do mesmo selo, comenta: "A ficção é uma ferramenta de criação de uma imagem da realidade. Ela pode ajudar um país a criar uma identidade cultural diante do mundo e dentro do seu próprio território, e essa 'imagem' vem sendo usada como uma ferramenta de dominação, de manutenção de opressão e de apagamento". E relembra o que o motivou a incluir personagens LGBT+ quando começou a se dedicar à carreira de escritor: "Parei para me questionar sobre o óbvio: Por que estava tão empenhado em me excluir das minhas próprias histórias e retratar como heróis dentro delas justamente um grupo de pessoas que me humilhava e excluía? Por que as pessoas com quem eu convivia, as pessoas que eu chamava de 'amigos', não existiam no que eu escrevia?".

Lucas Rocha é outro autor que percebe essa falta de diversidade de histórias na literatura brasileira desde a infância. Ele não se lembra de consumir conteúdos com personagens LGBT+ naquela época. Eram escassos e de difícil acesso. Hoje, ele traz essas personagens em seus textos pelo simples fato de estarem em todas as esferas da sociedade. Não seria coerente ignorá-las ao escrever histórias ou tratá-las como "meros acessórios" de uma narrativa. É dessa invisibilidade que nascem os tabus e os preconceitos. "Qualquer assunto precisa ser pensado antes de ser transmitido para uma determinada faixa etária, desde nutrição e matemática até sexualidade e identidade de gênero. O problema é esconder o assunto e fingir que ele não existe. [...] O diálogo ainda é a melhor forma de educação." 

 

Ilustração de Renata Nolasco para o livro Se tudo der errado amanhã

 

Ele também aponta a importância de "normalizar essas referências", ou seja, aproximar essa experiência de seus leitores. Para os leitores jovens, como é o seu caso, esse encontro é ainda mais potente, já que estão em uma fase de descoberta da sexualidade, o que pode ser um processo muito solitário. "Ter referências onde isso é normalizado faz com que o leitor atravesse essa fase com um pouco mais de consciência sobre o seu lugar no mundo", explica. "A ficção é um espaço propício para que esse público se veja e possa entender que suas angústias são válidas e não devem ser diminuídas", completa. 

Já Duds Saldanha, que faz parte da coletânea Confetes e serpentinas: uma coletânea de carnaval, a relevância no contexto atual em falar sobre sexualidade e se dizer bissexual é enorme, mesmo que a sexualidade de cada um seja um assunto íntimo. É uma discussão que ajuda aqueles leitores que estão enfrentando desafios nessa fase de descobertas. "É importante que outras pessoas vejam aquilo e se sintam menos sozinhas. Se sentir solitário é a pior coisa do mundo, e uma simples representatividade pode mudar muito." 

Ela ainda acrescenta que não há uma idade certa para começar a falar no assunto – cada pessoa aprende em uma velocidade diferente e é criado em um ambiente diverso. Mas conta que gostaria de ter aprendido quando tinha seus 13, 14 anos. "Eu teria me entendido melhor como pessoa bem antes." Afinal, o fato de existir já é um ato de resistência: "Escrita ou falada, se nossas histórias são o que ficam de nós no final, a gente precisa que personagens REAIS estejam nelas. E o LGBT+ é muito real”, conclui a blogueira, também ilustradora e designer.

Apesar de cada direito conquistado ser comemorado, existe ainda um longo caminho pela frente. "O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. A expectativa de vida de uma pessoa trans por aqui é em torno de 30 anos. Nosso atual presidente ridiculariza gays em cadeia nacional e é apoiado por um grupo de políticos e eleitores extremamente LGBTfóbicos que veem a violência como um direito inato de expressão", diz Eric. Para ele, dentro da própria comunidade é necessário proteger e apoiar aqueles mais vulneráveis, que estão sendo vítimas de ataques: "Assumir a luta das pessoas trans pelo direito a uma vida digna, repensar nossas atitudes diante da população LGBT+ negra que sofre violência dobrada".

 

 

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