Ler para não se esquecer (de si)

 

O que constitui um leitor? Para o professor de literatura Luiz Percival Leme Britto, da Universidade Federal do Oeste do Pará, leitor é mais do que alguém capaz de realizar certos procedimentos mecânicos, é aquele que consegue analisar, argumentar e imprimir valor ao que lê. O ato de ler não se desprega do ato de estar no mundo. A literatura nos faz ultrapassar a ideia de sobreviver:  nos dá “o direito a ser no mundo, implica poder viver arte, ciência, política como coisas reais e constitutivas do ser humano”.

O tema está no centro da discussão do 2o FLI-BH, Festival Literário Internacional, que acontece em Belo Horizonte (MG), de 14 a 17 de setembro, quando o pesquisador ministrará o curso No lugar da leitura, a biblioteca. O evento também contará com as oficinas Cara ou coroa: a criação de personagens, com Rosinha, de Olinda (PE); Metáforas visuais: a leitura do livro ilustrado, com Marilda Castanha, de Santa Luzia (MG); e Contos e cantos de ninar, com Aline Cântia e Chico do Céu, de Belo Horizonte (MG). A programação completa você confere no site da FLI-BH.  

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Ao defender um Brasil de leitores, considera os obstáculos enfrentados pelas bibliotecas do país, mas argumenta que o problema da falta de leitura no território brasileiro não é cultural, e sim político. “Trata-se de uma concepção de mundo, de vida – e, portanto, de política – que projeta um mundo em que o humano se realiza pela superação e transcendência do automatismo, do consumismo e da miséria animal.”

Isso porque, em um mundo marcado por um entretenimento ligeiro, leituras aprofundadas e o embate às questões complexas da humanidade são um desafio. É a diferença entre a literatura que nos permite fruir, indagar e sofrer a vida e aquela que propõe um distrair-se, satisfazer-se e, em certa medida, esquecer-se. Por isso, o professor defende uma leitura “desimpedida” e “desinteressada”, que traga satisfação, mas lembra que o gosto varia de acordo com as nossas vivências. “Gosto se aprende, se muda, se cria, se ensina. Gosto se critica, se renova.”

Nesse sentido, o leitor pode tornar-se mais que um pessoa capaz de certos procedimentos mecânicos. Pode ser alguém que consiga analisar, argumentar, o que leva o conceito a outra dimensão - a dimensão de cidadania no mundo moderno. “Quando se fala em leitor no debate público e escolar, pensa-se em alguém com percepção de si e do mundo”, alguém que veria os livros como importantes para a constituição da sua identidade.”

E então, o que nos falta para nos tornarmos um país de leitores? Ele arrisca: a conquista da cidadania pela gente comum. Direitos a trabalho, saúde, educação, cultura e ciência levaria as pessoas a conseguir interagir com textos mais densos. “Não está em questão se alguém tem vontade ou gosto de ler, mas sim se pode ler se quiser ou precisar, quando e onde quiser ou precisar.” Há de ser teimoso, insubordinado, indignado.

Um aliado do leitor são as bibliotecas públicas, que sofrem hoje com baixo empenho público, sem atenção à população ou às políticas de formação. A defesa é pela biblioteca como lugar de recolhimento. Como diria o professor, um lugar que “tem também o silêncio do encontro, o silêncio gostoso e agradável, em que alguém com o livro pode encontrar-se consigo, com o outro e pensar o mundo, a vida, e indagar a existência, sonhar, fantasiar.”

Leia a seguir entrevista especial feita com o professor.

 

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Como você define um leitor?

Leitor, assim sem adjetivo, é a condição da pessoa que tem a capacidade de interagir com discursos escritos, decifrando a pauta textual e tornando-a num texto verbal intelectível. Considerando a diversidade de gêneros e complexidades de textos, o leitor proficiente (já portanto, com um adjetivo) seria a pessoa capaz de realizar esta operação com desenvoltura qualquer (ou quase) texto escrito que se lhe apresente. Evidentemente, isto implica mais que o simples procedimento mecânico, incluindo formas de intelecção e interpretação inscritas na cultura – tais como procedimentos de análise, argumento, remissão a universos, conceitos, valores etc. Sem dúvida, trata-se de uma dimensão essencial da cidadania no mundo moderno.

Esta percepção, aparentemente formalista, é importante para que a compreensão da questão político-cultural de ser leitor não se perca em subjetivismo fantasiosos ou em reducionismo pragmático – o primeiro refletivo na imagem do cidadão participante e imaginativo, criativo e crítico; o segundo, expressão de certas concepções de educação e letramento vinculadas à lógica da produção e consumo e à incorporação dos padrões sociais apropriados.

Há, ainda, a percepção pretensamente neutra de leitor como usuário (e consumidor) do escrito (impresso ou virtual), independentemente de qualquer juízo de valor; esta perspectiva se impõe total ou parcialmente nas formas de discussão e análise de leitor próprias da cadeia empresarial e de certas políticas públicas.

Para além disso, ainda que muitas vezes não se explicite, o conceito de leitor vem acompanhado de definição de escopos variados, ora em função do de um campo (literatura, cultura, atividade profissional) ora em função do perfil do leitor (leitor proficiente, leitor crítico, neoleitor). De todo modo, mais frequentemente, quando se fala em leitor no debate público e escolar, pensa-se em alguém com percepção de si e do mundo e que encontraria nos livros (principalmente, mas não só) uma dimensão importante de constituição de identidade, de atividade cultural e de participação social, com crítica e desenvoltura). Essa percepção tende a associar a leitura todo e qualquer processo de ação intelectual ou cultural – daí falar-se em leitura de imagem e leitura multimodal, entre muitas tantas expressões.

De todo modo, não há como não reconhecer que se trata de uma “noção vaga”, que se ajusta a muitas perspectivas políticas e epistemológicas, quase sempre expressando um amalgama confuso expressando um certo valor positivo de ser no mundo contemporâneo.

 

O que falta ao Brasil para se tornar um país de leitores?

Considerando o que disse acima, para que as pessoas possam interagir com os discursos escritos, incluindo os conhecimentos e as formas de construção intelectual subjacentes aos textos mais densos, um país de leitores seria um país em que os direitos de cidadania – trabalho, saúde, educação, cultura e ciência, entre outros – estivessem conquistados pela gente comum. Como tenho repetido constantemente, do ponto de vista do direito, não está em questão se alguém tem vontade ou gosto de ler, mas sim se pode ler se quiser ou precisar, quando e onde quiser ou precisar. Este é um problema político, não cultural.

Quanto a sermos um país de leitores literários – de fruidores e sofredores de uma arte que provoca à admiração e à reflexão da condição humana –, trata-se de uma concepção de mundo, de vida – e, portanto, de política – que projeta um mundo em que o humano se realiza pela superação e transcendência do automatismo, do consumismo e da miséria animal. Aqui, a condição primeira – justiça social – é necessária, mas não suficiente. E, considerando a atual conformação da ordem produtiva iniqua e fantasmagórica, produtora de ódio, dor e destruição de valores, não me parece que esteja no horizonte próximo.

De todo modo, é preciso que aqueles que buscam a humanização do humano (curioso paradoxo) se aferrem à teimosia e, insubordinados e indignados, continuem a lutar contra a barbárie capitalista.

 

E como fazer isso? Quais ações você tem observado no Brasil?

Já respondi essa pergunta na resposta anterior em termos de princípio intelectual e político. Respondo, agora, do ponto de vista da análise das circunstância e ações da sociedade e do estado.

Em primeiro lugar, é preciso garantir um estado de bem-estar social, regido não pelos ditames de uma ordem econômica voraz e destruidora, em que a competição é o valor que se impõe sobre todos. As atuais políticas de Estado no que tange ao emprego, à saúde, à moradia, à educação e à cultura – todas elas estão subordinadas a um modelo de produção que não tem como produzir bem-estar coletivo. É ilusão (quando não jogo de interesse dos setores econômicos próprios da cultura e educação) crer que políticas de compra e distribuição de livros (por exemplo) ou de promoção de cultura possam, por si sós, mudar minimamente a realidade de miséria e violência que aflige os brasileiros, principalmente os pobres.

Isso não significa que não devam ser feitas e que não devamos insistir em sua necessidade. Mesmo que contraditórias em suas formulações e com efeito insuficiente, elas vinham sendo um mínimo de possibilidade de a gente poder conhecer literatura, cultura e arte; de ter a chance de estudar e pensar e questionar. Trata-se de uma disputa política na forma de organizar o Estado, enquanto expressão da disputa social, de modo a fazer avançar a atenção os direitos sociais.

 

Você diz que a ideia de que a leitura é questão de “gosto” e que é sempre prazerosa atrapalha a formação de leitores. Poderia explicar esse argumento?

Em primeiro lugar, quero deixar claro que considero absolutamente legítimo e valioso que uma pessoa, ao realizar uma ação qualquer – especialmente uma ação intelectual – a realize movida pelo interesse desimpedido e desinteressado (o paradoxo, novamente, é proposital) e que encontre satisfação – prazer, alegria, bem-estar – em sua realização e em seu resultado. O problema é quando se inverter os processos e se desconsideram as próprias formas históricas como se constitui o gosto e se implica o desejo de bem-estar irrefletido e automático como condição de leitura. O interesse e o gosto não são objetos vazios nem expressão espontânea de vida; ao contrário, se fazem na história social e individual e, portanto, dependem das experiências efetivas por que as pessoas passaram e passam, pelas condições objetivas de realização de seu cotidiano e de sua formação intelectual.

Conforme tenho argumentado repetidamente, “O gosto não é a manifestação de determinações biológicas ou genéticas, nem é fruto de uma aprendizagem autodirigida e imanente; gosto se aprende, se muda, se cria, se ensina. Gosto se critica, se renova. Se a pessoa só interage com arte fácil e de consumo e se educa neste ambiente, não tem como considerar outras formas de expressão e de recepção do objeto estético”.

Na lógica do capitalismo moderno, o gostoso se prende ao tempo do entretenimento, que um tempo de consumo ligeiro, tempo de distração, evasão e gozo imediato. Há um conflito indissolúvel entre a literatura para conhecer, indagar fruir e sofrer a vida e a literatura que propõe o simples evadir-se, distrair-se, sem compromisso existencial, em que se busca a satisfação e, em certa medida, o esquecimento. A arte, alienada pela sua submissão à lógica entretenimento abandona a crítica, correspondendo à condição de quem, imerso num mar de banalidades, encontra-se sem condição de produzir indagações filosóficas e de tomar consciência dessa condição; alguém que, prisioneiro do pragmatismo das explicações ligeiras, não põe em questão seu modo de viver e o funcionamento do mundo que o cerca; alguém que, embotado pela inflação informativa e imagética do mundo tecnológico, satisfaz-se com a repetição, com o prazer ligeiro, incapaz de se espantar diante da existência.

Como disse acima, trata-se de uma questão político-ideológica, cuja ignorância ou desconsideração deliberada não contribui nem para a formação de consciência nem para o desenvolvimento intelectual, nem para a produção de bem-estar individual e social.

 

E as bibliotecas públicas no Brasil? Como ajudam e como poderiam ajudar nessa missão?

Há muita gente comprometida com que as bibliotecas públicas funcionem e funcionem bem, mesmo que, algumas vezes, premidas pelas pressões produtivistas ou empurradas pelo desejo que as coisas aconteçam, tendam a propor caminhos distintos daqueles que, do ponto de vista que aqui desenvolvam, sejam os mais apropriados. E mantenho profundo respeito e admiração por todas pessoas que estão nesta lida e luta.

A dificuldade com as bibliotecas públicas são de três ordens: em primeiro lugar, e principalmente, está o baixíssimo empenho público (no dois sentidos da palavra empenho: esforço e comprometimento de recursos financeiros): as bibliotecas vivem à mingua, com condições de funcionamento que mal permitem sua manutenção aqui e ali encontrando algum projeto novo que lhes ofereça um pouco de oxigênio; em segundo lugar, está a própria dinâmica social, que impede as pessoas de poderem frequentar e vivenciar as bibliotecas, em função de seus trabalhos, da localização de moradia, dos percursos urbanos e da própria disposição subjetiva, que lhe incita, em seu tempo livre, a atividades de descanso e lazer menos exigentes; em terceiro lugar, está cultura interna do sistema de bibliotecas, presa muitas vezes a um modelo rígido, sem políticas de formação e de atenção à população.

Mudar essa realidade é difícil, muito difícil. Se não mudarem as políticas públicas, com aporte constante e coerente de recurso e de valorização dos profissionais, tampouco mudarão as formas de organização, atendimento e funcionamento (quando há, é por disposição e compromisso pessoal, e não por formação e responsabilidade profissional); se não houver investimento em condições de vida da população, a biblioteca continuará a ser um lugar distante, meio mítico, meio templo, promessa de vida melhor.

É certo que há muitos casos exemplares de bibliotecas públicas ágeis e movimentadas. Fruto, insisto, da disposição e da perseverança de pessoas particulares – assim como há exemplos de escolas públicas criativas e dinâmicas. Mas a sociedade, se precisa destes exemplos, não se transforma apenas com eles, principalmente quando são exceção à regra, utilizados como escusas para o descaso público e do capital.

 

Como você define uma boa biblioteca?

Haveria muitas formas de definir uma boa biblioteca e cada caso particular dependeria de sua inserção no lugar social em que está. Certamente, não há um modelo, mas acho apropriado repetir o depoimento que dei à campanha Eu quero minha biblioteca e que já reproduzi em meu livro No lugar da leitura – biblioteca e formação:

“Eu me pergunto para que serve a biblioteca, o que é a biblioteca. Muitas vezes, as pessoas acham que a biblioteca tinha que ser um lugar que... como se fosse uma feira, uma festa, alegre, que atraísse todo mundo. Eu creio que a biblioteca precisa ser um lugar de recolhimento, um lugar bem-vindo, lugar agradável, onde vou para estar, vou para ler, vou para encontrar-me, recolher-me, refletir, silenciar, imaginar... um lugar que vou para, acima de tudo, me sentir bem comigo e poder perguntar sobre mim e sobre a vida, estudar... É um lugar que – se não todo ele, não precisa ser todo – tem também de ter o silêncio do encontro, o silêncio gostoso e agradável, em que alguém com o livro pode encontrar-se consigo, com o outro e pensar o mundo, a vida, e indagar a existência, sonhar, fantasiar – fantasia de que tanto falava Bartolomeu Campos de Queirós. Um lugar de ser, um lugar de estar”.

Ainda reproduzindo argumento apresentado no livro referido, percebo a biblioteca como o lugar de encontro com a arte, a ciência, a filosofia, a história..., um lugar social, cultural, político. A biblioteca deve, sim, ser um lugar incomum, que convoca um sujeito capaz de lidar com temas e discurso complexos e distantes da lida cotidiana; um sujeito disposto (e com possibilidade) a deixar-se estar sem tanta pressa, a compenetrar-se, a experimentar-se o silêncio. São muitos os lugares ruidosos e divertidos para entreter-se, lugares em que a gente se despreocupa, brinca e esquece. É bom que haja algum lugar em que se possa pensar, imaginar, indagar os modos do mundo, e da vida.

A boa biblioteca supõe formação permanente e deve ter como princípio contribuir para a contínua superação de limites de seus usuários. Sua medida de valor não pode estar simplesmente no tamanho ou tipo do acervo disponível, na diversidade de promoções ou na modernidade dos recursos (ainda que tudo isso seja desejável), mas na possibilidade de adensamento da cultura, de disseminação do conhecimento e de afirmação da consciência individual e coletiva. A biblioteca moderna deve ser dinâmica, flexível, informatizada, conectada; deve ser democrática e assistir todo tipo de gente. E, sendo diversas as possibilidades de leitura e diversos os públicos, ela deve se estruturar em conformidade com os tempos e dinâmicas de cada um, sempre tendo como princípio a formação, o encontro com o conhecimento, a introspecção criativa. Uma biblioteca que, para ser de todos, não pode ignorar o esforço que ler exige e propor atividades de lazer e leitura óbvias, porque “é isso que a gente quer”. Assim, ela não será lugar de encontro com a cultura, a arte e o conhecimento, não será uma biblioteca. A inclusão verdadeira está em a gente ter o poder de dizer, pensar e criar. A exclusão ocorre quando se mantém o mundo – e as pessoas que são nele – na distração, no engodo e na ignorância.

 

“O caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos; e, em consequência, mais capazes de organizar a visão que temos do mundo”, disse Antonio Candido. Afinal, a literatura é um direito do cidadão? Por quê?

O felicíssimo argumento de Antônio Cândido de que a literatura é um bem incompressível tem se disseminado no debate sobre leitura, e isso é muito interessante. Ele traz fortemente uma concepção de justiça e de direito que não se limita à ideia de sobreviver, como se o humano fosse um bicho. Acho que um verso da letra da música Comida, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, traduz bem esse princípio: a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. O direito a ser no mundo, implica poder viver arte, ciência, política como coisas reais e constitutivas do ser humano.

 

Pensando nessa reflexão, a literatura está em risco? Podemos viver sem ela?

Se a literatura está em risco? Não, nem ela nem as artes, porque o humano não vive sem elas. Podemos dizer que, de algum modo, o humano está em risco, ainda que que eu sinta, como Drummond, que “A bomba // com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve // A bomba // não destruirá a vida // O homem (tenho esperança) liquidará a bomba”. A bomba que, quando ele fez o poema, era talvez um termo referencial, é hoje a grande alegoria da barbárie fascista que propõe o capitalismo sem freio e irracional. A arte – portanto, também a literatura – seguirá sendo um poderoso meio de resistência, não importa o quanto vá se fazendo e refazendo nem os processos de acomodá-la aos padrões ideológicos e aos interesses de mercado. 

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