O que é preciso fazer para criar crianças empáticas?

Não seria ótimo sair distribuindo por aí umas balinhas que, magicamente, fizessem as pessoas serem empáticas e se colocarem no lugar das outras? Num momento em que a capacidade humana de identificação com o outro parece estar muito em falta, a possibilidade de resolver esse problema com guloseimas está mais para sonho ou ficção.

E é isso mesmo que vive o menino Dong-Dong, protagonista do livro Balas mágicas, lançamento de junho da Companhia das Letrinhas, da premiada autora sul-coreana Heena Baek. O garoto prefere jogar bolinha de gude sozinho a futebol com os outros meninos e, num dia, compra um saquinho de balas bem diferentes.

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Capa do livro Balas mágicas, da coreana Heena Baek

Capa do livro Balas mágicas, lançamento da Letrinhas

 

A cada bala que ele experimenta, magicamente começa a ouvir vozes ocultas de seres e pessoas: o sofá pede ajuda para tirar o controle remoto de um lugar incômodo, o cachorro explica que já está mais velho e prefere dormir a brincar, e o pai, mesmo sendo muito exigente, revela ao filho que o ama muito.

Como não podemos contar com essas balas mágicas e milagrosas, o que podemos fazer para despertar e nutrir a empatia nas crianças?

Para os autores Kátia Tavares e Severino Antonio, as crianças são empáticas naturalmente, investindo até mesmo animais, plantas, brinquedos e objetos de uma vida que os iguala em humanidade. Por meio do faz de conta e da brincadeira de se colocar no lugar do outro, as crianças aguçam a sensibilidade para reconhecer, na diferença, as mesmas possibilidades de criar, rir, sofrer, sentir dor e amar que elas mesmas possuem.

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A família como modelo para criar empatia

De acordo com o autor e pedagogo Marcelo Cunha Bueno, essa capacidade mágica de se colocar no lugar das outras pessoas é uma aprendizagem de observação de experiência que acontece, num primeiro momento, com a família. O modelo que a família oferece é essencial para que a criança tenha a premissa da construção da empatia.

“A empatia, nesse sentido, é a forma como a família cuida de si. Em qualquer configuração familiar, é a forma como as pessoas se relacionam, se comunicam entre si e com outras pessoas. Como essa família se relaciona com o mundo, se existe coerência entre o que se pede e o que se faz, se existe delicadeza na relação, tudo isso vai ajudando a criança a entender que existe uma forma de se comunicar que mobiliza as outras pessoas.”

Marcelo explica que essa construção, na família, passa pela estrutura do caráter e da intimidade, e aos poucos ganha uma linha ética para a criança, na medida em que ela passa a praticar isso nos contextos sociais, principalmente na escola. 

Então, tudo o que ela aprende na família, ela pratica no social. E quando ela sente que isso reverbera de algum jeito, vai incorporar como um comportamento, como uma ética, como um valor”, relata o professor.

 

Olhar para si para olhar para o outro

Marcelo lembra ainda que ninguém – seja criança ou adulto - consegue se colocar no lugar de outra pessoa se não tiver uma individualidade muito bem constituída. E o modelo que a família oferece também é essencial para a construção da identidade da criança.

Ninguém consegue olhar para o outro se não olhar para dentro. E é preciso ajudar a criança a construir uma autoimagem de forma muito atenta. Você faz isso ao elogiar a criança, ao valorizar as boas ações que ela constrói, ao narrar essas ações para ela, ao ajudá-la a racionalizar e atravessar as questões difíceis. Tudo isso vai fazendo com que a criança tome consciência de si, e quanto mais consciência de si, mais capacidade de conexão com o próximo ela terá.  A empatia é essa arte de se autoconhecer e de se reconhecer nas outras pessoas.

Marcelo Cunha Bueno

A partir daí, quando a criança se relaciona de forma ética, generosa e respeitosa, pode entender que as outras pessoas também são um reflexo dela e de sua ação no mundo. “Ninguém colhe coisas boas, se planta coisas ruins. Então, se você planta coisa boa, se você age bem com as pessoas, provavelmente as pessoas devolverão isso para você. Isso gera essa capacidade mágica de se colocar no lugar das outras pessoas. É uma construção complexa, mas com uma fórmula interessante e fácil de ser construída num lar de amor, de escuta, de generosidade, de reflexão, de respeito às diferenças”, finaliza Marcelo.

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