Máscaras e escola – o que podemos refletir?

Por Lourdes Atié

Hoje resolvi convidar os leitores e as leitoras do Blog das Letrinhas a refletirem comigo algo que tenho pensado e que gostaria de saber se faz sentido para vocês. É sobre o uso ou não das máscaras que nos protegem da contaminação da covid-19. Sabemos que não é uma opção, mas uma obrigação.

Mesmo que as autoridades governamentais caminhem na contramão, quem acredita na ciência sabe que não há uma alternativa que não seja simplesmente manter a máscara no rosto para proteger cada um e a coletividade da contaminação do novo coronavírus. Mas não é assim que a juventude se comporta.

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Kelly Sikkema: Unsplash

Vejo que as crianças, até as bem pequenas, usam as máscaras sem nenhum problema. Elas estão completamente incorporadas ao seu cotidiano. Desde que começou a pandemia, não vi uma criança sequer chorando ou se negando a usá-las.

Meu neto tem quatro anos e, todos os dias, arruma a mochila, escolhe a roupa e as máscaras para ir à escola, tudo dentro do seu padrão estético peculiar, tudo bem! Fácil de usar e de conviver com ela no rosto. Joaquin desde setembro vai à escola em Barcelona, sem nem um dia de queixa. E, como ele, todos os seus amigos. Aqui no Brasil, nas ruas, não tem sido diferente.

No entanto, ao contrário das crianças, muitos jovens no Brasil se recusam a manter as máscaras em seus rostos. Quando não está apenas decorando o queixo, simplesmente não existe. Não aceitam usá-la. Estão aglomerados nas ruas, nas festas, nas praias. Apresentam uma postura completamente individualista e negacionista. É neste cenário, de norte a sul do Brasil, que assistimos às mesmas cenas.

O que me faz perguntar – o que nós educadores podemos falar sobre isso, que não seja apenas reverberações do que exaustivamente aparece nas mídias sociais? Entre a criança que usa e o jovem que se recusa a usar a máscara facial em tempos de pandemia, o que podemos olhar com coragem sobre como, de alguma forma, estamos contribuindo para que isso aconteça?

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Lisanto: Unsplash

Imagino que estejam pensando: “só falta dizer que agora a culpa desse negacionismo da juventude é do professor...” Calma! Antes que comecem o tal “cancelamento”, tão na moda ultimamente, desafio a pensarmos juntos/as sobre este cenário, porque sabemos que não existe uma única causa para tal atitude da juventude brasileira, que mesmo com o aumento de morte pela covid-19, segue parecendo não se importar. É como se nada os afetasse, além do prazer de achar que têm o direito de apenas fazer o que têm vontade.

 

O que a escola pode dizer sobre isso?

Tenho pensado que a escola, de um modo geral, tem um modus operandi que é assim: quando os alunos são pequenos, tem todo um esforço para aprender a brincar com o colega, compartilhar os brinquedos, aprender a conviver. Mas este contexto acontece com eles e somente entre eles. As escolas têm muitas dificuldades de desenvolver projetos com crianças de idades diferentes, de segmentos escolares diversos.

Os espaços da educação infantil ainda são apartados dos demais ambientes escolares. Como se fossem serem incompletos que precisam estar em segurança máxima. Misturar no recreio alunos grandes com pequenos, impossível! Os pais não deixam! Este é o discurso e, no fundo, os educadores acreditam que uma desgraça pode mesmo acontecer. Porém, entre elas, as crianças vão aprendendo a conviver.

O tempo vai passando e aquela camaradagem que existia entre os pequenos vai ficando para atrás, na medida em que crescem sem qualquer convivência com os maiores, com exceção daqueles que têm irmãos mais velhos.

A escolaridade avança, assim como as responsabilidades de cada aluno em cumprir todas as tarefas a ele delegada. O tempo de brincar vai sendo gradativamente reduzido, até desaparecer. O que era aprender a brincar junto vai sendo gradativamente substituído pelo salve-se quem puder. E, ao final da escolaridade básica, a frase que os professores mais escutam é: “vai cair na prova?” ou “vale quantos pontos esta tarefa?”.

Além disso, muitas escolas passaram a utilizar como peça de marketing fotos dos seus melhores alunos, ensinando o valor individual. Significa trazer resultados para a escola, ou seja, aqueles que passaram nas melhores instituições do país, que têm importância, como uma prova de que todo o esforço individual foi compensado. Prova de que aquele aluno ou aquela aluna se esforçou e conseguiu. Uma visão completamente retrógrada de valorização da meritocracia.  

Como se todos os alunos partissem do mesmo ponto, tivessem as mesmas histórias, condições e motivações, e que bastasse um esforço individual para chegar lá. Onde? Ter uma grande foto sua na entrada da escola ou em algum outdoor na cidade. É isso que realmente importa?

Somos nós que ensinamos para nossos alunos que o que importa são os resultados individuais que conseguirem alcançar e, depois disso, claro que têm o direito de pensar em si mesmos em primeiro lugar.

 

Mas a responsabilidade é apenas da escola?

Mas também não posso esquecer que os pais são grandes parceiros da escola neste processo. Cobram dos seus filhos resultados o tempo todo, como se fossem apenas números, como um dia um jovem me contou numa escola privada de Curitiba, quando fui conversar com as turmas do ensino médio.

Existem também os pais que abandonam e aqueles que não sabem dar limites, pois “seus bebezinhos” tudo podem e precisam ser protegidos de qualquer frustração.

Então, me desculpem se estou generalizando ou sendo muito dura, mas já viajei muito pelo Brasil (antes da pandemia), em diferentes realidades, e o contexto aqui desenhado é recorrente. Peço que não julguem nem busquem se defender de algo com que tenham se identificado aqui. Peço apenas que reflitam se não pode ser uma possibilidade.

E como podemos mudar esta história? Os tempos pandêmicos mostraram que nossa sobrevivência está na capacidade de adaptação, de transformação, de foco no coletivo e de saber enfrentar os novos desafios, olhar como se fosse pela primeira vez e acreditar que podemos fazer melhor.

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Atoms: Unsplash

 

Pensando juntos

Onde foi parar aquela camaradagem da infância, conforme a qual, depois de uma briga, era ótimo fazer as pazes para poder voltar a brincar juntos? Quando foi que “estar juntos” deu lugar apenas para o “eu vou me dar bem”? O que de fato estamos ensinando quando transformamos as escolas em vitrines para exibir seus melhores alunos? Que qualidade de educação estamos fazendo?

Infelizmente, acho que estamos ensinando o que não deveríamos ensinar. De nada adianta termos os discursos do “politicamente correto” e, em atitudes, ensinarmos outra coisa. Vamos centrar nossa reflexão na qualidade de ser humano que estamos entregando para o mundo.

Afinal, crianças e jovens são mais do que resultados. Não são experimentos ou peças de investimentos. São pessoas que aprendem com outras pessoas a terem um sentido responsável no mundo em que vivem. E este sentido é coletivo, planetário, ético e comprometido com o bem-estar social de todos.

É na escola que as crianças e jovens passam a maior parte de seu tempo. Temos a oportunidade e a obrigação republicana de preparar essas pessoas para um mundo solidário, que entenda que não estaremos bem individualmente se todos não estiverem bem também. Só assim vamos deixar de ser um país campeão em desigualdade social.

Não tem a menor importância se aquele seu aluno passou na melhor universidade do país. Isso é muito pouco se a maioria dos jovens da mesma idade dele não teve acesso às mesmas condições de estudo.

Não é a foto no banner da porta da escola que faz a diferença, mas a quantidade de Greta Thunberg como modelo inspirador que seremos capazes de ajudar a formar, que entende que não há vitória individual. Assim, com certeza deixaremos de apenas lamentar a alienação da juventude e nos orgulhar de termos trabalhado para mudar o cenário nacional e, consequentemente o mundo.

Que tal pensarmos sobre isso?

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Lourdes Atié é socióloga, consultora de educação e trabalha com formação de professores.

 

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