David Ouimet, de 'Eu fico em silêncio', conta que foi uma criança instrospectiva e feliz

A timidez pode ser massacrante para uma criança, como é o caso da menina do livro Eu fico em silêncio, o primeiro escrito e ilustrado por David Ouimet, que também é músico. A garota se fecha em seu mundo interior, sem conseguir expressar o que sente e se afunda em sua própria névoa.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Blog, o próprio Ouimet revela que foi uma criança tímida, mas feliz, e que sua introspecção se manifestou por meio dos muitos talentos criativos que ele desenvolveu ao longo da vida.

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O multiartista David Ouimet

Da mesma maneira, apesar de seu estilo sombrio e obscuro, o artista, que é do Tennessee, nos Estados Unidos, e fez faculdade de cinema, revela que seu jeito de ser é o contrário disso.

“Eu realmente não consigo explicar por que tudo que eu crio acaba ficando tão melancólico, já que a minha personalidade é o oposto disso. Por anos e anos eu tentei dar uma suavizada, desenhando coelhos para amigos e outros exercícios assim, mas eles sempre acabavam sendo os coelhos mais obscuros que você possa imaginar.”

Ele reflete que, em seu trabalho artístico, geralmente trabalha "do escuro para o claro, em relação à tonalidade. Eu imagino, talvez, que esses lugares escuros, em nível emocional, reflitam mais verdadeiramente o que nós somos, em oposição ao que achamos que somos”

A menina de Eu fico em silêncio encontra mais luz e possibilidades de se expressar por meio dos livros e das vozes que eles representam. Quando criança, Ouimet adorava a verdade e a honestidade da voz dos livros de Maurice Sendak e, adulto, considera que os livros ilustrados são o formato artístico perfeito.

Também é fã de Clarice Lispector, Ana Maria Machado, Os mutantes e Gal Costa, além de dizer que Villa-Lobos é uma influência musical desde a sua infância.

Antes da entrevista, vejam aqui um recado do autor para os leitores brasileiros:

 

Blog da Letrinhas: Eu fico em silêncio é seu primeiro livro como escritor e ilustrador, certo? Você pode contar de onde veio a ideia? O livro é autobiográfico de alguma maneira? Como se desenvolveu o desejo de criá-lo?

David Ouimet: Sim, esse livro é a minha estreia como escritor e ilustrador. Ainda que eu tenha tido outras ideias para livros ilustrados no passado, não sentia que eles traziam nada de único ou singular para o formato. Com Eu fico em silêncio, eu sabia exatamente o que precisava expressar; ainda assim, o processo de criação da estrutura e a maneira mais eficiente de falar sobre estados emocionais complexos para crianças levaram anos para desenvolver. A base do livro é profundamente pessoal e tem origem no período mais doloroso da minha vida. Uma pessoa muito próxima e querida sofria de uma ansiedade intensa. Ainda muito jovem, essa pessoa vivenciou um isolamento inimaginável e, por fim, foi internada. Como na experiência da menina em Eu fico em silêncio, foi a luz dos livros e a percepção de ser parte de algo maior que conduziram seu caminho para fora da escuridão. Eu sentia que tinha a responsabilidade de criar um livro que pudesse ajudar as crianças a navegar por esse tipo de aprisionamento emocional. O que eu nunca teria imaginado é que o mundo estaria imerso numa pandemia que causou, agora mais do que nunca, uma epidemia de ansiedade.

Ilustração de David Ouimet em Eu fico em silêncio

Nós vivemos em uma sociedade muito barulhenta, em cidades barulhentas, que valorizam bastante quem tem algo a dizer e, em geral, tendem a deixar de lado as pessoas mais introspectivas. Seu livro, porém, é uma ode ao silêncio, à diferença e à autoaceitação. Você se considera uma pessoa introspectiva? Isso chegou a ser um problema para você?

DO: Eu fui uma criança muito introspectiva, bastante solitária no meu próprio mundinho. Ainda assim, diferente da protagonista de Eu fico em silêncio, eu era uma criança feliz, mesmo que estivesse mais isolado socialmente. No mínimo, essa introspecção me direcionou para ter uma vida interna muito rica, que por sua vez se manifestou criativamente por meio da arte e da música. Eu ainda sou uma pessoa introspectiva, mas, desde que me tornei adulto, fiquei muito mais aberto socialmente. Eu espero que as crianças que leiam Eu fico em silêncio sejam acalentadas pela mensagem de que a introspecção é uma qualidade linda e poderosa.

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Você é músico e integrante de uma banda de rock, certo? A música tem alguma influência na maneira como você escreve e ilustra? De alguma maneira ela te levou para a literatura e a ilustração?

DO: Embora eu ainda componha música, não me apresento já há alguns anos. Desde que eu era muito novo, tanto a música quanto a arte eram trens que corriam na mesma direção. De várias maneiras, eu abordo a criação de um livro e de uma coleção de músicas da mesma forma, apenas com ferramentas diferentes. A minha bagagem musical foi de enorme ajuda para a criação do Eu fico em silêncio; o ritmo e a métrica são muito proeminentes ao longo do livro, tanto nas ilustrações quanto na estrutura do livro. Da mesma maneira, o uso da dinâmica foi uma ferramenta muito importante para criar um volume visual que aumenta ou diminui de acordo com o estado emocional da menina. De todos os elementos de música que eu incorporei ao Eu fico em silêncio, a harmonia foi o mais eficaz e o mais difícil. Onde criar tensão e relaxamento através de dissonância e consonância? Essas decisões me fizeram perder o sono por muitas noites.

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Ilustração de David Ouimet em Eu fico em silêncio

A personagem principal de Eu fico em silêncio tem dificuldade para se expressar e usar a própria voz, mas, ao mesmo tempo, ela parece que está a ponto de dar um grito primal a qualquer momento. Essa tensão entre silêncio e som ocorre com frequência no seu trabalho?

DO: O poder dos intervalos, os espaços entre a tinta da palavra impressa, o uso do espaço em branco em uma tela; todos esses são lugares onde eu tendo a gravitar. O mundo ocidental em geral tem pavor desses espaços, embora a luz venha daí. À medida que eu fui ficando mais velho, passei a entender como apreciar o silêncio e esses espaços. Como eu vivi mais de trinta anos em Nova York, eu me acostumei à tensão entre silêncio e som, e acho que ela sempre vai ser um elemento do meu trabalho.

 

A atmosfera do Eu fico em silêncio é sombria e obscura, e essas são características dos seus outros trabalhos como ilustrador também, certo? Você pode falar um pouco sobre as suas influências, por favor?

DO: Em termos de música, eu ouço em primeiro lugar música clássica, mas, fora isso, meu gosto é radicalmente eclético. O compositor estoniano Arvo Pärt foi uma das coisas que eu ouvi muito enquanto fazia Eu fico em silêncio, mas também ABBA e Charlotte Gainsbourg. Na literatura, Roberto Bolaño, Maurice Sendak, Edith Wharton e Shaun Tan são influências enormes, mas esse barco sempre veleja em direções estranhas de acordo com a direção do vento. Eu simplesmente não sei por onde começar com as minhas influências artísticas porque é uma tarefa meio impossível, como descrever o que você gosta num rio num dia de primavera.

Ilustração de David Ouimet em Eu fico em silêncio

 

Quais são as técnicas e materiais que você emprega nas suas ilustrações?

DO: Depende do livro. Até Eu fico em silêncio, todos os livros que eu tinha ilustrado eram em preto e branco. Eram gravuras ou scratchboard [técnica de ilustração em que se arranha a superfície com alguma faca ou talha bem fina] ou pó de carvão, técnicas que eram usadas no século 19 em ilustrações médicas, o que se adequava à minha inclinação artística excêntrica, assim como à minha tendência detalhista.
 

Com Eu fico em silêncio, todas as ilustrações em preto e branco foram feitas com grafite em grandes folhas de papel prensado a quente [que é superliso]. As coloridas também começaram em folhas grandes de papel, que depois foram escaneadas e digitalizadas. Depois disso, eu faço a maior parte do trabalho com cor em no iPad. É libertador poder levar o trabalho para cima e para baixo e fazer o que antes só era possível no estúdio. Assim que termino de colorir as imagens, eu as imprimo em folhas grandes de papel para aquarela e continuo a trabalhar com aquarela e lápis de cor, até que elas estejam finalizadas e prontas para escanear.

 

Como você chegou ao território do livro ilustrado? E como decidiu que esse era o formato ideal para essa história especificamente?

DO: Eu sempre senti que o livro ilustrado é uma forma de expressão perfeita, a fusão entre o texto escrito e a ilustração, em que um não pode existir sem o outro. Eu estudei cinema, e existe uma conjunção muito similar entre o som e a imagem nos filmes e o texto e a imagem no livro ilustrado. Mesmo antes de ter filhos eu colecionava livros ilustrados. Eu acho de verdade que é um formato artístico autêntico quando executado corretamente. E não acredito que que eu teria conseguido expressar a essência emocional dessa história em qualquer outra coisa que não um livro ilustrado.

 

A atriz brasileira Sônia Braga comentou que Eu fico em silêncionão é um livro infantil, mas antes uma experiência para todas as idades”. Você fez o livro com um público-alvo em mente ou simplesmente se expressou por meio desse formato?

DO: Eu pretendia inteiramente que o público do livro fosse composto de crianças. Enviei uma versão anterior para a Sônia cerca de dois anos antes da publicação, e a fala dela foi incrivelmente certeira, porque o livro realmente encontrou um público entre os adultos tanto quanto entre as crianças.

 

Quais autores de livros ilustrados e de livros infantis você admira? E quando criança, qual era o seu autor preferido? O que você lia quando era pequeno?

DO: Maurice Sendak foi, como para tantas crianças da minha geração, meu autor preferido. Eu percebia que os livros dele nunca me subestimavam como leitor, e, no limite, sentia uma honestidade neles que não havia em nada que eu já tivesse visto antes. A abordagem dele para criar livros ilustrados tinha uma sensibilidade meio punk rock, antes mesmo do punk existir. Ele quebrou todas as regras para chegar uma espécie de verdade.

Eu fui um leitor bem geek quando era criança, passei dos livros infantis do Robert Lawson para biografias de quatrocentas páginas bem de repente. William Carlos Williams também me transformou quando eu era criança com o poema "The Red Wheelbarrow" [O carrinho de mão vermelho]. Ainda é uma das coisas mais bonitas com que eu já me deparei na vida:

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain 
water

beside the white
chickens*

 

Você também encontrou a sua voz por meio da arte, como a menina de Eu fico em silêncio, independente se foi pela música, ilustração ou literatura?

DO: Eu encontrei a minha confiança criando as coisas que eu faço, independentemente da forma. Não consigo imaginar quem eu seria se os meus pais não tivessem me encorajado a ser criativo.

Sou muito consciente de como fui privilegiado por crescer em um ambiente que valorizava a criatividade. O autocontrole e a imensa alegria que exercer a minha criatividade dos 4 aos 55 anos é um presente enorme. A educação artística é tão vital na nossa sociedade porque ela empodera crianças que talvez não tenham tido o mesmo privilégio que eu tive quando era pequeno.

Ilustração de David Ouimet em Eu fico em silêncio

Seu livro foi publicado no Brasil depois de quase um ano de pandemia, momento em que a saúde mental, especialmente a das crianças, se tornou uma grande preocupação, não apenas aqui. Você tem acompanhado essa situação ou está envolvido com ela de alguma maneira?

DO: Estou bem consciente da situação do Brasil, que infelizmente representa um dos dilemas mais urgentes que essa pandemia levantou em termos de saúde mental. Eu espero que Eu fico em silêncio ajude a começar conversas sobre esse assunto de uma maneira significativa. Uma das consequências mais surpreendentes da publicação desse livro foi o uso dele em terapia. Com uma frequência regular, eu recebo mensagens de adultos que conseguiram se abrir na terapia com o Eu fico em silêncio. É a mais extraordinária experiência de humildade saber que esse livro está ajudando as pessoas a lidar com a gravidade de estar vivo.

 

Você conhece autores ou músicos brasileiros? Já esteve no Brasil alguma vez?

DO: Não pessoalmente, mas sou um grande fã da Clarice Lispector e tenho adoração pelos livros infantis da Ana Maria Machado que foram traduzidos para o inglês. Em termos de música, Heitor Villa-Lobos é uma influência considerável desde a minha infância. No lado mais selvagem, eu amo Os mutantes, Gal Costa e muitos aspectos da Tropicália. Ainda não estive no Brasil. Tinha esperança de conseguir ir para promover o Eu fico em silêncio, mas infelizmente isso não é viável com a pandemia. Vamos esperar que eu possa realizar esse desejo com o próximo livro.

 

A pandemia afetou a sua forma de trabalhar de alguma maneira? Como?

DO: O ato de escrever e produzir arte é inerentemente uma atividade solitária. O isolamento é uma condição familiar para qualquer pessoa que tenta produzir livros, então a pandemia não atrapalhou o processo para mim. O que foi difícil foi a impossibilidade de promover o livro de fato, já que autógrafos e eventos se tornaram inviáveis. Eu sinto falta da incrível interação olho no olho com os meus leitores.

 

*tanta coisa depende/de um

carrinho de mão/vermelho

esmaltado de água de/chuva

ao lado das galinhas/brancas

(tradução de José Paulo Paes)

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