Como trabalhar folclore em sala de aula?

Neste ano, o mês do folclore será celebrado em meio aos temores, aos horrores e às incertezas de uma pandemia – até parece coisa de assombração ou de saci. Há uma busca quase instintiva por significados, respostas e direções a seguir. Nesse sentido, o Blog foi em busca de guias e reflexões importantes para os professores sobre como abordar as narrativas folclóricas e aproveitar ao máximo sua riqueza em sala de aula – mesmo que seja virtual. Para isso, conversamos com Januária Cristina Alves, que é escritora e tem vários livros publicados sobre o assunto, e com Rosângela de Albuquerque Mendes Gomes, a Zoca, coordenadora geral da escola Casa da Tia Léa, de Fortaleza.

Para começar, Januária dá uma dimensão da potência dessas narrativas: “O folclore é a voz do povo de um determinado lugar, e isso é extremamente democrático. Num momento em que a nossa democracia está tão em risco, levar o folclore para crianças e jovens revela a possibilidade de se libertar por meio da história que se conta, da imaginação, da criação. Isso é muito libertador.”

Ilustração de Lole para "O Saci", de Monteiro Lobato

Ela também já disse aqui no Blog que “as histórias conferem significado à nossa existência”. Daí também a pertinência das histórias do nosso folclore, que se entretecem à maneira como enxergamos o mundo e tratam de aspectos humanos tão universais quanto primitivos. São histórias ancestrais que, apesar de terem se transformado ao longo do tempo a cada nova “contação”, oferecem um aspecto de continuidade e de ligação com as nossas raízes. Alguma forma de estabilidade, portanto, quando alunos, professores e famílias estão imersos em instabilidades diversas.

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Mas o que é, exatamente, o folclore?

Segundo Januária, “é uma manifestação do inconsciente coletivo de um povo, de uma nação; são referências que simbolizam a maneira de ver, de sentir, de pensar, de se relacionar com a cultura. O folclore são as danças, as músicas, as tradições. Há uma miríade de possibilidades quando se trabalha com folclore”.

No livro Viagem pelo Brasil em 52 histórias (Letrinhas), a autora Silvana Salerno explica que o “folclore, ou cultura popular, é um dos modos de expressão que melhor refletem o pensamento, o sentimento e a atuação de um povo. Transmitido oralmente de geração em geração, ele ajuda a compor a memória da nação, e é a memória que nos dá consciência e autoestima”.

 

Qual a importância do folclore neste momento de pandemia e de aulas remotas?

De acordo com Januária, o folclore e a tradição oral são absolutamente libertadores porque mexem com a nossa imaginação, com emoções e sentimentos. “Num momento difícil e de estresse como este, os bichos e monstros espelham os nossos medos, as histórias nos mostram diferentes maneiras de resolver problemas e enfrentar experiências desafiadoras. O Pedro Malasartes, por exemplo, que é o nosso personagem malandro e bem-humorado, sempre vai achar uma saída para as questões, ainda que não sejam moralmente e eticamente aprovadas, mas elas existem”, afirma. Para ela, independentemente se o tema vai ser trabalhado de maneira presencial ou digital, o mais importante é manter o seu cerne, que são as histórias, os personagens, “esse retrato do povo brasileiro simbolizado numa grande diversidade”.

 

Quais as possíveis maneiras de abordar o folclore em sala de aula (ou na sala virtual)?

Para Rosângela, coordenadora da Casa da Tia Léa, o trabalho com projetos favorece a contextualização da temática do folclore, “uma vez que dá liberdade ao professor de seguir caminhos mais significativos para o grupo de alunos do qual faz parte, podendo trazer para a sala a história cultural dos indivíduos que a compõe”. Ela diz ainda que “este período em que a escola esteve literalmente dentro da casa dos alunos, estabelecendo uma parceria maior com as famílias, tem sido um terreno fértil para captar e repassar conteúdos relativos à cultura popular”.

Januária aponta para uma característica que faz com que o folclore seja muito simples de ser trabalhado tanto em aulas remotas como presenciais, que é a de ser um tema intergeracional. “É muito difícil que um aluno não tenha alguém que tenha ouvido falar de algum personagem do folclore. Avós, tia, vizinho, todo mundo tem uma história de folclore pra contar”, promovendo um fortalecimento de vínculos entre as gerações por meio dessas narrativas, que as envolvem numa mesma herança cultural.

Um caminho interessante que ela aponta é o trabalho com as famílias de personagens. “Esses personagens são tão ricos que podem se dividir em tipos, o que é fascinante. Foi esse critério que usei nos livros da Coleção Personagens do Folclore Brasileiro (FTD). Cada título traz um grupo de personagens que se enquadram numa determinada família: tem o Saci e os animais traquinas, a loira do banheiro e outras assombrações.” Ela sugere que os professores possam fazer essas classificações com inúmeros outros personagens. “O Saci, o Boto, a Cuca, a Mãe d’Água, o Curupira são os mais conhecidos do grande público, mas eu fiz um recorte de 141 personagens no meu livro (Abecedário de personagens do folclore brasileiro, FTD). Teria três vezes mais para incluir, tamanha é a riqueza do nosso folclore. Tem os monstros, tem os que são pessoas que existiram de fato, mas suas histórias foram tão passadas de boca a boca que acabaram virando lendas”. 

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Ilustração de Lole para "O Saci", de Monteiro Lobato

O que é preciso levar em conta ao escolher os livros de folclore de acordo com os segmentos escolares?

Rosângela considera que é fundamental conhecer bem o grupo ao qual se destina a literatura selecionada, pois, em cada fase do desenvolvimento infantil, a criança lida de maneira diferente com o imaginário. “Os personagens das lendas, por exemplo, dependendo da forma como forem abordados, podem causar temor nas crianças da educação infantil. Para elas, é importante apresentar tais personagens de forma lúdica ou com livros que tragam imagens mais próximas do universo infantil”. 

Januária concorda que ninguém sabe melhor do que o próprio professor o que escolher e levar para os seus alunos. Dito isso, ela considera que os critérios podem envolver, por exemplo, a temática, o momento em que se vai trabalhar, histórias cujos elementos levem os estudantes à pesquisa e que tragam questões que muitas vezes não são colocadas pelos alunos. “Sabemos que a literatura tem essa condição de fazer aflorar problemas que nem estão conscientes. E é preciso contar essas histórias com abertura para comentários e discussão.”

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E as questões mais sensíveis, como a violência das histórias, por exemplo? Como abordar?

Januária defende que é preciso levar em conta a maturidade dos alunos e sempre contextualizar as histórias. “Ou pode se repetir o que aconteceu com o Lobato e o racismo, por exemplo. É preciso comentar e contextualizar, a partir da maturidade das crianças, para refletir sobre o conteúdo das histórias”, diz a escritora.

Rosângela acredita que a própria sabedoria popular oferece recursos para isso. “A literatura de cordel, por exemplo, possibilita falar de temáticas mais pesadas através de poesia e rima. É uma maneira de se desenvolver com leveza um trabalho de reflexão e expressão de sentimentos”, ela diz.

Ilustração de Guridi para o livro "O Saci, a origem", de Ilan Brenman

 

O que é importante que as crianças dos diferentes segmentos apreendam dessas leituras?

“Que o saber intuitivo de nossos antepassados foi sendo construído pelas experiências vividas, pelo desejo de explicar o que cientificamente ainda não era acessível ao conhecimento popular, ou ainda para firmar o que era um valor para aquele grupo social, como a defesa da fauna e da flora, as crenças e a hierarquia social”, salienta Rosângela. Ela analisa que “beber” desse conhecimento ajuda as crianças de todos os segmentos “a conhecer suas raízes, a compreender a sua constituição social e a valorizar sua ancestralidade e a cultura popular de seu povo. Afinal, o nosso folclore faz parte da nossa identidade!”.

Para Januária, é importante que os alunos reconheçam as características dos personagens e a estrutura das histórias: seu começo, meio e fim - com uma situação inicial, um conflito e o encaminhamento para a resolução, com final feliz ou não. Além disso, é “importante exercitar a imaginação e a criação; aprender a contar, ouvir e recontar histórias. Isso abre uma possibilidade imensa tanto de leitura como de escrita para as crianças. Esse é um exercício libertador no sentido de que cada história dessa foi contada e recontada à exaustão, o que prova que todos nós também podemos contá-las e recontá-las”.

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É possível trabalhar o folclore em diversas disciplinas?

A coordenadora da Casa da Tia Léa é categórica: “Certamente! Buscar em elementos da cultura popular, de nosso folclore, aquilo que faz eco nos educandos e desperta neles o interesse e a curiosidade será o primeiro passo para se constituir um saber. Se apropriar de conteúdos das diferentes disciplinas para a resolução de problemáticas, como sugere a pedagogia de projetos, tornará a aprendizagem significativa”.

Ela usa como exemplo dessa abordagem um projeto sobre a preservação das matas que enfoque personagens como o Saci ou o Curupira, fazendo um comparativo com a forma como atualmente lidamos com essas questões. “Um projeto assim envolve os conhecimentos de diferentes áreas, como história, ciências naturais, geografia, entre outras, para encontrar formas de solucionar tal problemática.”

Rosângela conta que, na escola Tia Léa, acontece anualmente o projeto de cultura popular, que é vivenciado em todos os níveis. “Cada um trabalha uma temática ou aspecto que contribui para a construção do saber de toda a comunidade escolar: das crianças por meio das vivências e pesquisas, dos funcionários pelo pulsar do tema dentro da escola e das famílias, quando participam do evento cultural com danças, música e teatro, no encerramento do projeto com a festa junina”, ela conta. 

Januária comenta que a primeira ideia que se tem é que o trabalho com folclore é um exercício de língua portuguesa, mas reafirma que esse é um tema multi e transdisciplinar: “Cada personagem é uma lição de geografia e de história, porque, dependendo da região em que se conta aquela história, ele assume características próprias do lugar e do povo dali. Muda a roupa, o comportamento, o próprio desenrolar da história”. Ela cita como exemplo a história da Teiniaguá, uma das mais tradicionais do Rio Grande do Sul. “É uma história interessantíssima, repleta de elementos, de charadas, de aventuras, de amor inclusive. Eu não conseguia parar de ler. Foi uma grande descoberta para mim porque me trouxe o Sul e eu fui criada no Nordeste. Isso é riquíssimo para os meninos.”

Além disso, ela lembra que, na própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as manifestações populares aparecem disseminadas nas áreas de linguagens - incluindo língua portuguesa, artes e educação física - e de ciências humanas, no caso do ensino fundamental, o que já demonstra essa versatilidade de abordagens.  

 

Como outras mídias (filmes, redes sociais, jogos) podem ser aliadas para trabalhar o folclore?

Na opinião de Rosângela, a educação, para se efetivar, precisa acompanhar o tempo real, e a diversidade de mídias e plataformas disponíveis têm um alcance amplo, com enorme potencial de comunicar e informar com descontração e linguagem informal.

“É uma estratégia inteligente, um recurso lúdico e atrativo, que, dependendo da forma usada e se bem contextualizado, enriquece os temas. Na escola Tia Léa nós utilizamos as mídias como estratégia. Levamos as crianças ao teatro, apresentamos histórias e personagens folclóricos também por meio de filmes e vídeos, registramos as vivências por meio de fotos, jogos. Também usamos as mídias para sair dos muros da escola e levar a cultura e o folclore à sociedade, por exemplo, quando promovemos um projeto como o do Dia do Folclore e do Dia do Saci através de outdoor, do Instagram, de jornais”. 

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De acordo com Januária, o folclore tem essa condição de estar presente e poder ser representado por vários gêneros culturais: “Cada personagem do folclore tem uma canção, um poema, uma dança. O próprio cordel retrata muito o folclore. São várias linguagens que podem contar essas histórias. Tem jovens trabalhando com personagens de folclore nos quadrinhos. O Gustavo Rosseb, por exemplo, é um escritor que pegou os personagens do folclore brasileiro e criou uma saga para jovens, a trilogia As aventuras de Tibor Lobato e o livro Missão Carbúnculo (Editora Jangada). É por essas e outras razões que eu considero que o folclore é absolutamente moderno, ao mesmo tempo em que é eterno no que simboliza e representa pra gente como povo”.

 

"Como trabalhar folclore em sala de aula" faz parte de uma série para ajudar educadores, mas também pais e pesquisadores a abordar e refletir sobre grandes questões com as crianças, sejam elas da cultura, clássicos ou sentimentos e emoções

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