Como será quando as escolas reabrirem?

Por Lourdes Atié

Considerando a forma como está acontecendo a flexibilização do isolamento social, praticamente em clima compras para as festas natalinas, falar sobre o retorno ao prédio da escola pode parecer mera abstração. Mas vamos considerar que as escolas reconheçam a gravidade da situação e estejam encarando este momento com mais seriedade que os políticos, o comércio e a sociedade em geral, então, precisamos falar sobre o assunto.

(Ilustração Bicho Coletivo)

Na ausência de uma coordenação nacional por parte do Ministério da Educação, assim como os Estados, que ainda não construíram seus planos estratégicos como o assunto exige, tem sido as escolas privadas e algumas redes públicas que estão estabelecendo seus protocolos de acordo com o que está sendo publicado por organismos internacionais ou por meio de informações de países europeus, onde seus estudantes estão retornando às suas escolas.

É urgente criar protocolos e não apenas ficar esperando soluções nas políticas públicas, ainda mais se considerarmos que os ministros de educação na América Latina permanecem no cargo em média por dois anos. E, no caso do governo Bolsonaro, não criou medidas de apoio de financiamento às redes públicas.

É importante reafirmar que o ponto de partida para esta conversa é o reconhecimento do valor do tripé ciência, cultura e educação como o caminho para nos salvar da barbárie que estamos enfrentando. Decidir como voltar para os prédios escolares significa buscar conhecimentos em que a ciência é a base, a serviço do bem comum. É hora de definir as estratégias necessárias que as escolas vão precisar adotar.

Não vamos abrir as escolas porque as famílias precisam voltar para o trabalho ou porque os pais estão estressados com seus filhos em casa, tendo que funcionar como “professores”, o que é uma grande confusão. A escola não é um depósito de crianças e de jovens. Os estudantes não voltarão às escolas para liberar as famílias, para a economia rodar. Temos que combater este equívoco que está exposto na opinião pública em geral. A escola é para ser defendida pela sua potência e não por uma oportunidade de ocasião.  

 

Ao não entendermos que aprender de forma presencial é completamente diferente por meio da tecnologia, temos levado alunos e professores à exaustão, sem reconhecer que compromisso educativo vai além dos conteúdos escolares, envolve aspectos emocionais e sociais.

 

Primeiro é preciso aprender com o que estamos vivendo neste tempo em que, por necessidade de isolamento social, as escolas fecharam e os estudantes seguiram aprendendo em suas casas. Não todos os estudantes. Aqueles mais vulneráveis, os mais pobres, que residem em regiões periféricas ou rurais seguem, na sua maioria, abandonados porque vivem a exclusão digital, sem internet e sem que os dirigentes governamentais ampliem os modelos de acesso, ficando restritos aos recursos digitais, embora tenhamos o rádio, a televisão aberta e até material impresso. A educação brasileira como um todo tem que ajudar a educação pública a combater as desigualdades, buscar a equidade de todos os alunos, por meio da democratização de acesso aos recursos digitais. Para isso, será preciso investimentos substanciais por parte do governo federal. Não existem soluções mágicas!

 

O papel dos educadores

Porém, o que cabe a nós, educadores, que estamos vivendo este tempo tão confuso no “olho do furacão”? Neste momento de pandemia, temos uma grande oportunidade de repensar os modelos que utilizamos para ensinar, bem como a possibilidade de entender melhor como os alunos aprendem em tempos nunca vividos. Um tempo precioso para avaliarmos nossos currículos enciclopédicos e fragmentados, para entender que aprender exige tempo e que os conteúdos precisam ser essencializados. Entender que é focar mais no aprender e menos no ensinar. Tempo de falar menos e interagir mais. É preciso desenvolver autoaprendizagem, para que os estudantes possam aprender a aprender com autonomia, portanto é mais do que dar respostas certas.

Porém, o que tenho visto acontecer Brasil afora é a transposição linear do espaço escolar para a casa dos estudantes. Aulas remotas com tempos, intervalos e recreios, exatamente iguais, como se estivessem na escola presencial. Ao não entendermos que aprender de forma presencial é completamente diferente por meio da tecnologia, temos levado alunos e professores à exaustão, sem reconhecer que compromisso educativo vai além dos conteúdos escolares, envolve aspectos emocionais e sociais. Houve muita improvisação e “gambiarras” tecnológicas. Era uma emergência. Agora temos que avaliar a forma como trabalhamos até aqui para investirmos na metamorfose da escola.

 

Não podemos voltar para a escola de sempre. É preciso calma para planejarmos a metamorfose das escolas que, com certeza, ficarão bastante diferentes daquelas que deixamos quando a pandemia chegou. E, acima de tudo, se perguntar: que escola queremos que nasça?

 

Os professores tiveram que se virar com o que tinham em casa. Aulas remotas foram criadas, com cada professor pagando por tudo. A precariedade de equipamentos, além do gasto de seus recursos tecnológicos, tudo ficou por conta deles. As condições materiais são fundamentais e exigem atenção. Não basta criatividade. Os professores precisam de mais apoio. Inclusive para chegar àqueles estudantes mais pobres que ficaram abandonados, sem qualquer contato da escola que, quando abrir de novo, poderão não voltar. A possibilidade de crescerem os índices de abandono é dado como certo. Não podemos naturalizar esta realidade. Ao contrário! A escola não pode perder nenhum aluno, eles tem os mesmo direitos que os demais.

Não estamos fazendo EAD, mas aulas remotas e podemos afirmar que a tecnologia não é boa nem ruim, é um recurso do nosso tempo, veio para ficar, mas o uso que fazemos dela que determina seu sentido. Fazer algo novo não é só máquina, se não tivermos o que colocar dentro dela. Agora é possível entender que aulas remotas ou EAD não são A solução, mas uma delas, com a certeza de que nada substitui as relações humanas, o protagonismo do professor e o olho no olho. A forma de funcionar da escola do presente não será mais desta ou daquela forma, e sim as múltiplas formas de aprender que vamos viver neste retorno. Por isso a mudança da escola como conhecemos se tornou inevitável.

 

A metamorfose da escola: como ela deverá ser?

Agora é preciso planejar a volta para o prédio escolar com prudência e de acordo com cada localidade, em sintonia com os conhecimentos científicos que definem os protocolos internacionais. É tempo de urgência, mas não de pressa. Não podemos voltar para a escola de sempre. É preciso calma para planejarmos a metamorfose das escolas que, com certeza, ficarão bastante diferentes daquelas que deixamos quando a pandemia chegou. E, acima de tudo, se perguntar: que escola queremos que nasça?

Ninguém estava preparado para esta transição digital e em meio a tanta desigualdade. Planejar esta volta significa reconhecer que nada substitui a escola, que exige o equilíbrio entre instrução e cuidado. Assim, nascerá uma escola com outras possibilidades de espaço, tempo e que mescla o presencial com o remoto. Aquela instituição centralizada na sala de aula vai mudar para ser distribuída em diversos espaços de aprender.

 

Não vamos perder a oportunidade de desenhar uma outra escola, repensando o modelo transmissivo, em que os espaços de aprender sejam diversificados e não apenas no ambiente escolar, mas também na comunidade.

 

Mas é importante deixar claro que o tal modelo híbrido que alguns governos estaduais estão defendendo com ensino presencial e remoto, afirmando que a aprender não é sinônimo de ir à escola, é só uma forma de se desresponsabilizar pela educação escolar. As aulas serão presenciais e virtuais, mas precisam acontecer na escola, que ainda é o único espaço de aprender no Brasil. Deixar os alunos fora dela, diante de tamanha desigualdade social e educacional, significa reforçar a exclusão de estudantes em condições de maior vulnerabilidade. 

 

Medidas adotadas nas escolas europeias

A título de inspirações, vale a pena indicar algumas medidas que alguns países da Comunidade Europeia estão definindo como relevantes, em função da segurança e como prevenção diante da possibilidade de novos picos de contaminação:

- O planejamento anual precisará ser revisto e atualizado, frente ao ineditismo da situação, assegurando que os estudantes sejam capazes de agir frente aos conhecimentos adquiridos, para deixar de ser uma mera transmissão de conteúdo.

- Os estudantes chegam à escola e permanecem com máscaras nos seus rostos. Os alunos menores não precisam usá-las. Mas professores e todos os demais funcionários das escolas devem estar de máscaras.

- Os alunos passam a ficar organizados em pequenos grupos (alguns países defendem seis alunos, outros quinze), sendo que precisam manter distanciamento em torno de um metro e meio, no mínimo. Desta forma, o ensino será mais personalizado, com o professor dispondo de mais tempo para acompanhar cada estudante, ao mesmo tempo em que assegura a socialização e o isolamento do grupo em caso de contágio.

- Quando não estão em aulas presenciais com seus professores, os alunos passam a estudar, seguindo o mesmo protocolo de grupo, em atividades que podem ser virtuais ou analógicas.

- As atividades desenvolvidas podem acontecer utilizando diferentes tipos de suporte e formatos, como áudio, imagem, vídeo, textos.

- Os espaços de aprender são abertos e flexíveis. Acabou o tempo de confinamento nas salas de aula, que passa a ser apenas um dos ambientes em que os alunos circularão. Significa aprender no pátio, nas áreas externas, no refeitório, na quadra, na cozinha, na biblioteca etc.

- É uma oportunidade também de se trabalhar mais a multidisciplinaridade ou interdisciplinaridade, em regime de co-docência, para resoluções de problemas ou desenvolvimento de projetos.

- Do ponto de vista do funcionamento da escola, todos os dias, na chegada e na saída, será preciso tomar a temperatura, para verificar a existência de febre.

- Controle dos materiais que são levados de casa para a escola. Para evitar contaminação, os materiais dos alunos permanecem na instituição.

- Para evitar aglomerações, o horário de entrada pode ser escalonado ou, se for comum a todos, deverá manter as normas de distanciamento.

- Pais de alunos menores não mais poderão levar seus filhos até a sala de aula, por questões sanitárias.

- As mãos deverão ser lavadas várias vezes por dia, sem secagem de ar quente. Agora exige-se toalhas de papel e frascos de álcool em gel disponíveis em vários pontos para desinfecção.

- A saída dos alunos deverá ser feita mantendo o distanciamento de dois metros.

- Os materiais escolares não poderão mais ser compartilhados. E o processo de higienização dos espaços escolares, materiais e equipamentos passa a acontecer várias vezes ao longo do dia.

- Para reduzir o risco de contágio, atividades ao ar livre são estimuladas e as salas de aula precisam ser abertas e arejadas. Fim das salas com ar-condicionado, pelo menos nos primeiros meses de retorno.

- Nos refeitórios escolares, o uso de forno de micro-ondas fica proibido por ser considerado um ponto crítico de transmissão de vírus.

- Para os alunos menores, recomenda-se que façam suas refeições dentro das salas de aula e os maiores, em horários escalonados, mantendo o isolamento.

 

É hora de repensar o modelo transmissivo

Muito trabalho pela frente e nós vamos superar as dificuldades, errando e acertando porque o mundo inteiro está fazendo o mesmo. O importante é entendermos que, neste momento, precisamos aprender a trabalhar em redes colaborativas, pedindo ajuda e colaborando com quem precisa de apoio. Juntos seremos mais fortes.

É preciso instaurar a confiança no conhecimento e na ciência e saber transmitir isso para as famílias, para que tragam seus filhos de volta à escola, que é um espaço que deve ser defendido por toda sociedade. Sem a escola, é a barbárie!

 

Lugar de estudante é na escola, que é um direto de todos e nada substitui este lugar. Se não tem espaço para todos, em função dos protocolos de distanciamento, então, assim como a situação exigiu a construção de hospitais de campanha, precisaremos lutar pela construção de escolas de campanha, para que nenhum aluno fique para trás.

 

Não vamos perder a oportunidade de desenhar uma outra escola, repensando o modelo transmissivo, em que os espaços de aprender sejam diversificados e não apenas no ambiente escolar, mas também na comunidade. Afinal, as cidades precisam se comprometer mais com a educação, onde crianças e jovens possam se sentir parte da comunidade, cidadãos.

É preciso semear esperança, não de ilusões alienadas, mas aquela que é construída no coletivo. A escola será aquilo que conseguirmos transformar, eliminando o que não faz sentido e chegando à instituição de ensino necessária para o século XXI, que exige vínculo, cooperação e esperança. Sem isso, não haverá futuro!

A volta ao prédio da escola não é eventual, como alguns gestores defendem em regime de um sistema híbrido, no qual os alunos irão à instituição alguns dias da semana. Este é um caminho perverso. Lugar de estudante é na escola, que é um direto de todos e nada substitui este lugar. Se não tem espaço para todos, em função dos protocolos de distanciamento, então, assim como a situação exigiu a construção de hospitais de campanha, precisaremos lutar pela construção de escolas de campanha, para que nenhum aluno fique para trás. Não podemos aceitar perder nenhum aluno. Todos precisam voltar para a escola. Eles têm direito a isso e nada substitui essa experiência.

Diante da inépcia completa de como o Brasil está enfrentando a pandemia causada pela Covid-19, precisamos defender a escola. Não é mais hora de apagar incêndios, mas é uma nova normalidade. Se não for agora, quando será? É uma guerra. Vamos trabalhar pela equidade ou para atender ao mercado? Precisamos definir de que lado vamos nos posicionar. E a hora é agora!

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Lourdes Atié é socióloga, consultora de educação e trabalha com formação de professores

 

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