O que a meditação pode fazer pelas crianças?

“Se todas as crianças de oito anos aprenderem meditação, nós eliminaremos a violência do mundo dentro de uma geração.” A frase de Dalai Lama já responde boa parte da pergunta. Mas por que ela tem esse poder? “A meditação pode mudar vidas. Ao entender o que está acontecendo consigo e ao seu redor, a criança cria um olhar diferente e mais compassivo. Ela volta a se conectar com um estado natural: o do momento presente”, defende Amanda Lieuthier, criadora do projeto Meditação para Crianças (@meditacaoparacriancas). 

 

(Ilustração do livro "Eu medito e me conheço")

 

É isso que mostra o personagem Pequeno Sábio à menina Gina no livro “Eu medito e me conheço”, de Sophie Raynal com ilustrações de Aurélie Guillerey. Uma gostosa conversa entre os dois vai guiando o leitor em meio a diversas descobertas sobre as vantagens da meditação, como ela age no nosso corpo e como pode contribuir para a rotina da criança, ao ensiná-la a prestar atenção nos próprios sentimentos e no momento presente, mantendo corpo e mente no mesmo lugar e reconhecendo e controlando as emoções.

 

Mas quais são, então, os benefícios dessa prática para os pequenos? Segundo o professor de Educação Física e trainer Mindfulness Hélio Wolff, a lista é grande. “Consciência corporal plena do que está fazendo, ajustes do sistema nervoso central, ampliação do canal de expressões e sentimentos, como felicidade e compaixão, sensação de bem-estar, controle da ansiedade, superação de medos, aumento da concentração, melhora no humor e ampliação do processo cognitivo”, afirma. Hélio implementou o uso da meditação no Colégio Marista Santa Maria, em Curitiba (PR), e diz que as crianças gostam tanto que acabam levando isso para suas casas. “É importante colocá-las em uma roda de conversa e explicar seus benefícios de forma lúdica, com pequenas pausas no dia a dia. Assim, a cada dia que passa se familiarizam com a prática até se tornar um hábito. Então, é natural que as crianças se tornem mediadoras e ensinem seus pais e familiares”, relata.

 

Vale desde pequeno mesmo?

 

(Ilustração do livro "Eu medito e me conheço")

 

Você pode estar pensando “ah, mas meu filho é muito pequeno para se concentrar”. Para os especialistas, não existe idade para meditar. Claro que o entendimento da prática vai ser diferente em cada faixa etária, mas isso não é impeditivo. Segundo Mark Greenberg, diretor fundador do Centro de Pesquisas em Prevenção da Promoção da Saúde Humana da Universidade da Pensilvânia (EUA), é pouco comum que crianças pequenas desenvolvam estados plenos de meta-cognição (processos de pensamento, sentimento e percepção), que geralmente começam a ser desenvolvidos aos nove anos. Através desse estado, as crianças conseguem perceber seus próprios erros e dificuldades, tanto em relação a tarefas, quanto a motivações e emoções.

“Mas isso não quer dizer que as menores não possam se beneficiar da meditação. Elas podem desenvolver habilidade socioemocionais, o foco, a autorregulação e a bondade, maior qualidade no sono, entre outros”, afirma Amanda. Para ela, a idade não é limitante para fazer jogos, brincadeiras e introduzir a prática meditativa para as crianças. “Eu tenho alunos de um ano que fazem exercícios lúdicos de respiração e adoram. Porém, é importante entender a maneira que a criança de cada idade aprende e não forçá-las a fazer coisas que não querem e não se sentem seguras, como, por exemplo, fechar os olhos”, ressalta.

 

Mas como acontece na prática?

(Ilustração do livro "Eu medito e me conheço")

 

A capacidade de concentração varia muito de criança para criança e também depende das atividades propostas. Naturalmente, quanto mais lúdico for, mais fácil será para entender. Com as bem pequenas, as atividades são mais variadas e com menor tempo de duração, já que a capacidade de concentração é menor. “Mas com o tempo e prática, mesmo para esses pequenos praticantes, a concentração melhora de uma maneira incrível”, diz Amanda.

Se você já fez meditação alguma vez, fica mais fácil exemplificar dizendo que as diferenças são o tempo de concentração, a ludicidade e o uso de objetos reforçadores, que podem ser objetos físicos ou ainda uma história, música e até a tecnologia. “Costumo usar recursos como os aplicativos Cinco Minutos Eu Medito e One-Moment Meditation”, sugere o professor Hélio.

Já Amanda gosta de usar personagens e lugares nos quais as crianças se sintam confortáveis. “Gosto de uma meditação na qual conto uma história de um super-herói que encontrei em uma floresta, o Super Calmo. Conto que ele me deu pedras mágicas para emprestar para as crianças que quisessem se acalmar. Coloco as pedras na testa ou barriga delas e digo que vão ganhar esse poder mágico. Elas ficam maravilhadas”, conta.

A história do livro “Eu medito e me conheço" também é uma excelente maneira de começar a prática com as crianças. Em uma viagem ao Japão, Gina acaba entendendo a importância do autoconhecimento e de compreender seu lugar no mundo e, de quebra, aprende tudo sobre meditação. 

 

 

(Ilustração do livro "Eu medito e me conheço")

 

DICA

 

Uma atividade que é muito legal para fazer para foco e também gerenciamento de emoções é o Pote da Calma. Presente na pedagogia de Maria Montessori, é um pote simples de fazer, mas que pode ser usado pelas crianças em crises de raiva, tristeza e ansiedade. Basta encher um pote transparente com cola glitter, purpurina e água quente (você também pode incrementar com estrelas, letrinhas ou outros objetos leves se quiser). A ideia é apenas observar o movimento dos brilhos ao mexer o pote. Acredite: funciona!

 

(Reportagem e texto de Fernanda Montano)

 

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