O inventário de cores de Andrés Sandoval

O ilustrador Andrés Sandoval traz para as páginas de Desenho livre, sua primeira história gráfica, o verde dos campos de futebol, o laranja dos ruivos e dos telhados, o amarelo do Camboja, o vermelho do pau-brasil, o violeta dos hematomas, o azul da Capela Scrovegni. Toda em preto e branco, a obra não poderia ser a mais intensa em cores.

Ao narrar o trajeto de um garoto com óculos de mergulho e chapéu de ponta de lápis pelo branco das páginas, o autor traz inusitados inventários de cores. “É a ideia da cor ligada à sensação e ao objeto. Imaginei essas cores como substâncias que vêm a partir de coisas que têm o corpo daquela cor. Inclusive do preto”, conta o ilustrador, autor de obras de palheta vibrante como Socorram-me em Marrocos.

No processo criativo, os pensamentos do artista caminham lado a lado com seus desenhos. É por isso que não larga os cadernos em que traz inspirações, experimentos e criações. “Meu processo de criação é sentar na mesa e começar a desenhar ideias que eu tenho. Meu jeito de inventar é por fragmentos, então vou elaborando vários capítulos, usando a imaginação e meu lado intuitivo. Depois, avalio e começo a ver que havia relações legais que não tinha me dado conta”, descreve.

Desenho livre é um livro de colorir? “É uma provocação ao leitor, lembra uma cartilha de colorir, mas não pretende condicionar o leitor à participação”, conta o ilustrador. “É quase um livro que faz uma reflexão sobre o desenho e a cor, usando a ideia do livro de colorir como linguagem”, completa o autor.

É possível que, ao final da leitura, depois de ser introduzido aos elementos que compõem o desenho, o leitor fique instigado a desenhar ou a pintar. “Qualquer um pode desenhar, e a linguagem do desenho pode ser uma forma sincera e necessária de comunicação.”

O ilustrador conta que o livro tem o mesmo formato do caderno que usou para registrar suas ideias. É uma reprodução muito próxima do vivenciado no processo de criação. A seguir, conheça mais os caminhos de experimentação do artista.

Menino-lápis

O menino tem o chapéu com a ponta que desenha porque é “como se tudo que ele pensasse virasse desenho. Ele pensa desenhando. E não é só com a cabeça que faz o traço, é com o corpo todo”. 

Ao colocar um chapéu em formato de lápis na cabeça do menino, o autor buscava criar uma ideia de um ser socialmente esquisito. “O chapéu passa uma sensação meio gauche, traz a referência do menino bobo, que cria pelo desenho, mas que não é bobo, criando uma ambiguidade.” 

Preto e branco

A proposta de o livro ser preto e branco provoca o leitor a querer colori-lo. Também há páginas que convidam o leitor trazer outras contribuições, como preencher a linha do horizonte. E as bandeiras vazias, você não gostaria de desenhar algo nelas também? 

Todas as cores são possíveis em Desenho livre e isso depende da imaginação de quem lê. “Tudo é um convite para você completar as imagens mentalmente. O que me diverte nos desenhos é que eles são brancos agora, mas você não sabe se continuarão brancos mesmo. Você pode colorir o livro inteiro de rosa ou de azul, ou mesmo defender uma bandeira de arco-íris. Essa é a brincadeira.” 

Linhas da imaginação

No livro, a linha é também um convite à imaginação do leitor. “As linhas são várias coisa no livro. São a dobra, o contorno, o vazio. Tentei usar a linha também de diversos jeitos para transmitir também essa visão.” 

Tramas

Outro elemento que também provoca o olhar do leitor são as tramas, campos definidos por uma porção de linhas. A estufa foi uma das tramas que o autor criou em seu livro. E curiosamente a estufa é uma estrutura arquitetônica tramada em que em seu interior há plantas que produzem pigmentação. Um convite para o leitor preencher intuitivamente de cores os desenhos?

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