“Eu iria embora se pudesse voar”: juventudes invisíveis e a escola

Por Lourdes Atié

Nos últimos dias, participei de uma seleção de jovens para um curso de formação artística. Entre alguns critérios, os mais importantes eram: ter entre 17 e 23 anos e estar em situação de vulnerabilidade e risco social. Pude conversar com os jovens, observá-los na oficina artística e ainda entrevistá-los individualmente.

Eles estavam estudando ou já tinham finalizado o ensino médio. Vinham de regiões periféricas muito pobres de São Paulo e, mesmo em famílias grandes, sem qualquer membro empregado. Todos vivendo de “bicos”.

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Ilustração: Bicho Coletivo

Confesso que, mesmo com muitos anos viajando por todo o Brasil, nunca pensei que, no estado mais rico do país, iria encontrar tantos jovens em situação de pobreza extrema. E se a situação já era difícil antes da pandemia, tudo tinha piorado com ela. Porém, viam na arte um campo de expressão importante para suas vidas.

Todos os dias voltava para casa arrasada, pensando em cada um, nas coisas que me diziam, quando o olho brilhava. Eles têm sonhos que estão sendo roubados por um país injusto e extremamente desigual. Dessa forma que o Brasil desperdiça suas juventudes, e são exatamente aquelas mais vulneráveis as mais prejudicadas.

Nas entrevistas, não me falavam das suas vidas como um lamento ou se vitimizando. Nada! Relatavam como estavam se virando. Precisavam do dinheiro da bolsa-auxílio oferecida, caso fossem selecionados, mas era pela arte que a maioria estava ali. Uns mais experientes, outros mais imaturos, mas todos acreditavam que a arte era o caminho a ser seguido, sem grandes planos. Tudo no miúdo. Um dia de cada vez.

Um dia entrevistei uma menina de 17 anos, bem pequena, tímida e que falava baixinho. Tinha terminado no ano passado o ensino médio. Perguntei se seguiria estudando, e ela me respondeu que “a escola não era para ela”. Não entendia o que os professores diziam nem era entendida por eles. Disse ainda que, na escola, todos vivam sem vida, como robôs fazendo apenas o que era mandado. Mas não falou com raiva ou se lamentando. Era só uma constatação. Dizia que não gostava daquele lugar.

Ela tinha sonhos que incluíam até aprender a fazer malabares para se juntar a um amigo e poder ficar nos semáforos das ruas, se apresentando. Era o máximo de felicidade com que conseguia sonhar. E enquanto me contava esse sonho, seu rosto se iluminava.

Também pensava em fazer um “mochilão”, “saindo por aí”. Perguntei se não tinha medo de viajar sozinha e ela me respondeu que “não era questão de medo, mas de falta de opção”. Naquele momento, me deu vontade de colocá-la no colo, abraçá-la e dizer apenas que eu estava ali por perto. Como não se emocionar? Como pode um estado, um país abandonar dessa forma seu futuro? Como não se afetar por essa dura realidade?

Como ela, outros e outras conversaram comigo e, sem exceção, a escola não fez sentido em suas vidas. Eles não foram vistos por ela. Conseguiam citar experiências prazerosas em espaços culturais. Mas nenhuma boa lembrança da escola. Como educadora, morria a cada dia.

Como podia a escola não ter servido para nada, além de um diploma? Como não ter nenhuma lembrança positiva do mesmo espaço que luto para fazer sentido para todos? Como podem passar pelas mãos de vários professores sem serem vistos? Porém, como enxergar o outro se também os professores não são vistos pela sociedade?

Essa engrenagem perversa que faz com que o Brasil não chegue a um nível básico de civilidade, sem consciência cívica, em que o outro não importa, e todos só querem se dar bem. E isso é muito bem ensinado pelas autoridades em todas as instâncias sociais e políticas, que servem como modelo.

Por outro lado, para aqueles jovens, a arte fazia total sentido. Nenhum se preocupou muito por estar num processo de seleção naqueles dias. Mais importante foi o encontro. Estar juntos, brincar, jogar, dançar, não ter vergonha de fazer o que tinham vontade. Puro deleite! Estavam plenos de gratidão pelas poucas horas que passaram conosco.

 

A literatura como forma de encontrar a própria voz

Mas seus sorrisos não preenchiam o vazio que eu sentia enquanto educadora. Em um dos dias em que estava verdadeiramente mal, pensando em tantas injustiças e abandonos que estão acontecendo com nossas juventudes, cheguei em casa e tinha uma caixa de presente para mim.

Nela, entre outras coisas, tinha um livro chamado Eu fico em silêncio, publicado pela Companhia das Letrinhas, do músico norte-americano David Ouimet. Além de músico, ele é ilustrador e autor de outras obras. Pois esse livro me salvou! E afirmo sem dúvidas: todos os educadores precisam ler esse livro com urgência!

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Uma menina se sente deslocada e sozinha,
e encontra sua voz por meio dos livros. Leia +.

Com ilustração primorosa, o livro tem uma menina protagonista, exatamente como a que relatei acima: ela conta que fica em silêncio porque, quando fala, ninguém a entende. Descreve uma profunda solidão ao longo as páginas, num mundo superpovoado, em que todos são iguais, se vestem iguais e usam a mesma máscara.

Com pouco texto, porque as imagens dispensam as palavras, foi dele que tirei a frase do título deste artigo: “eu iria embora se pudesse voar”. Quantos jovens pobres, que estão em situação de vulnerabilidade, seriam capazes de pronunciar a mesma frase? A vida como vivem é dura. Precisam de mais e merecem mais.

Depois de constatar sua invisibilidade, a protagonista da história encontra uma saída – é pela leitura e por tudo que ela é capaz de lhe proporcionar. É pela sua potência que ela passa a se enxergar. Da forma mais poética possível. Esse livro mostra que saídas existem e que elas passam pela arte.

Então sugiro que, ao invés de pensarmos em treinamentos pirotécnicos para os professores, vamos apenas fazer uma bela seleção de livros encantadores, para ler juntos e fazer com que se reconectem consigo, não pelas faltas e dores, mas pela beleza, pela sensibilidade. Enfim, pela arte.

É pela arte, que podemos descansar das nossas frustrações e fazer delas a matéria-prima para encontrar saídas - reais ou mágicas, não importa. A literatura nos permite seguir com algum encantamento pela vida, para além dos dias tão difíceis que estamos vivendo. Nos encantando, seremos capazes de encantar nossos alunos e provar que a escola é necessária, não para passar de ano ou tirar um diploma, mas para corrigir as injustiças sociais e aprender a lutar por um mundo melhor.

A escola é o lugar mais democrático que existe para o diálogo entre o conhecimento e a arte.

Vamos retomar o encantamento que deixamos para atrás para sobreviver nesta escola que também nós não gostamos, e vamos fazer deste lugar o espaço de sonhar e transformar. Vamos começar? Tenho uma lista poderosa de livros para indicar.

Lourdes Atié é socióloga, consultora de educação e trabalha com formação de professores.

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