Como as escolas estão se adaptando à quarentena?

A pandemia de coronavírus virou a rotina de todos de cabeça para baixo - e com as escolas não foi diferente. Em pouquíssimos dias, equipes pedagógicas tiveram de repensar todo o conteúdo e tornar-se os melhores amigos da tecnologia, essencial para continuar com as aulas à distância. "Essa pandemia exigiu que, em menos de uma semana, a escola tivesse que se preparar para oferecer aulas online e utilizar a plataforma como ferramenta para gerar aprendizagem. Acredito que a maior lição foi conhecer melhor a nós mesmos, pois o desafio bateu à porta e entrou, sem perguntar se estávamos ou não preparados para recebê-lo. Intuo que isso aconteceu com muitos que trabalham com educação", opina Flávio Sandi, diretor do Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba (PR).

(Crédito: Annie Spratt/Unsplash)

Nessa escola, que prioriza muito mais o contato entre as pessoas no dia a dia do que a tecnologia, foi necessário mudar completamente o modo como se encaminhava o processo ensino-aprendizagem, o que exigiu novas habilidades de professores e estudantes. "Não se pode fazer a transposição literal da aula na escola para o ambiente virtual. Foi necessário redimensionar vários elementos do processo: a duração do tempo de aula; disponibilizar objetos digitais de aprendizagens; adequar as ferramentas da plataforma ao propósito da aula - um fórum, dependendo do objetivo, é mais adequado que um chat e uma videoaula pode ser uma excelente ferramenta para um determinado objetivo, mas pode não ser a mais adequada para outros", explica. "Outro ponto que foi necessário adaptar foram os horários de interação dos professores com os estudantes. Na medida em que vamos recebendo feedback, vamos retroalimentando o processo com ajustes", complementa Sandi.


 

Flexibilização de tempo e muitos ajustes

Ajuste com certeza é a palavra-chave nesse processo. Ninguém estava preparado, as escolas estão testando diversos meios, as famílias estão se adaptando e, assim, são necessários muitos ajustes no caminho. "A escola não diminuiu o que propõe, mas é um momento de flexibilização em termos de tempo, produção e possibilidade de aprofundamento nas atividades de cada estudante e suas famílias. A escola leva tudo isso em consideração e tem conversado bastante com as famílias para entender como podem ajudar, considerando o contexto de cada um", afirma Graziela Miê Lopes, diretora geral da Escola Lumiar, em São Paulo (SP).

A Lumiar tem uma proposta diferente, toda por projetos, e já fazia bastante uso da tecnologia para registro e avaliação de sua metodologia. Ainda assim, também teve de repensar tudo para trazer conteúdos relacionados ao que as crianças estão vivendo e à distância. Os alunos da educação infantil recebem todos os dias vídeos das professoras e diversas atividades, que os pais registram em foto e vídeo e mandam pela plataforma da escola, além de encontro online semanal com a turma. No ensino fundamental, os estudantes têm diariamente uma rotina de projetos a serem feitos e contam com aula ao vivo todas as manhãs para explicar as tarefas do dia, plantão das 8h às 16h para tirar dúvidas, encontros diários com a professora e ainda um encontro semanal da turma toda.

São links que não acabam mais, contudo, dessa maneira os alunos sentem-se amparados. Mas e os pais? "Acordo minha filha todos os dias às 7h30 para não quebrar a rotina. Eu ajudo nas tarefas e, ainda assim, não dá para acabar pela manhã, porque tem que contextualizar, explicar. É puxado, demandante, mas muito bom. Sinto que não estamos perdendo tempo em joguinhos repetitivos", diz Lariza Squeff, 46 anos, empresária, mãe de Lorena, 9.

 

Laços mais estreitos entre pais e professores

Na primeira semana de quarentena com tarefas da escola, todos os grupos de pais no whatsapp bombaram com dúvidas, pedidos de ajuda e mensagens de "nossa, não sirvo para homeschooling". A advogada Thais Sandoval, 38 anos, não está satisfeita com a rotina de tarefas de sua filha Maria Eduarda, 9. Ela sente falta, principalmente, de um suporte da escola e feedback da professora. "As crianças têm que mandar as atividades na plataforma, mas não existe uma cobrança da professora nem retorno sobre o que já fizeram. Os pais estão bem perdidos por não terem um suporte da escola. A maioria está fazendo se der, sem compromisso diário, até porque a plataforma é complexa e nada didática", desabafa.

 

"Sairemos fortalecidos dessa experiência, valorizando ainda mais as relações presenciais, para retornarmos à normalidade com tranquilidade" (Leda Abbud, coordenadora pedagógica da educação infantil no Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo)

 

Por isso é tão importante que as escolas estejam abertas a ouvir as famílias, entender que a rotina de todas está bagunçada e ajudar as crianças a ter autonomia na resolução das tarefas escolares. É o momento em que professores e pais estão estreitando os vínculos como nunca! "Claro que toda essa situação nos aproximou das famílias e os professores das crianças, que passaram a 'entrar' na casa deles um pouco a cada dia, conhecendo filhos, animais de estimação e espaços da casa. Os registros tanto dos professores quanto os das crianças irão permanecer para todos como marcas perenes e positivas desse período. Acho que sairemos fortalecidos dessa experiência, valorizando ainda mais as relações presenciais, para retornarmos à normalidade com tranquilidade", defende Leda Abbud, coordenadora pedagógica da educação infantil no Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo (SP).

 

O lado bom

Como tudo nessa quarentena, precisamos tirar algo de bom para não enlouquecer. E no que diz respeito às tarefas escolares em casa, isso é possível tanto para coordenadores, professores, pais e alunos. A escola repensa estratégias, professores abusam da criatividade, pais conhecem e entendem mais o que seus filhos vivem no ambiente escolar e as crianças compreendem a importância da figura do educador, do dia a dia na escola e da troca com os amigos.

"Para a escola, fica o grande aprendizado de quão potente é o ambiente virtual desde que ele estabeleça um bom contato com os alunos. O mais importante disso tudo é não perder o foco, preservar a essência da escola, preservar o vínculo com as famílias e inovar. É um momento desafiador, mas que abre muitas portas para a criatividade e todos os envolvidos na educação sairão com grandes experiências desse período", conclui Fabia Antunes, coordenadora geral do ensino fundamental - anos finais da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo (SP). 

(Reportagem e texto de Fernanda Montano)

 

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