Jornada: os clássicos literários e a formação dos leitores

O penúltimo dia da Jornada Pedagógica foi marcado por discussões dedicadas ao leitores dos anos finais do ensino fundamental e por um grande debate sobre os clássicos da literatura. Com a proposição de levantar pontos que incluem como estimular jovens e adolescentes à leitura, as mesas iniciais trouxeram questionamentos e práticas que buscam desmistificar a ideia de que os alunos dos anos finais se tornam menos leitores e, ainda, de que maneira e quais as possibilidades de trabalhar a literatura com esse público.

A pedagoga e mestra em Linguística Aplicada Marly Barbosa propôs algumas reflexões sobre a leitura como conteúdo na escola

 

No debate sobre clássicos, grandes questões foram suscitadas, como a racialização de obras e o quanto o mercado editorial contribui para a perpetuação de cânones. Além disso, os participantes alertaram para a importância de se pensar quem são os leitores atuais e quais são as lentes utilizadas atualmente na leitura dessas tradicionais obras. 

 

Revisitando a literatura clássica

O que é um clássico? Foi com essa pergunta que teve início o debate entre Fernanda Sousa, doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada, e Rodrigo Lacerda, escritor, tradutor, editor e diretor da coleção Clássicos Zahar. A discussão, que trouxe grandes reflexões sobre obras tradicionais da literatura, falou também sobre a importância de pensarmos na comunidade de leitores e de que maneira essas obras atingem a juventude atual, assim como propôs pensarmos sobre novos autores clássicos.

Para iniciar a mesa, Fernanda Sousa fez uma provocação revisitando o questionamento de Ítalo sobre as definições de clássico. “Vou começar trazendo uma fala da Carolina Maria de Jesus, que em sua obra Casa de alvenaria – diário de uma ex-favelada questiona: o negro não tem direito de pronunciar o clássico?”. Com isso, a pesquisadora discorreu sobre o quanto o conceito de clássicos e de cânones da literatura é excludente com autores negros e que na história da literatura sempre se pensou no negro dissociado da literatura, sobretudo quando o assunto é autoria literária. “Há também a questão de que muitos clássicos e autores são imutáveis na sociedade. Quando houve crítica à obra de Monteiro Lobato, por exemplo, uma pesquisa revelou que 92% das matérias feitas pela mídia sobre o assunto eram contra a possibilidade de se pensar o racismo na obra de Lobato. Há uma tendência de se pensar o clássico como algo estável, que não é suscetível a mudanças e questionamentos”, disse.

Fernanda alertou ainda sobre a importância de se pensar no leitor que se projetam os clássicos e que é fundamental reconceituar essa noção dentro de cânone literário. “Esse debate possui muitas armadilhas. Hoje há novas demandas, novas comunidades interpretativas e é preciso questionar isso. Se existe um filé mignon da literatura e a carne mais barata do mercado é a carne negra, como é que se monta esse cardápio?”, finalizou.

Na fala de Rodrigo Lacerda, o editor, autor e tradutor fala da multiplicidade do conceito de clássicos e que em seu trabalho não há hierarquização de obras. “Traduzo todos os livros com a mesma preocupação, afinal, é igualmente desafiador entrar em contato com o autor através do texto, independentemente da obra”, disse ele. Já como editor, Rodrigo falou da importância de se ter o conceito mais amplo possível do que é um clássico, e dentro disso, oferecer o maior número de gêneros e temas possíveis.

Ainda, segundo ele, é preciso se questionar quais são os clássicos que ainda funcionam para o jovem de hoje e que é preciso reconhecer a diferença entre o conceito de obra clássica ensinada nas universidades, por exemplo, e aquele que diz respeito ao gosto pessoal. “Em provocação ao Calvino, que nos pergunta por que ler os clássicos, devemos perguntar qual o clássico que você odeia. As pessoas não gostam de admitir que não gostam de um autor clássico, no entanto, apesar de necessárias, essas obras têm que ser fluidas, ampliáveis e, inclusive, questionáveis”, finalizou.

 

(Assista a esse bate-papo a partir de 2:02:00)

 

BNCC e leitura literária – Ensino Fundamental – anos finais

A pedagoga e mestra em Linguística Aplicada Marly Barbosa fez uma apresentação em que, ao apresentar obras de ficção e não-ficção voltadas aos jovens dos anos finais do Ensino Fundamental, foi discutindo pressupostos que orientam o trabalho com a BNCC e o trabalho de formação de leitores previsto na Base. Ainda, propôs algumas reflexões sobre a leitura como conteúdo na escola e as possibilidades para que o trabalho de formação de leitores aconteça de forma efetiva. Confira como foi:

 

 

Práticas de leitura na escola – Ensino fundamental – anos finais

A mesa de práticas, que se firmou com a característica de compartilhamento de experiências reais de leitura, teve a participação de Cristina Macedo, cientista social que é professora de biblioteca na Escola Vera Cruz há 30 anos em São Paulo e que falou sobre as aulas quinzenais de biblioteca que existem na escola e da importância de ter alguém que orienta os alunos permanentemente no espaço da biblioteca. Em seguida, Josenéia Costa, professora e pesquisadora de Salvador (BA) falou sobre como professores de Língua Portuguesa podem formar leitores críticos no dia a dia da sala de aula. Para finalizar, Lucineide Cipoli, pedagoga, professora de sala de leitura e youtuber literária no canal Estilo & Literatura, contou um pouco sobre o que é exatamente o projeto Sala de Leitura que existe há 47 anos na Rede Municipal de São Paulo e trouxe ações dos alunos para refletir sobre o leitor adolescente na escola. Saiba mais:

 

 

Confira a programação completa:

 

Leia mais:

+ Jornada Pedagógica: qual o papel da escola na formação do leitor?

+ Jornada: diversidade e práticas na formação de leitores

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