Os nórdicos na cartografia da literatura infantil

 

Por Laura Erber

Só entenderá a magia dos livros aquele que não se desligou completamente da infância. A frase é de um livro de Walter Benjamin (1892-1940), um pouco alterada aqui, pois, sendo encantados, os livros às vezes realmente se deslocam pela casa, somem entre as prateleiras e os perdemos de vista por muitos anos.

Quando pensamos na cartografia da literatura infantil, os países nórdicos ocupam um lugar importante. O primeiro nome que nos vem à mente é provavelmente o de Hans Cristian Andersen (1805-1875), o grande autor da literatura de evasão e talvez o escritor moderno que melhor trabalhou a fábula em sua forma literária.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Existe entretanto uma outra tradição literária nesses países, mais ligada à experiência do mundo concreto e do cotidiano. Mais ligada ao mundo sublunar, mais comprometida com o ponto de vista da criança, das coisas que habitam seu espaço de vida, sua relação com elas,  sua presença reconfortante ou desafiadora. Não uma literatura em que somos levados a imaginar e habitar um outro mundo, mas que revela à criança o seu mundo como algo familiar e inquietante. Vejo nessa literatura o exercício de uma forma de antropologia experimental, baseada em delicada auto-observação. São livros que falam de situações nas quais a criança se reconhece, mas também percebe a multiplicidade de mundos de que é feito o seu mundo e que sua vida poderia estar em qualquer um desses.

Penso na escritora sueca Gunilla Wolde (1939-2015) com suas personagens Totte e Lotte. Os pequenos desafios que enfrentam: consertar um carrinho quebrado, encontrar um urso perdido, sentir dor e ir ao médico, sentir amor profundo e ciúme intenso do irmãozinho, sentir medo e atração do escuro.

Outra autora, esta mais jovem que Wolde, também sueca, vem publicando livros engenhosos que falam diretamente às crianças e ao seu mundo. Pernilla Stalfelt tem um talento excepcional para tratar das complicações do mundo em que vivemos e das ainda mais complicadas pessoas que o habitam, ou seja, nós mesmos. Como sentimos o que sentimos, por que pensamos o que pensamos? Perguntas simples e fundamentais, por isso mesmo tão difíceis de serem abordadas sem que uma resposta se imponha de fora para dentro, ou de cima para baixo.  

Em Quem é você – Um livro sobre a tolerância (devo confessar que eu preferiria que o subtítulo fosse: um livro sobre as diferenças), a autora literalmente explica desenhando, passo a passo, o funcionamento dos nossos preconceitos, sua formação. Não se trata de ensinar à criança algo que ela ainda não sabe, ou de dizer que isto ou aquilo seja errado, mas de convidá-la a percorrer os caminhos do seu próprio pensar, perceber e sentir, através de exemplos concretos e sensíveis e com um senso de humor que livra os livros do tom paternalista ou moralizante em que poderiam facilmente incorrer.

Se a literatura de evasão nos suspende porque ata o leitor – e isso vale tanto para leitores adultos quanto para crianças - às personagens em confrontos com o mundo, essa outra literatura, que poderíamos chamar “de habitação”, mais voltada para os modos de habitar o nosso próprio mundo, revela o desafio radical de viver entre coisas e conviver com pessoas num lugar cujo sentido está sempre em transformação.

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Laura Erber nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É escritora, ensaísta, artista visual, poeta e professora do departamento de teoria de teatro da Unirio, autora de Nadinha de nada (Companhia das Letrinhas) e O incrível álbum de Picolina, a pulga viajante (editora Peirópolis), entre outros.

 

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