O que a ficção pode fazer pela saúde mental das crianças

Um mundo imaginário ao alcance das mãos. Uma princesa, um herói, um príncipe, uma heroína. Histórias que permitem que crianças e adultos vivenciem um mundo de ficção e com ele aprendam e desenvolvam habilidades.

Especialmente para as crianças, em fase de desenvolvimento, a ficção contribui e estimula a empatia e outras habilidades, permitindo que elas aprendam a se colocar no lugar do outro ao se sentirem fazendo parte daquela história. Em uma leitura, a criança tem em suas mãos um método facilitador para a construção das relações sociais e, ao se colocar no lugar dos personagens, aprende a ver o mundo com outros olhos. Como aquela personagem é? Como ela lida com determinada situação? Como eu a vejo e a compreendo?

 

(Foto de Annie Spratt, do Unsplash)

 

A ficção literária, por permitir ainda mais o uso da imaginação, é um dos métodos preferidos de professores, pais e pedagogos quando se fala em usar a ficção para a construção de habilidades e desenvolvimento infantil. A leitura ainda pode ser beneficiada pela relação dos pais com a criança: um momento de leitura, de interação familiar, na qual pais e filhos conversem sobre o que estão lendo, sobre as reações de personagens e consequências.

A ficção estimula ainda a imaginação, permitindo que as crianças se coloquem no lugar das personagens para vivenciar suas próprias brincadeiras e experiências. Quem é que quando criança não brincou de ser um super-herói ou um personagem de desenho animado? Tudo isso contribui para que nossa visão de mundo seja expandida. E, consequentemente, para o desenvolvimento da empatia. Saber se colocar no lugar do outro é uma das mais importantes (e necessárias) habilidades que a criança pode desenvolver para levar para a vida toda.

Ao assistir a um filme, por exemplo, a criança tende a se identificar com este ou aquele personagem. É importante que os pais ajudem os filhos a tirarem algum aprendizado daquelas situações: o que ele fez foi correto? Por quê? Qual era a intenção daquela atitude? Será que ele poderia ter feito isso de outra forma? Ao vivenciar aquela experiência com a criança, os pais podem ajudá-la a compreender o mundo por meio da ficção.

 

"O imaginário é um componente essencial às brincadeiras, por meio dele, as crianças inventam possibilidades, criam mitos, outros seres, outros lugares." (Guga Cidral, professor)

 

Para o professor, músico e escritor infantil Guga Cidral, “a ficção abre um mundo de possibilidades para as crianças. O imaginário é um componente essencial às brincadeiras, por meio dele, as crianças inventam possibilidades, criam mitos, outros seres, outros lugares”. Para ele, especialmente neste momento de pandemia em que crianças e pais se encontram em casa, os livros, as brincadeiras e o simbólico podem ser grandes aliados na construção e no trabalho com as emoções e sentimentos das crianças. “Ficção implica em coragem, em vencer batalhas com gigantes, enfim, um universo bem próximo do que as crianças já imaginam, brincam. A questão é fomentar, provocar e, claro, distinguir o mágico do real sempre”, afirma.

Ao se valer da literatura e de outros meios ficcionais (como cinema e uma criação de histórias em conjunto, por exemplo), pais e filhos desenvolvem e fortalecem laços emocionais e criam instrumentos para a evolução emocional das crianças, fazendo uso do poder da imaginação. Quando uma criança entra em um mundo de ficção, ela se depara com desafios novos, com situações que ela pode, criando em sua cabeça ou não, entender de diferentes formas e delas tirar diversos aprendizados.

A psicopedagoga Michele Almeida, no entanto, alerta para o perigo de “emperrarmos as janelas da imaginação” dos pequenos com o excesso de informações e de tecnologia. Para ela, é importante sabermos dosar a quantidade de informações que deixamos à disposição das crianças e promover uma “desintoxicação” tecnológica e, também, um estímulo ao pensar, ao criar, ao aprender e ao lúdico na vida dos filhos. "É importante que não deixemos de lado as práticas que estimulem a imaginação, especialmente com a leitura de histórias, ensinando às crianças a 'aprender a aprender' por meio da ficção e de mundos fantásticos, de onde elas possam retirar aprendizados e a lição de se colocar no lugar do outro", conclui.

(Texto de Flávio Jayme)

 

O que a ciência diz:

1) A leitura de ficção ajuda a aumentar a capacidade de compreender que as pessoas podem ter crenças e desejos diferentes dos seus, aumentando a empatia, de acordo com pesquisa da New School de Nova York, publicado na revista Science.

2) Quem lê ficção aceita melhor as ambiguidades e entende melhor os vários aspectos de um mesmo assunto, além de ter sua criatividade fortalecida, segundo estudo da Universidade de Toronto, no Canadá.

3) Livros de ficção fazem as crianças aprenderem melhor o significado das palavras do que os realistas, ou seja, o aprendizado é mais eficiente, conforme pesquisa de Deena Weisberg, da Villanova University, na Pensilvânia. Ela acredita que isso se deve não só pelo fato de os conteúdos de fantasia prenderem mais a atenção, mas defende que contextos fantásticos engajam pensamentos mais profundos.

 

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