O PNLD 2020 e a oportunidade de escolher novas narrativas

A escolha das obras do PNLD Literário 2020 para os anos finais do ensino fundamental está prevista para acontecer em setembro. Com ela, configura-se uma potente oportunidade de transformação da relação dos próprios professores desse segmento com a literatura e a leitura, uma vez que é dos docentes o papel de protagonistas na seleção dos títulos. São eles que vão selecionar as narrativas, os saberes e as novas visões que querem ver nas escolas.

Ilustração de Bruna de Assis Brasil para o livro "Malala, a menina que queria ir para a escola"

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De acordo com Marisa Balthasar, que é formadora em programas de educação integral, o momento tem potencial formativo especialmente porque, com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), há pela primeira vez um compromisso com a formação do leitor literário e com a apreciação estética nos documentos orientadores de currículo, em âmbito federal. A centralidade da formação de um “leitor-fruidor” é algo muito novo, ela diz, o que promove “um chamamento do professorado para que aprenda a lidar com a mediação dessas experiências leitoras, a ampliar esses repertórios, a qualificar as experiências de mediação de leitura”.

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Marisa reforça que o educador das séries finais é trazido, assim, para um lugar muito interessante, “como se pegasse o bastão dos colegas dos anos iniciais para dar uma continuidade, com uma progressão para novos textos, novos pactos ficcionais, com a ampliação de repertório, mas com o mesmo compromisso da centralidade da experiência leitora”. Como esse é um ponto nuclear que alicerça o trabalho ao longo da educação básica, “esse professor agora também é convidado a experimentar uma reflexão e uma ampliação da sua própria condição de letramento literário, o que é muito bacana”.

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Imagem de Dandara ilustrada por Lole, no livro "Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil"

 

Ela aponta que, por conta da sintonia entre as políticas públicas, ao mesmo tempo em que se trabalha na implementação da BNCC, ocorre o PNLD Literário, “que traz um conjunto de títulos para que os professores escolham e tragam para as suas escolas como ampliação de acervo”. E, o mais importante, ela lembra: “para que tornem esses acervos vivos pelos usos e pela promoção de experiências leitoras”.

A educadora lembra ainda que a experiência leitora é composta pelo contato direto com os textos, pela experimentação de estranhamentos e de desafios. “Não é um falar sobre os textos, é um vivenciá-los. Isso significa que todos nós educadores precisamos trabalhar, desde os anos iniciais até a saída do estudante lá no ensino médio, habilidades que de fato os aproximem dos textos literários, permitam a percepção dos usos diferenciados da linguagem, das construções de sentido.”

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E como pôr em prática essa formação?

É um desafio e uma oportunidade em termos de conexão e trabalho coletivo para os professores, especialmente depois do esforço de quase seis meses de aulas não presenciais. De maneira simbólica e prática, formar leitores neste momento tem uma relevância ainda mais pungente: trata-se de apresentar aos alunos novas visões de mundo, novas interpretações para o vivido, ampliando horizontes e leituras de si mesmo, do outro e do mundo.

Elly Bayó, que é professora do curso de pedagogia da Faculdade Zumbi dos Palmares e educadora das infâncias, compartilhou sua experiência com a escolha dos títulos do último PNLD. Seu relato levanta reflexões e pode apontar caminhos para educadores de todos os segmentos – exemplificando na prática vários aspectos trazidos por Marisa Balthasar.

Ilustração de Zaü para o livro "Mandela: o africano de todas as cores"

Acervo decolonial e projeto político-pedagógico

Elly conta que, para selecionar os títulos, a equipe de educadoras da sua unidade escolar leu todas as obras que estavam disponíveis na internet, num processo de compartilhamento e análise literária que se prolongou por três reuniões pedagógicas semanais. “Foi um espaço muito potente em que construímos e ressignificamos coletivamente a nossa relação com literatura”.

Ela explica que, para haver uma formação de fato, era preciso ler os livros aprovados, o que foi um problema porque nem todos foram disponibilizados na internet. “Por isso os livros que não estavam abertos para análise não foram escolhidos. Nós fizemos questão de olhar se cada título não reproduzia, por exemplo, opressões de gênero, subalternizações, cultura patriarcal, um modelo de ser humano branco, magro, de olhos claros."

 

"Nós fizemos desse um momento formativo pensando inclusive no quanto os conteúdos traziam de decolonialidade, de riqueza e diversidade, para que o nosso acervo deixasse de reproduzir uma cultura eurocêntrica. Escolhemos as obras do acervo pensando e articulando com o que desejamos da escola e com o projeto político-pedagógico” (Elly Bayó)

 

Elly relata que houve ainda um processo de reflexão e educação da comunidade escolar sobre a importância da renovação e da atualização do acervo da biblioteca: “Há uma produção grande de literatura todos os anos, com novos saberes, novas narrativas, que precisam ser oferecidos para as crianças. Nós tentamos romper com o pensamento de que a ‘biblioteca já tem muitos livros’”.

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Além da renovação do acervo, o momento da escolha dos livros permitiu repensar inclusive o espaço físico da biblioteca. “Afinal, é um espaço que vai abarcar esses novos saberes, essas novas construções culturais. Quando a criança adentra esse espaço, qual cultura ela vê representada? Quais as narrativas que esse espaço oferece? Durante a escolha das obras, a gente estava preocupada com a potência das culturas e das narrativas que comporiam esse território”.

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Ilustração de Patricia Auerbach no livro "Histórias de antigamente"

Para Elly, um professor que passou por esse movimento de escolha consciente e coletiva acaba sendo influenciado em sua própria prática mediadora: “Eu entendo que a mediação também se modifica. Uma professora que ainda fizesse troca de vocabulário, por exemplo, entende o quanto cada palavra é importante na composição de uma obra literária”.

Por fim, o resultado foi bem diferente do PNLD anterior. “Confesso que, quando chegaram os livros, a nossa satisfação foi imensamente maior do que quando chegaram os do PNLD anterior, quando escolhemos a partir daquela tabela de títulos que chega para a escola. São os detalhes dos livros, a cultura visual, a maneira de se relacionar com a leitura e a literatura como uma construção coletiva da nossa equipe. Nesse sentido, hoje eu tenho esse outro olhar para a escolha do PNLD”.

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A Companhia na Educação | Sala do professor elaborou um site especial com todas as obras dos selos da Companhia das Letras aprovadas para o PNLD Literário dos anos finais do ensino fundamental e que estão disponíveis para a leitura dos professores e para uso em sala com os alunos. Os livros são acompanhados por um Manual Digital do Professor, que contextualiza autor e obra e apresenta argumentos que explicam o valor do título em questão e sua contribuição para a formação dos estudantes, além de trazer atividades e sugestões de abordagens interdisciplinares.

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