O silêncio das crianças é um problema?

Quem é tímido adora quando encontra representação. Afinal, parece ser um pouco mais comum encontrar pessoas extrovertidas – são elas que falam mais e, portanto, aparecem mais. Na literatura infantil, há diversos personagens que falam o que querem, sem medo de como vão parecer diante dos outros: Emília, Píppi Meialonga, Rônia, Mônica, Jorge e Haroldo, Peter Pan. São exemplos de representação artística da infância que é protagonista de sua história, com voz própria.

Também há os personagens mais instrospectivos e silenciosos: Coelho 13º, Valência, de Os grudolhos perseverantes de Frip, Pati, de Pati e os lobos, Mortina, as meninas de E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas. Talvez eles nem sejam tímidos propriamente, ou pelo menos não se deixam paralisar por temer a forma como serão vistos.

Mas e quando a timidez vira um tipo de aprisionamento?

Capa de Eu fico em silêncio, de David Ouimet

No lançamento de janeiro da Letrinhas, Eu fico em silêncio, do músico David Ouimet, uma menina introspectiva revela em primeira pessoa a angústia e o silêncio de quem não acredita que é possível se fazer ouvir e entender. Em silêncio, ela se sente deslocada, excluída, pequena.

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A menina perambula por uma cidade sombria, ao mesmo tempo distópica e com jeito de fotografia antiga, de lugar que passou por uma guerra. O cenário desolador reverbera seu desamparo interno, mas ninguém duvidaria da hostilidade que a confronta.

A personagem principal de Eu fico em silêncio entre as crianças com máscara de gato

As outras pessoas são crianças, muitas, que olham de canto, cochicham e usam uma máscara que parece ser de gato, enquanto a personagem principal veste uma de rato – quase impossível não lembrar de Maus. A tensão carrega cada página, e o aceno à graphic novel que conta a história de um judeu representado como rato diante dos gatos nazistas dá uma ideia da opressão que a menina sente.

A possibilidade de libertação acontece em uma biblioteca, e, nos livros, o encontro com outras vozes e possibilidades de fala. Nos livros, ela se descobre habitada por outros seres e supõe que também os habite. Se isso acontece, talvez exista mais dela mesma nos outros e mais dos outros dentro dela. Talvez ela não seja tão diferente assim.

Afinal, são muitas as maneiras de estar no mundo como criança e apreendê-lo, e a literatura dá forma a elas, abrindo um portal de experiências e vozes diferentes das nossas próprias.

 

 Ilustração de David Ouimet

Muito barulho

Em uma sociedade em que a fala e a comunicação são muito valorizadas, é comum a noção de que a criança que fala pouco ou é mais quieta precisa “superar” ou “enfrentar” a timidez, como se ela fosse um obstáculo.

Mas será que é? Ou será que, muitas vezes, a tentativa de “corrigir” essa característica não a torna mais sofrida para a criança, que passa a acreditar que seu jeito é errado e se retrai ainda mais?

“Diante da timidez de uma criança, de modo geral, os adultos de sua convivência tendem a patologizar esse comportamento. A timidez é muito atrelada ao silêncio, a uma criança que fala pouco e que tem em seu cotidiano uma expressão de silêncio muito presente. Mas é necessário entender que a timidez também é uma característica humana, um modo de ser. Muitas vezes pode ser uma característica dessa criança, o jeito dela ser no mundo, de não se expressar tanto por meio da fala”, explica a psicóloga clínica Marleide Soares, que atende crianças numa perspectiva de humanização anti-racista e no preparo emocional de enfrentamento de questões advindas do racismo.

Marleide esclarece que é preciso entender a diferença entre os casos em que se trata do jeito de ser da criança, que precisa apenas ser validado e aceito, e aqueles em que existe uma dificuldade para o processo de desenvolvimento dela. “Pode acontecer de ser uma introspecção desencadeada por fatores externos, que impeçam essa criança de falar e que a tornem insegura, receosa sobre o que vão pensar a partir do que ela diz”.

Ilustração de David Ouimet​

Nesse caso, a psicóloga sugere que o adulto precisa se aproximar da criança, observá-la e propiciar espaços de fala, para entender se o silêncio está ocultando desconfortos. “É importante checar isso e entender se não se trata de um entrave que está dificultando a fala dessa criança. Não sendo assim, é um jeito dela. Não é porque a criança não se expressa o tempo todo falando que ela tem uma doença.”

E, quando a criança é mais silenciosa, é comum que encontre um espaço de identificação e expressão por meio dos livros. Para Marleide, “aquilo que ela não adquire na conversa, ela adquire na leitura. A literatura enriquece o universo de uma criança que não tem essa troca tão efetiva no diálogo com as outras pessoas”.

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