Livro leva leitor adulto a viajar para a infância

Por Noemi Jaffe

Como Arthur Nestrovski e Andrés Sandoval, que estiveram em muitos lugares aonde eles nunca foram, eu também nunca tinha estado em um livro como esse: Viagens para lugares que eu nunca fui.

Uma coisa que um livro consegue fazer como mais nada é permitir que a gente esteja nele, mais do que somente lê-lo. De repente, sem perceber, estamos na Andaluzia de Dom Quixote, no Rio de Janeiro antigo de Machado de Assis, no sertão de Guimarães Rosa. E com esse livro, que nos leva para lugares aonde nunca estivemos, estamos duplamente. Nos lugares e no próprio livro.

Nunca estive num livro em que os mapas viram gente, bichos, plantas e coisas. Nunca estive em formas que falam, que nos chamam para os lugares e fazem parecer que lá estivemos sem lá termos estado, nos convidando a imaginar as coisas que de lá nos chamam. Venha ver o chá hindu, os quadros de Volpi em seu ateliê do Cambuci, as cabeças da Ilha da Páscoa, a cidade que desapareceu. Imaginar é um jeito mais bonito de também estar.

Nunca tinha estado, também, em um livro que, pelas palavras, nos viaja para Gorgonzola, San Francisco, um parque africano. É só dizer: galos, nevoeiro, entregador de leite, queijo curado em cavernas, senhoras de preto e homens de chapéu – e me ponho a imaginar a cidade de Gorgonzola, feita de queijos que assobiam verdes, e logo lá estou, comendo gnocchi com as senhoras, coberto de um gorgonzola ralado tão fininho, que ele até chove na gente.

Uma adulta lendo um livro infantil, como eu, num livro como esse, que nos leva a lugares aonde nunca estive, é uma chance de estar de novo na infância, que sempre vai para lugares inventados, geralmente bem mais legais dos que os lugares aonde sempre vamos.

Quero estar nos livros onde nunca estive, quero ler mais livros como esse. Quero viajar para os rios brasileiros, para as montanhas alpinas, para os parques americanos. Mas quero também ir para Pasárgada, para as cidades invisíveis de Calvino, para o quarto de Xavier de Maistre e lá dar a volta ao redor dele. Quero estar nos livros para, com eles, estar melhor com meus amigos nos lugares que, juntos, vamos imaginar.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de A verdadeira história do alfabeto, vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e O que os cegos estão sonhando?, entre outros.

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