Crianças são seres políticos. Estamos ouvindo a voz delas?

Estamos às vésperas das eleições municipais de um ano marcado por uma pandemia que escancarou as vulnerabilidades e desigualdades das infâncias brasileiras. E embora não possam votar, crianças e adolescentes são cidadãos e vivenciam o espaço público de uma maneira bem particular. Nesse contexto, ouvi-los e levar em conta suas necessidades e observações deveria ser prioritário para pensar cidades mais acolhedoras, acessíveis e seguras. Com um pouco de orientação, eles podem refletir sobre as bases da democracia e dizer como querem se ver representados. Afinal, política a gente faz o tempo todo, desde pequenos, não é mesmo?

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De acordo com o professor de sociologia da infância Manuel Jacinto Sarmento (em entrevista que abre o livro Quem está na escuta?, Blucher), “as crianças têm opiniões e posições, e essas posições e opiniões são relevantes, para o que se passa, por exemplo, na escola ou na cidade. Ouvir as vozes das crianças no domínio das construções das políticas públicas parece logo algo essencial”.

Ele analisa que a intenção não é transformá-las em pequenos vereadores ou prefeitos, representando políticos adultos, porque isso descaracterizaria a participação infantil. A ideia é que a voz das crianças, “da forma como ela pode ser expressa, tenha influência no domínio da vida em comum”.

Mas como criar espaço para que as crianças participem da construção da vida e do espaço públicos? Algumas iniciativas que podem servir de inspiração nesse sentido se manifestaram justamente por meio do jornalismo e da literatura voltados ao público infantil e infantojuvenil.

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“As crianças e os jovens são integrantes da sociedade, fazem parte dela. Eles frequentam os espaços públicos, parques, praças, ruas, escolas; eles vão ao comércio, eles assistem à TV”, reflete Sabrina Generali, gerente de marketing do Joca, jornal voltado para crianças e adolescentes.

“Nós entendemos que um jornal pra esse público não vai fazer completo sentido se não tiver a participação do próprio público, dizendo o que é de interesse deles, quais são as pautas que eles querem ler, ainda que exista uma equipe jornalística adulta que faz apurações.”

Seguindo essa filosofia, que orienta a concepção e a produção do jornal, o Joca lançou a iniciativa “E aí, prefeitura?”, que é um canal de participação de crianças e jovens de escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo. A ideia é promover debates e refletir sobre o lugar onde eles vivem, além de levantar problemas de acordo com as suas experiências e sugerir soluções e ideias de melhorias para o município.

Os debates são embasados por informações sobre o processo eleitoral, os cargos em jogo na eleição e as responsabilidades dos candidatos eleitos. As propostas resultantes desses encontros serão reunidas pelo Joca e entregues como um documento ao próximo prefeito de São Paulo no início de 2021 (mais informações sobre os prazos e inscrições estão aqui). 

Num momento como o que vivemos, é ainda mais fundamental o entendimento de que as crianças são cidadãs desde que nascem, e não pré-cidadãs. “Elas são integrantes da cidade e da sociedade. Por mais que não tenham poder de voto, as crianças podem influenciar algumas opiniões dentro de casa, podem trazer a perspectiva delas do uso do espaço urbano, por exemplo”, comenta Sabrina, do Joca.

 

“Quando vai a uma praça com a família, o que a criança quer efetivamente? Qual é o lazer que ela quer? O que falta ali? É importante a gente saber seus gostos, seus interesses, seus anseios para o futuro. Para que elas exerçam sua cidadania, precisam de espaços. E nós, como adultos, precisamos também viabilizar esses espaços”. (Sabrina Generali, jornal Joca)

 

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A jornalista Paula Desgualdo, uma das coautoras dos livros Quem manda aqui?  e Eleição dos bichos, da Letrinhas, entende que a participação política da criança deve ser no sentido de uma compreensão do funcionamento do mundo, sempre considerando sua realidade e seus interesses. “Elas trazem ideias novas e criativas pra coisas com as quais nós, adultos, nem sabemos mais lidar. E eu acho fundamental entender que política é estar em relação com as pessoas e as coisas do mundo, se relacionar em grupo e tomar decisões conjuntas”.

Oficina de criação do livro Quem manda aqui?

Produzidos em coautoria, os dois livros envolveram as crianças desde seu processo de criação, que teve início com financiamentos coletivos. Na sequência, os autores realizaram oficinas com crianças de 4 a 11 anos, aproximadamente, em escolas públicas e particulares e bibliotecas de cidades como São Paulo, Florianópolis e Ouro Preto. Assim, elas puderam vivenciar, de maneira lúdica, as situações de participação política que aparecem nas obras, além de ajudar a construir coletivamente a forma e o conteúdo que os livros teriam.

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No Quem manda aqui?, por exemplo, as crianças escolheram quais ilustrações entrariam no livro. Para isso, tentaram várias formas de exercício de poder e escolha, como monarquia, anarquia e democracia, com eleições para definir os desenhos.

“No Eleição dos bichos, as crianças recebiam as máscaras dos bichos, de leão, preguiça, cobra, macaco, coruja. A gente já tinha essa premissa da história, de que os bichos estavam cansados dos mandos e desmandos do leão e decidem fazer uma eleição pra escolher um novo líder da floresta. Então elas começavam a se organizar e a gente orientava para que elas criassem propostas, que os seus animais executariam se fossem eleitos os novos líderes da floresta”, explica Paula Desgualdo.

A jornalista conta que muitos conceitos relacionados à política apareceram nessas dinâmicas, sem necessariamente ser mencionados, como a formação de partidos e de coligação, e os direitos de minorias. “E a forma como tudo isso se dava acabou sendo bem importante para a construção da história no livro. Além disso, pra muitas crianças foi enriquecedor, como uma experiência democrática mesmo, de ter que lidar com as próprias frustrações, com as vontades, tudo aquilo que a gente experimenta em uma eleição democrática”, ela relata.

Ilustração do livro Eleição dos bichos

Paula relata que o principal elemento para trabalhar com crianças de idades tão diferentes foi a escuta. “A gente tinha uma estrutura proposta de atividades, mas que foram apresentadas conforme o que as próprias crianças traziam, as curiosidades, as referências, as informações que elas tinham e desenvolviam. Tudo cabe, a partir da experiência da criança.”

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