Literatura indígena: espelho presente de memórias ancestrais

Por Aline Ngrenhtabare L. Kayapó

PARTE 1: Reencantando o mundo com a literatura indígena

Durante um longo tempo, povos inteiros se embrenharam nas matas, recuando desse projeto de progresso que desde o início foi devastador, não só para os povos originários, mas para a nossa mãe terra, bem como para a humanidade. Outros ficaram em centros urbanos e enfrentaram esse sistema colonizador e colonialista, que deixou entre nós um herdeiro chamado colonialidade no pós-independência do Brasil. O efeito da colonialidade é o que considero responsável pela tendente perpetuação do epistemicídio.

Ilustração: Bicho Coletivo

 

A colonialidade também gera em nossos corpos uma desconfiança legítima, afinal de contas, foram muitos séculos de opressão e de falsas “aproximações bondosas”. Esse sentimento muitas vezes dificulta o nosso relacionamento, de forma saudável, com os não indígenas. Mesmo assim, não podemos negar que, ao longo da história, tivemos bons aliados. No entanto, na construção da nossa autodeterminação, a palavra de ordem é o protagonismo.

Não podemos, não queremos e nem temos mais condições ancestrais de continuar sem falar quem somos, onde vivemos e o que fazemos, porque a alma grita e ecoa. A literatura indígena tem caminhado nesse rumo, e o que escrevemos é o espelho das nossas memórias.

A nossa luta prioritária não é para que sejamos incluídos ou integrados na academia de letras. Primeiramente, essas palavras, “inclusão e integração”, causam em mim o que os dentistas chamam de bruxismo: ranjo os dentes só de pensar. Nós, indígenas, jamais seremos integrados, pois se nos integrarmos à sociedade nacional, nos desintegraremos da nossa sociedade originária e vice-versa. O que propomos é a interação, pois, quando interagimos, conseguimos compartilhar o que é nosso e absorver o que é do outro, sem deixar de lado a nossa essência para viver a essência do outro.

Queremos e estamos realizando um processo de revitalização de nossas memórias históricas, nossos saberes e cosmologias, e conseguindo colaborar para a construção de uma nova consciência humana. Uma que seja pautada nas ações coletivas, no respeito às diversidades, no ideal de justiça real e no aprendizado do amor à vida, em todas as suas formas, elementos que o Estado e seus aparelhos ideológicos furtaram da humanidade. 

Diversas vezes parecemos desanimar. Mas, quando olhamos ao nosso entorno e vemos pessoas entendendo a importância de cuidar de nossa majestosa Mãe Terra, e se propondo a romper com um passado de opressão, exploração e devastação, somos nutridas e motivadas a continuar a jornada.

Meu marido, Edson Kayapó, sempre conta em suas palestras sobre a importância das “crionças”, como chama carinhosamente as crianças. Ele diz que elas são porta-vozes, por excelência, das nossas ancestralidades, pois possuem uma sensibilidade para se relacionar e interagir com tudo ao seu redor, e a partir disso, criam histórias e nos purificam das exaustivas lutas cotidianas.

As anciãs são como as “crionças”: elas também conversam com os espíritos, falam com os animais e as plantas. Muitos acham que as plantas não falam. Que bobos! Afinal de contas, como nossas curandeiras iriam saber os mistérios da cura se não conversassem com as nossas irmãs plantas?

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Antes mesmo do massacre colonizador ter chegado por estas bandas, os espíritos dos nossos ancestrais já estavam por aqui. Eles sempre conduziram as nossas antepassadas no rumo que deveriam seguir, de modo a abrir o caminho para que hoje, nós, indígenas contemporâneas - sejam indígenas-mulheres, indígenas-homens, ou até mesmo os  parentes que ainda não se entenderam com esses gêneros criados pelo colonizador-, pudéssemos nos conectar, conversar e aprender os segredos das plantas e dos animais. A literatura indígena é isso, o resultado dessa interação com as mais diversas formas de vida, primeiramente estabelecidas pela tradição oral!

Vocês já imaginaram se nós, humanos, tivéssemos que nos integrar às árvores para que fôssemos ouvidos ou ajudados por elas? Já imaginaram um mundo em que as pessoas, para interagirem, precisassem se integrar obrigatoriamente, ou seja, se transformar em seres diferentes da sua origem? O mundo seria cheio de tristeza, não acham?

Vocês sabiam que, durante muito tempo, foi assim com nossos antepassados? Para serem ouvidos, precisavam negar as suas vidas, famílias, línguas, tradições e espiritualidades, tudo em nome do que o Estado chama de “integração”. A consequência disso foi o apagamento de tantas civilizações que só agora estão ressurgindo com força total, pois um espírito indígena nunca morre. Pode passar o tempo que for, a árvore sempre brotará, porque nossas raízes estão fincadas em um território de missão ancestral, que foi plantada em tempos imemoriais. A literatura indígena faz isso, ela mostra que não precisamos nos tornar o que não somos para que possamos interagir com as outras literaturas e com a sociedade nacional.

Eu mesma, que não sou mais uma “crionça” e também não sou uma anciã, já tive várias experiências com essa interação. Certa vez, estava pedindo para que o grande Condor me trouxesse um nome para que nós, um grupo de indígenas-mulheres, pudéssemos nomear o nosso movimento - uma rede ancestral-filosófica que criamos. Então, na mesma da hora, uma grande ventania abriu a porta da cozinha de casa e falou comigo. Ela disse:

— Ngrenh, você me chamou e eu estou aqui, me chamo ventania; você pode me chamar de Wayra.

Hoje esse é o nome do nosso movimento de indígenas-mulheres: Wayra, que significa ventania na língua Aymara, povo do qual sou descendente.

Outra vez, uma planta falou comigo. Era uma árvore de cuieira. Nesse tempo eu queria muito engravidar e disse para ela:

— Um dia vou dar frutos igual à senhora, e minha barriga vai ser bem redonda, parecida com suas cuias.

Respondeu a Cuieira:

— Fale com sua avó Dalmira, ela vai te dizer o que conversamos tempos atrás e você saberá o remédio para se curar.

Então fechei os olhos, e a Wayra trouxe até mim uma mensagem, que uso como reza e benzimento. Dei o nome de “Cuieira”, e diz assim:

Cuieira

Nossa mãe
Poder gerador da vida
Útero divino
Minha mãe
Majestosa Mãe Terra
Que nos ensina sobre aparências...
Muitas vezes enganosas
De fel, vira mel
Curandeira sagrada
O que não tem serventia, faz ter
Do enfeite traz a cura
Do miolo traz o sumo
E o sumo que é fel
Sem água
vira mel
Mel que cura.
Miolo misterioso
O fogo transforma
De branco amargoso
Em preto saboroso.
Manchas não pode ter
A cura não tem máculas
Três Luas é o tempo
Que precisa
O útero da filha
Para a mãe curar...
Louvado seja, Metindjwynh!
Mejkumrex minha Mãe Terra!

A literatura indígena está posta. Não é um prato que se come frio, nem se esfriou com o tempo. Ela é o ontem, o hoje e o agora. A literatura indígena é quentinha e se renova todas as manhãs como o sol, e tem aquecido a nossa alma, corpo e espírito. Ela é a wayra, que traz em sua rede nossas irmãs pássaras, reencantando as manhãs. A literatura indígena não é um papel pardo, criado pelo Estado, escondido na gaveta e ofuscado pelo tempo, nem um papel branco que se apropriou das memórias dos outros. Ela é a alegria da existência de povos que cantam a vitória da existência e tornam mais colorida a vida de quem quiser!

[Esta é a segunda parte do texto de de Aline Kayapó que foi publicado em 04/12]

***

Aline Ngrenhtabare L. Kayapó é kayapó, descendente do povo Aymara. Escritora, autora na obra Nós: Uma antologia de literatura indígena (Companhia das Letrinhas), ativista no movimento nacional de indígenas mulheres. Fundadora do Wairaísmo - corrente ancestral-filosófica que se vincula à reflexão da resistência das indígenas mulheres no Brasil. É acadêmica do curso de Direito e, atualmente, secretária de comunicação regional do Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba).

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