Como trabalhar Drummond em sala de aula?

Carlos Drummond de Andrade está na lista de leituras literárias obrigatórias do vestibular da Fuvest, com o livro Claro enigma (2012). Mas, além de ser estudado e analisado por alunos do ensino médio Brasil afora, o autor também escreveu contos, ensaios, artigos e muitas crônicas, e ainda um livro infantil (A história de dois amores). Alguma poesia (2013), seu primeiro livro, foi publicado em 1930 e, a partir daí, sua produção se estendeu ao longo do século 20 e permanece atual, oferecendo respiros de esperança e reflexão sobre quase todos os grandes temas da existência. 

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Ilustração de Atak para o livro infantil O jardim (Letrinhas, 2015), que reúne trechos de poemas e crônicas do poeta em um jardim só dele

O escritor Aílton Krenak, por exemplo, declarou, em seu último livro, A vida não é útil (Companhia das Letras, 2020), que, “quando tudo está entrando em parafuso, você tem que ter alguém pra chamar - eu chamo Drummond”. Krenak revela que o poeta é seu escudo e cita o poema “O homem; as viagens”, do livro As impurezas do branco (2012), para fazer uma analogia com o movimento predatório insaciável do homem sobre o planeta, em plena crise do coronavírus.

Mesmo num ano atípico quanto o que vivemos agora e depois de mais de trinta anos de sua morte, Drummond ainda ressoa e toca os leitores de hoje. Assim, para além do vestibular, como abordar sua obra em sala de aula? Por quais livros e gêneros começar? Como aproximar os leitores de idades variadas da poesia? 

Para falar sobre formas de trabalhar o autor em sala de aula, conversamos com Kátia Melo, que é mestra em Letras pelo Programa de Mestrado Profissional em Letras em Rede Nacional da USP, e Patrícia Souza, que é formada em Letras/Português pela USP e tem mestrado em Filologia e Língua Portuguesa pela mesma instituição. Kátia é professora de língua portuguesa e literatura do fundamental 2 e do médio na EMEF Dom Veremundo Toth, de Paraisópolis, e na EE João Amos Comenius, na Vila Santa Catarina, as duas na cidade de São Paulo. Patrícia atualmente é professora de português do oitavo ano no Colégio Uirapuru, de Sorocaba.

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Ilustração de Atak para o livro O jardim (Letrinhas, 2015)

Qual o melhor gênero para se iniciar na obra de Drummond: a prosa ou a própria poesia?

Patricia Souza: Em relação aos gêneros, acredito que, com os maiores, tanto as crônicas quanto os poemas são ótimos. A escolha deve ser feita pensando nas necessidades da turma e nos objetivos do professor, mas não acredito que haja um mais fácil ou mais difícil, pensando em adolescentes. Eu, particularmente, prefiro a poesia, pela riqueza de leitura e interpretação, pela possibilidade de múltiplas inferências, pelo trabalho com a linguagem poética, enfim. 

Kátia Melo: Certamente, é possível iniciar com a poesia, mesmo para os menores. É só buscar poemas que trabalham rimas, pequenas estrofes, versos e, sobretudo, a musicalidade e o lúdico, aproximando-se do gosto infantil e da vida das crianças. Com os alunos do ensino fundamental 2 e médio, podemos trabalhar temáticas de interesse deles, como o amor, pois nessa faixa etária intensificam-se as relações amorosas adolescentes e eles querem falar sobre isso. 

 

Definido isso, qual livro ou poema pode ser mais adequado para começar o trabalho?

Patricia Souza: Gosto muito de Alguma poesia pra iniciar o trabalho com Drummond, por ser o primeiro dele, com muitos poemas já conhecidos e também por apresentar temas variados. Mas acho mais fácil pensar em poemas específicos ao invés de livros inteiros, porque a diversidade de poemas é muito grande num mesmo livro. Gosto de usar o "Poema das sete faces" com o fundamental pra mostrar as diferentes formas de fazer poesia, as faces da poesia e do poeta, incentivar a interpretação livre e mostrar que poesia não é difícil.

Amo "Canto esponjoso" pra trabalhar a questão da fruição estética, tanto com fundamental 2 quanto com o médio. Geralmente coloco um vídeo que mostra o mar, só com o som do mar, e declamo o poema (que é meu favorito do Drummond). Os alunos se sentem tocados pela experiência e aí consigo explicar o que é fruição estética e o alcance do poema nos sentidos da gente. Pra ensino médio, uso "Congresso Internacional do medo", por exemplo, pra trabalhar interpretação e contexto, discutimos o período entre guerras, e os efeitos do momento histórico na construção de sentidos do poema. E por fim, “No meio do caminho tinha uma pedra”, pra trabalhar metáfora e extrapolar pra situações pessoais. Esse poema também é muito bom pra trabalhar intertextualidade e paródia.

Kátia Melo: Com os mais novos, o livro Menino Drummond (2012), por exemplo, é interessante, assim como os poemas "No meio do caminho" ou "Infância", por exemplo. "Brincar na rua" permite falar dos obstáculos da vida e da vida de uma criança, as brincadeiras, a rua. Já os poemas mais politizados de Drummond, tais como Sentimento do mundo (2012) e A rosa do povo (2012), podemos trabalhar com os mais velhos, a partir de 12 anos, pois tratam de questões universais e existenciais. Esses dois livros compõem justamente a fase mais engajada do Drummond e, por isso, acabam tratando de questões atuais e que provocam o interesse também.

A minha abordagem em sala de aula tratou de quatro eixos temáticos: amor, morte, medo e sociedade. Trabalhei os poemas "Caso do vestido" e "O mito" no eixo temático do amor; "Morte no avião" e "Morte do leiteiro" no eixo temático da morte; "O medo" e "A flor e a náusea" no eixo do medo e da sociedade. A proposta visava discutir com os alunos quais eram suas impressões, experiências e reflexões sobre o mundo contemporâneo a partir da poética drummondiana. 

 

Existe uma maneira eficiente para desfazer a impressão de que a poesia é um gênero difícil?

Patricia Souza: Acredito que o principal, ao se trabalhar poesia, é mostrar que o texto poético tem vida. Não é o que o autor quis dizer, mas o que o texto diz. Isso, na verdade, serve para qualquer gênero, mas penso que, na poesia, isso é mais forte, mais evidente, justamente por causa da linguagem poética. Acredito também que é possível quando mostramos para os alunos que é possível falar a mesma coisa de inúmeras maneiras diferentes, pensando na melhor palavra, nas imagens criadas, na musicalidade, enfim. Deixar o poema falar com a gente, ouvir o que o poema tem pra dizer e, principalmente, em sala de aula, estimular os alunos a dizerem o que o poema lhes conta. Mostrar que não existe uma única leitura, um "gabarito" de interpretação, mas que o texto poético é pra ser lido de diferentes maneiras, porque permite essa multiplicidade de leituras.

Kátia Melo: Sim, num primeiro momento, os alunos realmente acreditavam ser um gênero difícil de compreender e também produzir. Mas, ao fazer roda de leitura, discussão e leitura/escrita compartilhada, em grupos, eles se sentiram confiantes e começaram a perceber que o poema não é um bicho de sete cabeças, mas que, como a música, traz conteúdo, ritmo, expressão e sentimento. Trabalhar poesia no ensino fundamental 2 prepara os estudantes para o aprendizado de literatura no ensino médio, tornando-a prazerosa e compreensível. E a nossa sociedade precisa desse trabalho com poesia.

Eu percebo que as escolas tinham medo de trabalhar poesia justamente por talvez acharem difícil, mas ela é fundamental para nos tornar humanos, é um fator de humanização. Antônio Cândido fala muito sobre isso, é um direito humano e ela nos humaniza. Eu vejo isso com os meus alunos que estão no ensino médio, eles são mais críticos, pensam sobre o outro, analisam os vários lados da questão. Eles são bem preparados porque refletiram sobre questões humanas. 

 

Como contextualizar a obra de um autor que escreveu prolificamente ao longo de tantas décadas?

Patricia Souza: Contextualizar a obra é muito importante, mas não acredito ser essencial em todos os momentos, justamente pelo que defendi acima: o texto fala por si. Mas é claro que conhecer a vida do autor e as circunstâncias da escrita ajuda em muitos momentos. No caso do Drummond, em especial na leitura da poesia social escrita por ele, no período entre guerras. Pra mim, essa contextualização funciona melhor com os alunos do médio, que têm uma visão mais abrangente da linha do tempo e das relações entre Literatura e História. Nessa situação, acredito que é esse o caminho mesmo: aliar os aspectos históricos e biográficos à leitura.

Kátia Melo: O texto de Carlos Drummond de Andrade é uma obra consagrada justamente por tratar de temas universais. Assim, ao fazer a leitura dos poemas de A rosa do povo, pudemos fazer comparações da década de 1940 com o ano de 2018, tanto sobre questões sociais como políticas, porque os discursos, temores e sentimentos se aproximavam. A contextualização se dá através dos assuntos que permeiam a vida dos estudantes, temas que eles trazem para a sala de aula e podem ser explorados através da poesia.  

 

E como aproximar essa obra tão vasta da vida das crianças e dos jovens hoje?

Patricia Souza: Justamente por ser uma obra gigantesca, com muitas faces, acredito que é preciso fazer recortes da obra e selecionar aquilo que dialoga mais com os objetivos do professor, com a maturidade da turma etc. Na obra do Drummond, há muita coisa pra se trabalhar em aula, então acho que o professor precisa ter clareza de onde quer chegar para poder escolher o que trabalhar e como fazer essa aproximação.

Kátia Melo: É possível aproximar os poemas de Carlos Drummond de Andrade das crianças e adolescentes através de rodas de leitura e conversa, nas quais façamos uma escuta ativa e permitamos que os alunos se expressem, questionem, avaliem se gostam ou não do texto, o que pensam a respeito, como querem escrever e o que pretendem expressar. É um trabalho gratificante, pois não se restringe à sala de aula, mas é compartilhado com toda a comunidade. Hoje vejo alunos do oitavo ano de 2018, que agora estão no primeiro ano do ensino médio, e possuem escrita autônoma, ou seja, não precisam do professor para escreverem seus textos, seus poemas. Eles fazem, postam nas redes sociais, em blogs ou guardam em um caderno de poesias. Enfim, escrevem espontaneamente, sem cobranças da escola. 

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Ilustração de Atak para o livro O jardim (Letrinhas, 2015)

Qual a importância de ler Drummond nos dias de hoje, em especial num ano de pandemia e tantos reveses sociais e ambientais?

Patricia Souza: Eu acho Drummond essencial sempre, em qualquer tempo, em qualquer lugar, porque é uma obra atemporal, que trata de assuntos os mais variados. A obra do Drummond dialoga com qualquer leitor, desde os mais novos e novatos na poesia até os mais experientes. A gente encontra poemas que falam de amor, da vida, da infância, da natureza, de amizade, da velhice, de problemas sociais... Tanto há poemas que repercutem o que acontece nos dias de hoje, quanto outros que fazem o leitor se desligar desta realidade e adentrar outras possíveis. Neste momento pandêmico e surreal em que vivemos, a poesia, em especial a do Drummond, se torna uma aliada, eu diria até uma terapia pra gente não enlouquecer.

Kátia Melo: A importância de ler e escrever poesia neste momento é fundamental, pois nos ajuda a ressignificar este momento e fazer a catarse, expressando nossa dor e sentimentos. Durante este período, trabalhei leitura e produção poética com os meus alunos do nono ano, e do primeiro e segundo anos do médio, como forma de poderem compartilhar suas emoções, reflexões e compartilhar conteúdo também. É importante, como eu falei, o efeito catártico e de poder significar todas as experiências, todos os sentimentos negativos, toda dor que a sociedade nos traz hoje e transformar em poesia. E Drummond é essencial para quem começa a ler poesia, justamente por tratar de questões tão humanas e tão presentes em nossa sociedade, tais como a ganância da sociedade capitalista, a brevidade da vida, o amor por interesse, o desejo e o sentimento, o medo da vida. 

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Quais outros autores e obras dialogam com Drummond e podem ser lidos em conjunto?

Patricia Souza: Muita gente dialoga com o Drummond, né? Tô lembrando aqui de A lição do amigo (2015), um volume de cartas trocadas entre Drummond e Mário de Andrade. Outros poetas que também podem ser trabalhados em conjunto: Adélia Prado, José Paulo Paes, Manuel Bandeira…

Kátia Melo: Para os menores, é interessante usar livros como A arca de Noé (2004), de Vinicius de Moraes, Caderno de rimas do João, de Lázaro Ramos, Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, poemas infantis de Olavo Bilac, Fernando Pessoa. Podemos trabalhar "No meio do caminho" com "A porta", do Vinicius, ou com "Trem de ferro", do Bandeira, pois são textos que agradam as crianças e podem ser facilmente interpretados através de atividades lúdicas. Para os mais velhos, Camões pode ser uma opção, com o soneto sobre o amor: "Amor é fogo que arde sem se ver". Assim, trabalhamos não apenas o tema universal, mas também a estrutura: versos decassílabos, esquema de rimas, estrofes em dois quartetos e dois tercetos etc.

 

Como usar outras mídias e tecnologias para despertar o gosto pela obra do poeta?

Patricia Souza: Pensando em outras mídias, acho que o livro digital veio pra ficar. Vídeos de declamações de poemas funcionam muito bem também, por causa da vocalização. Pensando em poesia no geral, trabalhar com música acho bem interessante, em especial com os mais novos, pra mostrar como música e poesia andam juntas.

Kátia Melo: Outras mídias e tecnologias que podemos usar são Youtube, Padlet, blogs e até mesmo as redes sociais, não só para ler e ouvir os poemas, mas também para produzir vídeos de poesia e interpretação dos textos poéticos. 

 

É possível fazer um trabalho interdisciplinar com a obra do poeta? De que maneira?

Patricia Souza: Com certeza é possível trabalhar interdisciplinarmente. Dá pra fazer parcerias maravilhosas com História, em especial no ensino médio; com Arte, com Filosofia, com Geografia, enfim, porque justamente o poema trata da vida da gente, então é possível abordar os temas centrais e os secundários abordados no texto poético de diferentes pontos de vista, não só o das Linguagens e Interpretação de texto.

Kátia Melo: Certamente, pois ao tratar dos temas universais, podemos dialogar com outras disciplinas tais como: Filosofia, História, Sociologia, Arte. Assim, os alunos podem refletir sobre as questões sociais e humanas, produzir textos poéticos e apresentar um trabalho artístico audiovisual para apresentação final. Além de exposições em feira do livro, varal poético, sarau, debate e semana literária. 

 

Todos os livros de Drummond citados nesta reportagem foram publicados pelos selos editoriais Companhia das Letras ou Companhia das Letrinhas.

 

"Como trabalhar Drummond em sala de aula" faz parte de uma série para ajudar educadores, mas também pais e pesquisadores a abordar e refletir sobre grandes questões com as crianças, sejam elas da cultura, clássicos ou sentimentos e emoções

 

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