O que rola na Live ou no Zoom é teatro?

Por Gabriela Romeu

Respeitável público: prepare uma pipoca quentinha, feche bem as janelas e apague as luzes do quarto ou da sala (para garantir aquele escurinho do teatro), o espetáculo já vai começar! Tal chamado eu não ouvi na verdade, inventei, pois é assim que eu me sinto quando me preparo para assistir nestes tempos de isolamento social a diferentes experiências digitais que têm sido criadas nas telas por artistas dos palcos, numa nobre tentativa de continuar levando arte para as crianças e suas famílias, já há mais de seis meses em casa.

Ilustração Bicho Coletivo

Em meio a muitos desafios vividos pela classe artística para sobreviver no atual contexto (fomentos escassos, cachês precários, horizontes incertos...), mais uma batalha: como chegar ao público fazendo o que tão bem sabem fazer? É assim que as histórias dos palcos têm sido cada vez mais disseminadas em plataformas virtuais como Zoom e em Lives que rolam nas redes sociais. Há experimentos bem diversos, alguns totalmente pré-gravados e pré-editados, outros feitos inteiramente ao vivo e ainda aqueles híbridos, com misturas de gravações prévias e entradas ao vivo, com desafios de timing e sincronia. Mas como denominar essas manifestações artísticas online? É teatro adaptado?

Foi o que perguntei a alguns artistas: “Eu não acho justo que a palavra ‘teatro’ seja mencionada nessas experiências… porque simplesmente não são teatro, principalmente se partirmos da definição de teatro como encontro. Não é o palco que define o teatro, uma vez que em qualquer lugar podemos fazer teatro. Não é a luz, não é o cenário… Podemos fazer teatro em qualquer condição. Mas duas coisas não podem faltar: público e atores juntos um do outro, no mesmo espaço, na mesma hora. Isso define teatro”. Quem responde é Claudio Saltini, diretor, ator e bonequeiro da Cia. Circo de Bonecos, há quatro décadas dedicado ao fazer teatral, artista dos mais admiráveis.

Diretor de espetáculos premiados como Inzoonia e Circo de pulgas (divertidíssimo!), ele é um dos criadores que têm se empenhado em inventar experiências digitais, as quais denomina de “streaming”, usado, sim, bem antes da atual pandemia, sabemos. É dessa forma, via streaming, que neste mês podemos comemorar o Dia Nacional do Teatro, celebrado em 19 de setembro, enquanto a atual crise sanitária no mundo pede que se mantenha distância social, com espaços culturais, incluindo os teatros, fechados ao público.

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Teatro online ou cinema? Nada disso!

E o teatro cabe no celular? Essa pergunta não é minha, foi feita pelo diretor Dario Uzam no site Pecinha é a vovozinha, do crítico e dramaturgo Dib Carneiro Neto, sempre incansável – e necessário ler. Nesse importante canal de fomento ao teatro, aliás, alguns artistas escreveram sobre o panorama atual. A atriz e dramaturga Flavia Garrafa, que no Zoom apresentou Acorda, Gabi!, compartilha algumas reflexões que aponta que a classe teatral está “inventando um outro destino enquanto o teatro não é possível”.

A peça Lolo Barnabé brincou com a interatividade que a internet permite

“A pandemia nos atropelou e nos impede de voltarmos para nossa casa, o teatro. Lugar em que conhecemos todos os cantos, os jeitos e os cheiros. Lugar onde respiramos melhor, recebemos visitas e fazemos o que sabemos, amamos e nos divertimos”, escreve a diretora, enfatizando que não é teatro online nem cinema – e é preciso achar uma nova nomenclatura. E destaca: “Nada substitui o teatro”. (Leia o texto na íntegra aqui)

A compositora Tata Fernandes, integrante da premiada bandaMirim, um grupo que faz a gente saltitar por fora e por dentro em suas apresentações, relata os desafios desses novos formatos quarentênicos para levar experimentos das peças O menino Teresa (toda ao vivo) e Felpo Filva (mescla de gravação prévia e ao vivo) para as crianças e suas famílias. Tata, que como eu não vê a hora de poder encontrar todo mundo no teatro, destaca que há muito o que aprender ainda tecnicamente nestes formatos e nestas plataformas – diálogos entre ao vivo e gravação, oscilação de sinal de internet e falhas sonoras, por exemplo. “Foi uma experiência agradável, mas nada que se compare ao estar junto no teatro”, diz a artista, que não sabe ainda como nomear tais produções, cujas vantagens são o alcance de públicos diversos.

Entre os grupos que optaram por trabalhar com a narrativa toda anteriormente gravada, está a premiada Cia Delas de Teatro – adoro tudo o que elas criam para os palcos. Thais Medeiros, atriz e diretora da companhia, explica a escolha: “Não é o ao vivo que garante a experiência teatral, uma vez que a gente já está sendo mediado por uma plataforma”. Nos últimos meses, ela dirigiu o bem-sucedido projeto Olho Mágico, trilogia que lança luz sobre a trajetória de mulheres cientistas (a astrônoma Caroline Herschel, a ilustradora científica Maria Sibylla Merian e a paleontóloga Mary Anning), exibida em canais dos teatros de São Paulo. Tudo foi feito remotamente, gravado e depois editado, captado com câmera de celular ou computador e dirigido via Zoom.

As artistas da Cia Delas sabiam que no processo criativo não estavam fazendo teatro, nem TV, nem cinema. Era o que, então? A divertida trilogia tem um resultado marcado pelo timing e pela estética características da internet, com seus vídeos, memes e jargões. Com o costumeiro esmero do grupo nas montagens, sempre com dramaturgia, direção e arte caprichados, o resultado são peças ágeis e envolventes para assistir em casa – e a dica é acompanhar as redes sociais dessa trupe para saber qual será a próxima parada (ou plataforma) onde essas produções irão aportar.

Imagem do mágico Célio Amino / Foto Cisco Vasques

Elas contam que o retorno rápido e positivo do público já impacta na produção de uma continuidade do Olho Mágico, assim como o desenvolvimento de outros dois projetos, um de uma série de pequenos vídeos (Pergunte à cientista, com conversa de crianças e mulheres das ciências) e um podcast narrativo (Elas são feras! Histórias de mulheres que mudaram a ciência), também criado para compensar apagamentos históricos. O desejo do grupo é o de estar de algum modo perto da plateia (ainda que virtual), já que o público é o combustível de todo ou toda artista, além de garantir a oportunidade de seguir com a pesquisa sobre a contribuição de personalidades muitas vezes invisíveis, do aprofundamento da dramaturgia e agora do uso da câmera.

São essas investigações que talvez mais tenham encantado esses incríveis fazedores de teatro. É assim com Saltini, um pesquisador veterano. Ele conta que tem estudado muito as linguagens de algo que não é teatro, mas também não é cinema nem TV, apesar de ser necessário estar em sintonia com roteiro, pesquisar o diálogo com as câmeras, estudar novos comportamentos de luz. É um começar de novo, explica. Sim, os artistas são seres incansáveis.

Para a peça Lolo Barnabé, que entra neste mês em temporada no Teatro Alfa, Saltini conta que brincou com a interatividade permitida pela internet. “Buscamos uma comunicação por meio da câmera, para que o público se torne cúmplice do pensamento dos personagens… Vamos ver no que vai dar! Usar a internet apenas para mandar beijinho para o público não é suficiente!” Ele acredita que as experiências de streaming vieram para ficar, apesar de nem de longe substituírem o teatro, arte resistente há séculos e séculos. Viva!

Imagem de Lolo Barnabé / Foto de Teka Queiroz

 

O que ver nos palcos digitais

Em cartaz nas redes sociais de teatros públicos e privados, de projetos patrocinados e fomentados ou de instituições culturais diversas, existem “apresentações” de companhias consolidadas que há tempos pesquisam o teatro para crianças, como as já citadas Cia Circo de Bonecos, a Cia Delas e bandaMirim. É uma oportunidade de ver neste novo formato peças que circularam há algum tempo nos palcos. Claro, como dizem muitos dos artistas que pude ouvir, essas experiências não substituem a arte do encontro, o teatro, mas são um jeito de matarmos um pouco a saudade, enquanto ainda é necessário e seguro manter distanciamento social.

 

Teatro Alfa

Tradicional palco para montagens infantis, o Teatro Alfa lança neste mês a Temporada Alfa Criança de forma online, a partir do dia 19 de setembro. Serão três espetáculos adaptados para o online: É tudo família! Virtual (aos sábados, às 17h30), da Cartasis, Lolo Barnabé (aos domingos, às 17h30), da Cia Circo Bonecos, e Cinemágica! Virtual e interativo!, versão do espetáculo de mágica O presente de um passado futuro, de Célio Amino. Ingressos R$ 20 pela plataforma Sympla; até final de novembro. Vale conferir ainda o Projeto Escola Online, com sessão da peça e atividades pedagógicas para grupos escolares.

Cena de É tudo família!

 

Palco digital

Felpo Filva traz uma adaptação de livro homônimo escrito e ilustrado por Eva Furnari. A peça, que tem texto adaptado por Marcelo Romagnoli, um dos dramaturgos da coleção Fora de Cena com o livro Terremota e foi dirigida por Claudia Missura, está agora no Palco Virtual do Itaú Cultural. A história sobre as correspondências entre o coelho poeta solitário Felpo (Marat Descartes) e uma leitora e crítica ferrenha (Gisele Calazans) tem sessão nos dias 19 e 20 de setembro, às 12h – reserve ingresso com antecedência pelo site; grátis.

Cena de Felpo Filva

 

#EmcasacomSesc

Pelo projeto Em Casa com o Sesc, é possível se divertir com O menino Teresa, que traz a questionadora menina Teresa (Claudia Missura) e sua parceira, Sra. Cabeçuda (Tata Fernandes). Neste espetáculo da bandaMirim adaptado para as plataformas digitais, o dramaturgo Marcelo Romagnoli aborda com delicadeza e humor as questões de gênero a partir do olhar de uma menina que um dia entra no quarto do irmão. Para assistir a esta versão online, clique aqui.

 

 

Diversão em cena

Criado pela Fundação ArcelorMittal, o projeto Diversão em Cena tem realizado diversas experiências digitais, como Circus - A Nova Tournée, da Cia Circo de Bonecos, peça criada originalmente em 1999, que traz em quadros curtos e cheios de humor o universo do circo. Para ver, clique aqui. E boa diversão!

 

 

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Gabriela Romeu é jornalista, escritora e crítica de teatro, jurada da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Pela Companhia das Letrinhas, é coautora de Tutu-Moringa – História que Tataravó contou e organizadora da premiada coleção Fora de cena, que reúne dramaturgas e dramaturgos dedicados a contar histórias para as infâncias.

 

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