Emicida conversa sobre seu novo livro pela Letrinhas

A essa altura, todo mundo já sabe do acontecimento: Emicida vai lançar livro novo pela Companhia das Letrinhas! Em E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas, ele retoma a parceria com o ilustrador Aldo Fabrini - de Amoras - e conta, em versos rimados, como num longo rap-poema, os pontos de vista de duas meninas com medos diferentes, que viviam se desencontrando. O lançamento oficial do livro acontece em outubro, mas já dá para conferir o booktrailer aqui:

Tudo isso já seria notícia boa o bastante, mas ainda tem mais um pouco: uma entrevista em que ele fala sobre medos de crianças e adultos, luz, escuridão e o processo criativo no meio da madrugada, durante uma viagem muito boa. Cheguem!

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Há duas personagens muito diferentes no livro, uma com medo do escuro e suas criaturas, outra com medo da claridade e do desconhecido que o nascer do dia traz. Por conta das diferenças, elas têm receio uma da outra e só vão se encontrar no final, quando percebem que o que nos assusta tem muito do que a gente espelha no outro. Qual a importância de abordar a coragem para deixar de lado as diferenças e o medo propriamente, ainda mais em um ano como 2020?

Há algum tempo eu queria brincar com as palavras e esse tão comum medo do escuro. Queria muito usar isso pra dizer que esse medo tem como origem a distância e que, quando nos aproximamos, ele vai embora. Curiosamente, quando entramos na pandemia da Covid-19, eu fiquei com uma grande dificuldade de concentração, ansioso e angustiado, como todo mundo. Comecei a ler sobre o medo e as origens dele na experiência humana. O texto já estava pronto e não quis mexer, mas acabei na sequência disso refletindo sobre a importância de fazermos as pazes com todos os nossos sentimentos, inclusive esses tidos como menos nobres. Falar sobre isso agora, no meu entender, é uma forma de reorganizar as nossas emoções, pacificar o interior de uma forma urgente, principalmente nas crianças. Recentemente, a minha filha fez uma tarefa da escola em que ela precisava descrever a emoção dela sobre a quarentena. A última frase que ela escreveu estava incrível, era assim: “Sobre a quarentena, eu imaginei que fosse ser legal, mas agora já mudei de ideia”. Quer dizer, os pequenos sabem e sentem absolutamente tudo o que está acontecendo. Precisamos falar com eles sobre isso considerando a sua grande capacidade de percepção.
 

Esse é um livro para falar de um sentimento universal, o medo, mas também da coragem, e que não toca tão diretamente nas questões de raça como o seu primeiro livro. Mas há no texto (e nas imagens) um contraste entre claro e escuro e a leitura visual traz elementos bastante simbólicos, de recortes de raça e de gênero. Que leituras você faz sobre a maneira como o livro aborda essas questões? 

Acho que o medo é um sentimento valioso. Assim como tento desenhar na experiência do livro, acredito, de verdade, que ele não é necessariamente ruim. É ele quem faz a gente ser cuidadoso com a realidade, por exemplo. Por isso, apresento ele como um conselheiro muito preocupado, mas, ainda assim, um amigo. E como um bom amigo, ele precisa também saber a hora de ficar quieto. O medo surge como um personagem quase no final do livro, mas a atmosfera do livro dialoga muito com ele, com esse receio da escuridão, do que ela guarda. Mesmo com o título sugerindo o encontro e a amizade, a aventura se desenvolve envolta em medo também. A gente quis desenhar o medo como se ele fosse um banqueiro, onde quanto mais você dá a ele, mais ele pede. Então ele não consegue te deixar viver por que ele acha que viver é perigoso demais e você deveria ficar escondido cedendo às exigências dele. Quando você encara o seu medo, você compreende a natureza dele, realmente ele te diz coisas importantes. O cuidado é muito necessário sempre, mas ele não pode roubar de você o direito à vida e é nesse momento em que se faz necessária a coragem, que não vem de uma vez só. Você primeiro vai negociando com o seu medo, ousando um pouco mais, e mais, cada vez mais... e é assim que a coragem vai crescendo até ela ficar gigante a ponto de poder colocar o medo de volta no lugar dele, onde ele não é algo inútil, mas também não é o maior protagonista das nossas vidas. E a coragem, após chegar, se transforma na embaixadora do encontro e toda a vida passa a fazer sentido quando temos a coragem de ir até o outro. [Ao mesmo tempo] você tem uma personagem principal que tem a pele mais clara, ela é parda e, graças a sua curiosidade, caminha rumo a si mesma e acaba ficando amiga da sua negritude, que é perseguida por mil estereótipos sugeridos pelo medo. Esse caminho é mais ou menos o meu caminho rumo ao que hoje entendo como minha identidade. 

Ilustração de Aldo Fabrini para E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas

Além dessa simbologia, parece haver uma representação da dificuldade de dormir das crianças e dos adultos. O livro é dedicado à sua filha Teresa e você já disse que ela te acompanhava nas madrugadas. Ela tinha medo do escuro? E você tem insônia? Esses elementos fizeram parte do processo criativo do livro?

Eu estava em Halong Bay, com a minha família, no Vietnã. A gente estava atravessando de barco e, durante a noite, eu estava tão feliz que não conseguia dormir, eu ficava andando pelo quarto em que estávamos nesse barco e olhava elas dormindo. Nesse quarto, tinha uma varanda. Lá fora, as pedras que saíam do mar eram idênticas aos cenários de Dragon Ball (graças à erosão de milênios) e me fizeram ficar pensando na visão das crianças das coisas. Graças a Deus, nesse lugar, que já é quase no mar da China, nossos celulares estavam sem sinal. Se estivessem conectados, talvez, eu ficasse lendo besteiras nas redes sociais. Mas como não estavam, eu fiquei pensando em como as crianças percebem o mundo e peguei um papel e uma caneta e fui escrevendo essas rimas. Quando o sol estava nascendo, já estava pronta a história. Minha filha mais velha já não tem medo do escuro, mas a mais nova ainda tem e, pensando nos momentos que ela acorda e que precisamos passear pela escuridão cantando baixinho, ficou muito mais fácil escrever isso.

E os medos dos adultos, como ficam neste momento de inseguranças e incertezas tão grandes, com tanta intolerância, desinformação e polarização política? 

Como eu falei antes, eu iniciei a quarentena lendo sobre medo. Fui até medos que surgiram antes de mim. Eu carrego medos da geração da minha mãe, por isso sempre tenho um documento comigo; tenho receios que vêm da geração da minha avó, que me transformam, de alguma forma, em um viciado em trabalho; e até alguns fantasmas das gerações que vêm de antes das delas, coisas de um passado que insiste em não passar. Eu precisei meditar e conversar muito comigo para pacificar os meus medos e me conectar com o que acredito ser a minha natureza. Cobras e aranhas mordem humanos quando amedrontadas. E é isso que o medo faz conosco durante a vida toda se não formos cuidadosos, nos leva a agir contra a nossa natureza. A natureza primordial da gente diz que a gente deve ser humano, por isso AmarElo [álbum de estúdio mais recente do artista] reflete sobre serenidade, sobre paz, para que - ao dissipar o medo e nos conectarmos com a coragem - encontremos nossa natureza verdadeira e possamos ser dignos de sermos chamados de humanidade.

 

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