Histórias para não esquecer jamais

 

É nas páginas de muitos livros que a história vive e é sempre revisitada. Mas também é na mente de pessoas que participaram desses acontecimentos. Na coleção Memória e História, esses dois lugares se encontram. Desde 1998, autores renomados como Ana Miranda, Tatiana Belinky e Isabel Lustosa compartilham memórias de momentos históricos do Brasil. Juntos, formam um panorama de um país composto por diferentes grupos e realidades.

 

Ilustração do livro Imigrantes e mascates, escrito por Bernardo Kucinski

 

Quem pode comentar cada volume da coleção é a artista Maria Eugênia, que ilustrou todos os títulos com muita pesquisa e uma boa dose de imaginação. Percebeu uma fórmula mágica que os acompanha: “Boa literatura com muita informação”. Ela já havia ilustrado obras da Companhia das Letrinhas, como Papai noel, um velhinho de muitos nomes (Vários autores, 1995) e Divinas aventuras (Heloisa Prieto, 2012), quando foi chamada para trabalhar no primeiro livro da coleção, Histórias de avô e avó, de Arthur Nestrovski.

Na obra, Nestrovski conta a história de seus avós, imigrantes russos de origem judaica. “Ele achou que eu tinha captado a atmosfera como se eu conhecesse a família e a casa dele”, conta Maria Eugênia, que à época não conhecia o autor e não tinha nenhuma referência da história presente no texto, com exceção da foto que compõe a capa do livro. Depois da experiência, trabalharam em outro livro juntos, Bichos que existem e bichos que não existem, que acaba de ser relançado pela Companhia das Letrinhas.

Outro caso bastante memorável para a ilustradora foi Imigrantes e mascates, de Bernardo Kucinski. O contexto da narrativa: o início da Segunda Guerra Mundial, quando o escritor tinha apenas dois anos de idade e a sua mãe, polonesa, estava há quatro anos no Brasil. Mal falava o português. “É uma história com muitos momentos melancólicos, mas acho importante que crianças leiam relatos como esse, verdadeiros.”

 

Imagem do livro Imigrantes e mascates, escrito por Bernardo Kucinski

 

Um dos preferidos da artista é Flor do cerrado: Brasília, escrito por Ana Miranda. A consagrada autora de romances históricos volta-se, nessa obra, à sua infância, que coincide com a construção de Brasília, cidade planejada para ser capital nacional em meados da década de 50. Além de ter oito anos quando acompanhou a inauguração, a escritora lembra de seu pai, engenheiro, trabalhando para erguer a cidade prometida por Juscelino Kubitschek. “Muitas vezes, numa conversa, conto fatos e casos que li nos livros [da coleção]. Da história da construção de Brasília, por exemplo.”

Por serem narrativas históricas, a pesquisa é caprichada em referências da época de cada livro. Maria Eugênia costuma procurar fotos em livros e na internet, mas é sempre uma tarefa arriscada. “É uma situação delicada ilustrar as pessoas como elas eram quando pequenas. São acontecimentos reais, que estão claros na cabeça do escritor. Ainda dá para ele falar: ‘Não era assim, não parece com a minha mãe ou com o meu pai’. Entendo que deva ser difícil para ele ver aquele texto ilustrado.”

Na época em que foi convidada para ilustrar a coleção, publicada desde 1998, Maria Eugênia estranhou. É que seu estilo costumava ser mais solto, e as imagens que os livros pediam eram mais figurativas. “É um estilo que é um pouco diferente para mim, é até um desafio porque realmente não sou uma pessoa que faz desenho realista, com cenário.” O que combinou foi o estilo nostálgico do trabalho dela, suas referências que seguem uma atmosfera retrô. “Inclusive a minha casa é cheia de antiguidades. Sempre gostei de pintores clássicos e renascentistas, de música barroca. Esse espírito do nostálgico é uma característica bem própria que consigo captar.”

É uma atmosfera que chama a atenção dos mais diferentes leitores, das mais diferentes faixas etárias. A ilustradora reconhece que uma parte do sucesso e da longevidade da coleção se dá por essa identificação da criança, curiosa por conhecer o mundo, e do idoso, ávido por rememorar o passado. Ela mesma, de São Paulo, nunca tinha conhecido alguém que houvesse vivido a construção de Brasília, apesar do contato próximo com muitos arquitetos. Ali, nas páginas de Ana Miranda, pôde viver esse tempo descrito pela escritora e testemunhado por tantos brasileiros. 

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