Como escolher um livro de presente para uma criança?

Diante da enorme quantidade de livros infantis que chegam às prateleiras das livrarias todos os anos, pode ser um grande desafio tentar escolher um título para dar de presente a uma criança. O que é preciso levar em conta na hora de fazer essa escolha? Por onde começar e quais caminhos seguir? Por que escolher determinado texto e ilustração para uma criança?

LEIA MAIS: Como é comemorado o Dia das Crianças pelo mundo?

Com frequência, famílias e adultos que desejam presentear livros se baseiam, em primeiro lugar, na idade da criança. Esse pode ser um primeiro critério, mas é preciso ter em mente que crianças de uma mesma faixa etária são muito diferentes umas das outras e terão histórias e experiências bastante diversas com os livros e a leitura.

Detalhe da capa de A menina dos livros, da Pequena Zahar

De acordo com a idealizadora e diretora geral do Clube Quindim, Renata Nakano, hoje muito se fala das chamadas competências leitoras como alternativa à indicação de livros por faixa etária, que não considera a particularidade única de cada criança. Segundo Renata, elas são uma maneira de classificar o grau de competência de um leitor em formação, considerando sua “idade cronológica, nível de amadurecimento biopsíquico-afetivo-intelectual e grau ou nível de conhecimento/domínio do mecanismo da leitura”, nas palavras de Nelly Novaes Coelho.

Ou seja, competências leitoras são “estágios” do desenvolvimento e da experiência de leitura de uma criança. Porém, nem todo mundo tem esse conhecimento. Assim, apesar de considerar muito estreita a classificação por idade, a editora da Pequena Zahar, Ana Paula Tavares, concorda que existe uma necessidade de famílias e educadores na hora de fazer escolhas e não é possível conhecer ou dar conta de tudo que é publicado. “Esse acaba sendo um indicador que ajuda, mas o melhor elemento para orientar a escolha é conhecer a sua criança: os gostos dela, a capacidade crítica, os interesses”, ela orienta.

Rafaela Deiab, coordenadora do departamento de educação do Grupo Companhia das Letras, completa que “há pessoas que estão se aproximando do universo da literatura infantil e ainda têm muita dificuldade para amparar suas escolhas, então as indicações por faixa etária são sugestões iniciais de aproximação. Mas jamais, de modo algum, elas devem ser tomadas como uma prescrição de utilização de um livro apenas para aquela idade”.

Ela esclarece que essas indicações oferecem um parâmetro inicial, mas que, a partir do momento em que a pessoa começa a acompanhar melhor essa criança e a conhecer o envolvimento dela com a leitura, vai se sentir mais segura para fazer escolhas, independentemente das indicações dos catálogos.

Nesse sentido, Rafaela sugere pensar em alguns eixos: “Vocês vão ler que tipo de história? Histórias bem humoradas? De mistério? Vão ler antes de dormir? Nesse caso, um livro com uma história é bacana? Ou talvez um desafio maior, uma aventura em capítulos, para ler um capítulo por noite?”. Para ela, a principal dica é: “seja atento aos seus leitores, aos livros que ele gosta de ler, e siga um pouco essa linha, mas sempre proponha novos desafios para ampliar o repertório”, ela orienta.

LEIA MAIS: O Pum e a literatura feita "apenas" para rir

Ilustração de Histórias de Willy, da Pequena Zahar

Renata Nakano também considera importante a busca de obras que agradem o gosto da criança. “Mas, focando na formação da biblioteca pessoal, e lembrando que gosto é algo construído, não perca de vista a bibliodiversidade: obras de diferentes gêneros, com autores de origens distintas, ilustrações com estéticas variadas, temas plurais etc. Aos poucos, oferecemos a oportunidade de a criança entrar contato com esses outros mundos e narrativas, ampliando as possibilidades de despertar um ‘gosto’ mais plural e menos massificado”.

Tanto Renata quanto Rafaela observam ainda que é importante que o livro escolhido sensibilize também o leitor adulto. “Se o que mais forma leitores é o afeto, é importante que aquele que fizer a leitura compartilhada também se encante com aquela obra e, por meio de seu olhar de encantamento, contagie a criança”, afirma Renata.

Rafaela considera inclusive que essa é uma “regra de ouro”: “Nunca compre um livro que você não goste para mediar ou para ler, porque não vai dar certo. Em uma mediação, principalmente com as crianças, você transpõe a relação que tem com o texto. Então às vezes é difícil e ao mesmo tempo desafiador, mas por isso tão bacana, escolher um livro para criança, porque ele tem que dar conta dessa dupla audiência: o gosto do mediador e a própria criança que se relaciona com aquele texto. É preciso pensar em você, mediador, enquanto leitor, e no leitor que você quer agradar”.

Ana Paula conta que, na Pequena Zahar, a classificação dos livros do catálogo é pensada mais de acordo com a fluência leitora da criança - leitura compartilhada (para os leitores que ainda não sabem ler), leitores iniciantes, leitores em processo e leitores fluentes. “Normalmente eu uso mais esses critérios do que as faixas etárias, mas sempre tento manter uma tabela de correspondência entre a fluência leitora e a faixa etária e, dependendo de qual for o caso, recorro a uma ou a outra”.

A editora explica que tenta usar os critérios mais objetivos possíveis para estabelecer essa classificação no catálogo e todas elas podem também ser adotadas por quem deseja escolher um livro. “Para mim, o critério mais objetivo talvez seja a quantidade de texto. Então, um livro com muito texto, por exemplo, vai precisar de um leitor um pouquinho mais maduro e mais fluente, mesmo no caso da leitura compartilhada, porque você não consegue muitas vezes prender a atenção de uma criança muito pequena por um período mais longo”.

LEIA MAIS: Como ler para o bebê?

Ana também leva em conta a estética, o estilo da ilustração e a estrutura narrativa – o quanto o livro se aproxima ou se afasta de uma construção com começo, meio e fim. “Isso também me ajuda a pensar em que tipo de leitor pode compreender essa estrutura, que pode não ser tão linear, por exemplo. Ou o contrário: um conto cumulativo talvez desperte mais o interesse de crianças menores; talvez um leitor um pouco mais crítico e mais fluente acabe achando esse tipo de história um pouco enfadonha”.

Outra “pista” indicada por Ana é a temática do livro. “Não no sentido de evitar temas que seriam ‘proibidos’ para alguma idade, mas de encontrar um público que se identifique ou que se sinta representado por aquele tema. Uma temática que envolva questões próprias da adolescência, por exemplo, talvez tenha mais chance de ser lida por um leitor que se reconheça nesse texto. Embora também haja livros incríveis que talvez tenham sido originalmente escritos para jovens, mas que acabam conquistando leitores adultos também”, ela explica.

 

O que é melhor evitar?

Renata Nakano alerta para que as famílias desconfiem “de obras que tragam uma moral muito demarcada, que desejam ‘ensinar algo’. A literatura de qualidade não busca ‘ensinar’. Ela proporciona vivências, e claro que essas vivências podem despertar aprendizados, mas estes não são fechados. A literatura é feita de vazios em que o leitor se coloca. Se a moral está clara e fechada, há pouco espaço para o leitor ocupar”.

LEIA MAIS: Canais e sites para ficar por dentro da literatura infantil

Detalhe da capa de Livros!, da Pequena Zahar

Ao mesmo tempo, ela considera que, “quando a criança é vista como o futuro, um vir a ser, e não como indivíduo e sujeito da própria história, é comum o equívoco de oferecer apenas obras que tratem de temas relacionados a uma infância idealizada e ingênua. Mas, na era digital, tentar proteger a criança de certos temas ‘indesejáveis’ é até ingênuo: ela está em contato com eles o tempo todo. Precisamos lidar com essas questões, e não fingir que elas não existem e que não afetam a criança.”

Outro ponto de alerta, segundo a idealizadora do Clube Quindim, são obras com personagens licenciados. Ela explica que, além de reproduzirem de maneira recortada algo que a criança já vê na TV, por exemplo, esses livros muitas vezes reforçam clichês e estereótipos, em vez de desenvolver o pensamento crítico e autônomo.

Renata considera ainda que outra dificuldade das pessoas é confundir leitura com alfabetização. “Ler é mais do que decodificar o alfabeto: é decodificar o mundo. É compreender as entrelinhas, os muitos códigos culturais que extrapolam a linguagem verbal. Não é preciso estar alfabetizado para começar a formação leitora.

A especialista diz que é preciso não menosprezar a inteligência e a sensibilidade da infância. “Algumas pessoas acham que, se a criança não entende determinada leitura de uma obra, ela não a compreendeu. Mas ela pode ter compreendido outras questões, que o adulto também não conseguiu enxergar. Muitos livros infantis têm esse potencial de despertar diferentes leituras em diferentes momentos da vida do leitor”.

Por fim, Renata conclui que “a criança vive o presente e é um sujeito, não um futuro. Oferecer obras literárias que despertem a empatia, ampliem sua visão de mundo e contribuam na elaboração interna de sentimentos é reconhecê-la enquanto sujeito em sua potência”.

Leia mais:

+ Como estão as livrarias infantis depois de seis meses de pandemia?

+ 7 livros para homenagear os irmãos

+ O que a ficção pode fazer pela saúde mental das crianças?

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais