Como as nossas crianças estão se sentindo?

Este complexo ano de 2020 vai dar um bom trabalho para ser elaborado emocionalmente, certo? Inclusive por crianças e jovens, que, apesar de não estarem no grupo de maior risco diante da covid-19, estão “suscetíveis às repercussões psicossociais da pandemia”, de acordo com documento elaborado pela Fiocruz sobre esse tema. Ansiedade, irritação, tristeza são algumas das reações mais perceptíveis. 

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Para Belinda Mandelbaum, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, “talvez essa seja uma das faixas mais atingidas da população pela pandemia, pela questão da falta de contato com amigos, da falta de convivência e de espaços. E os profissionais da saúde têm dito que uma das próximas ondas vai ser de saúde mental. Então vamos ter que lidar com essas marcas nas crianças e adolescentes, e tudo isso é preocupante”.

Ilustração de Charlotte Pardi no livro "Pode chorar coração, mas fique inteiro"

Uma pesquisa recente, encomendada pela Fundação Lemann e realizada pelo Datafolha, com famílias de 1.518 alunos de 6 a 18 anos de escolas públicas de todo o Brasil, ilustra bem o panorama do estado emocional dessa população durante a pandemia:

  • 64% dos pais percebem que os filhos estão ansiosos (66% dos pais de meninas e 62%, de meninos)

  • 45% percebem que os estudantes estão irritados 

  • 37% percebem que estão tristes (39% dos pais de meninas e 35%, de meninos)

Ainda que “dificuldades de concentração, irritabilidade, medo, inquietação, tédio, sensação de solidão, alterações no padrão de sono e alimentação” sejam sintomas apresentados com frequência por crianças durante a pandemia (dados da Fiocruz), os números chamam a atenção.

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A professora Belinda aponta alguns possíveis fatores que poderiam contribuir para um número tão significativo de estudantes ansiosos: "A situação de emprego ou desemprego do pai e da mãe, as condições de moradia, o acesso à saúde para tratar da doença e o acesso à internet e à tecnologia para acompanhar as aulas, que é uma enorme expressão das desigualdades neste momento. É evidente que a pandemia não atravessa da mesma forma a vida de todos. E as desigualdades sociais são absolutamente determinantes nessa situação“, afirma a psicanalista.

Coisa de menina x coisa de menino

Outro dado que a pesquisa revela diz respeito a questões de gênero: as meninas ansiosas corresponderiam a 66%, enquanto os meninos, 62%. Elas também estão mais tristes: 39% contra 35% deles. “Eu me pergunto se isso é uma verdade ou se, numa cultura patriarcal e ainda machista como a nossa, os meninos não podem se expressar porque isso é visto como fraqueza, como se não fossem homens o suficiente, como se sentimentos fossem ‘coisa de menina’”, comenta Belinda. 

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As meninas, enquanto isso, se sentiriam mais à vontade ou legitimadas para expressar suas emoções, ansiedades e tristezas. “Por isso é importante que os pais ou cuidadores estejam muito atentos aos sofrimentos das meninas e dos meninos, e abram espaços para discutir essas questões de gênero.”

Ela reforça que o papel da família é fundamental na percepção do estado emocional de todas as crianças. “É muito importante que os adultos estejam abertos para perceber se a criança está mais triste, se dá mostras de ansiedade, de desânimo.” Vale lembrar que as crianças menores se expressam por meio de linguagens diversas, como o desenho, a pintura, os gestos, os olhares - até os silêncios comunicam. Por isso é preciso estar atento. 

De maneira geral, a psicanalista recomenda que os adultos “se mostrem disponíveis para escutar de verdade o que está acontecendo, as dificuldades na escola, o que estão sentindo, a falta dos amigos, os medos que a pandemia traz, as inseguranças em relação a dificuldades econômicas que a família vive ou com alguma situação de doença. Talvez seja preciso voltar aos temas diversas vezes. Mas o fato de sentir que compartilha esses sentimentos por meio de conversa e diálogo é algo muito aliviador para a criança”.

Segundo ela, o diálogo e a conversa também ajudam as crianças a entender as preocupações dos adultos, que têm estado muito sobrecarregados. O momento pede que todos se permitam sentir as mais diversas emoções e sofrimentos e abram espaço para eles.

Assim, nomeando e acolhendo os sentimentos e tendo abertura para falar sobre eles, as crianças começam a aceitar que as dificuldades fazem parte da vida e, aos poucos, desenvolvem estratégias para lidar com elas.

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