Educação política desde a infância

 

Certo dia a bicharada se revoltou com a gestão do leão, o "rei da selva", e decidiu fazer uma eleição para escolher quem é que iria governar a floresta. É com essa história que André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun trazem mais uma vez a discussão sobre política para a vida das crianças. Lançado em ano em que o tema está ainda mais na pauta diária, A eleição dos bichos levanta uma reflexão sobre a importância da educação política entre as novas gerações.

"Esperamos também que o livro possa seguir ajudando a refletir sobre a forma como escolhemos os nossos líderes mesmo depois das eleições", conta Paula Desgualdo, uma das autoras da obra, criada de forma coletiva, envolvendo mais três autores adultos e tantas outras crianças que participaram de oficinas sobre política em escolas.

 

 

Essa já é a segunda publicação do grupo sobre o tema, depois de Quem manda aqui, de 2015. O objetivo segue o mesmo: suscitar debates e diálogos que envolvam crianças e adultos, o que o grupo fez por meio de oficinas. Para saber mais sobre esse livro, que defende que política se discute, sim, clique em texto que traz outra conversa com os autores.

"O fato de o livro ser lançado em fase de campanha, quando o tema das eleições está muito vivo e presente no nosso cotidiano, é um potencializador." Mas, para que isso aconteça sem cair em imediatismos eleitoreiros, os autores contam que foram muitos os cuidados para que o texto ficasse livre de opiniões, mesmo que ainda carregue humor. "Tudo foi definido muito cuidadosamente: as palavras, as personagens, a escolha dos bichos e seus gêneros (pensando no que eles representam dentro do imaginário da criança)", explica Paula. Entre os animais que disputam o cargo de rei/rainha da floresta, estão o próprio leão, a macaca, a cobra e a preguiça, com seus respectivos vices – a leoa, o tucano, o rato e a joaninha.

O ambiente cheio de debates políticos já traz naturalmente o assunto às crianças, o que pode enriquecer a experiência de leitura – e vice-versa. Por isso, a obra é potente para ser trabalhada em sala de aula. Segundo os autores, não é preciso ser especialista em política para falar sobre esse assunto com as crianças. "Professores podem começar por aí, pela leitura curiosa, desvinculada de papéis pré-definidos e opiniões. Não que tenha receita, mas começar com perguntas parece um bom caminho."

Afinal, assim como lembra Paula, a política é parte da vida de todos – e nós somos parte dela. "É algo que permeia a vida e constrói realidades. O educador navega por assuntos relacionados a história, arte, filosofia e biologia, mesmo sem ser um especialista em todas essas áreas de conhecimento. Por que não falar de política?"

E foi o que fizeram. A eleição dos bichos foi criado com simulações de eleições feitas em escolas e em uma biblioteca comunitária. "É importante estar tanto dentro como fora da escola. Em espaços institucionais, não-institucionais, na rua, dentro das casas...  Educação política se constrói todos os dias, em todos os lugares", afirma Paula. "Quanto mais o livro circular, quanto mais a dinâmica da eleição e os temas relacionados à política estiverem na vida das crianças, maior a chance de elas crescerem e se tornarem seres políticos mais maduros, indivíduos que participam e se entendem responsáveis pela realidade em que vivem."

 

 

Os autores, no entanto, surpreenderam-se ao ver as crianças reproduzirem alguns comportamentos dos adultos, como estabelecer alianças de paz, declarar guerra a outros bichos, fazer discursos de posse diplomáticos... A harmonia não reinou geral, no entanto. Em uma escola, “a eleição pegou fogo”, conta Paula. “Os ânimos ficaram exaltados e os bichos que não venceram não queriam aceitar o resultado da eleição de jeito nenhum. Isso só mostra que é preciso seguir trabalhando, sair desse lugar de 'nós contra eles' para amadurecer a ideia do construir junto."

A boa surpresa veio da própria brincadeira, em que, para roteirizar o livro, as crianças se caracterizaram dos animais da floresta. Por algum motivo, a preguiça foi a preferida em disparado. "As falas para convencer o resto da turma a votar no próprio animal são ótimas. Teve um grupo de joaninhas, por exemplo, defendendo que elas deveriam ser eleitas porque davam sorte. Um bom argumento, né?"

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