Como as crianças com deficiência leem literatura?

Cada criança que lê um livro cria uma ponte de mão dupla com a narrativa, de acordo com sua percepção de mundo, seu contexto e repertório, que, ao mesmo tempo, são também enriquecidos e ampliados pela experiência leitora. E no caso das crianças com deficiência visual e auditiva, além de transtornos de aprendizagem, como a dislexia, e do espectro autista? Como garantir que a relação delas com a literatura também seja concretizada? De que maneira publicações de literatura infantil, familiares, educadores e contadores de história podem estimular e auxiliar para que a diversidade de olhares e a multiplicidade interpretativa dessas crianças sejam levadas em conta?

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Freeimages: Jacque Stengel

No mês em que se comemora o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, a Companhia das Letrinhas conversou com a jornalista Mariana Rosa, que também é educadora e ativista pelos direitos da pessoa com deficiência, e Carla Mauch, coordenadora da organização Mais Diferenças, referência no país na pauta da inclusão nos âmbitos da cultura e da educação. As duas debateram sobre como leem as crianças com deficiência no Brasil.

Mariana chamou a atenção para o fato de a sociedade, em geral, considerar apenas uma forma de ler, realizada por um corpo que corresponde a um ideal, ignorando a questão da multiplicidade de leituras existentes no mundo. Através da experiência com sua filha Alice, que tem paralisia cerebral, Mariana ressalta que, antes de traçarmos um catálogo burocrático de como ler para crianças com deficiência – “pois cada um de nós é uma amostra única” –, é preciso ter em mente que é exatamente no encontro com elas que a leitura ocorre.

“São as crianças que podem nos guiar nesse processo. Enquanto mediadora, não ‘leio para’, mas ‘leio com’, pois é preciso considerar as perspectivas de mundo de cada criança e seu papel ativo na construção dos caminhos para a leitura. E isso enriquece não apenas o mundo da criança, mas o mundo de quem lê com a criança” (Mariana Rosa)

Para ela, a falta de livros em formatos acessíveis acaba por negar não apenas o acesso da criança com deficiência aos livros. “As possibilidades de perspectiva são negadas a nós também. Pois são possibilidades de ler o mundo que a gente ainda não conhece.”

Desde sua fundação em 2005, o Mais Diferenças já produziu mais de cinquenta livros gratuitos acessíveis em múltiplos formatos (ver mais abaixo). A coordenadora da organização aponta que, ainda que sejam necessários investimento e pesquisa nesse sentido, “isso possibilita que o livro seja um bem público e comum, disponível para todos, mas também possibilita a todos nós lermos de muitas e diferentes formas”.

Para ampliar o diálogo sobre esse tema urgente e complexo, o Blog foi atrás de outras opiniões e experiências sobre o processo de leitura de crianças com deficiência e também com transtorno de aprendizagem.

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Primeiramente, é preciso ressaltar que, assim como a leitura, a acessibilidade é um direito, inclusive previsto na declaração dos direitos humanos. “Não estamos falando de favor, de agrado, estamos falando de direito e existe um arcabouço legal amparando isso. Mas, infelizmente, a maior parte dos conteúdos de literatura ainda não está disponível para a população com deficiência, que acaba tendo esse direito de acesso ao bem cultural negado”, pontua Claudio Rubino, coordenador do programa de acessibilidade do Instituto Tomie Ohtake.

 

Pra cego ver

Quando se pensa em leitura de crianças com deficiência visual ou baixa visão, o braile é o primeiro recurso que vem à cabeça. Ele é um sistema de leitura tátil pela ponta dos dedos, com seis pontos combinados em relevo que formam 63 caracteres diferentes e devem obedecer a medidas padrão. Porém, além desse sistema, há também os livros falados e os digitais acessíveis, com possibilidade de contraste e ampliação de fonte, e no formato Daisy (Digital Accessible Information System ou sistema de informação digital acessível, em tradução livre).

Referência na produção e distribuição gratuita de livros acessíveis, a Fundação Dorina Nowill disponibiliza mais de 6 mil títulos. Em sua biblioteca, há livros de grandes escritores da literatura infantil brasileira, como Ruth Rocha, Ziraldo, Monteiro Lobato, além de clássicos internacionais.

Os livros falados produzidos ali são gravados em áudio no formato MP3, com edição em faixas para facilitar a navegabilidade e técnicas de audiodescrição - recurso que traduz imagens em palavras, “permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão consigam compreender conteúdos audiovisuais ou imagens estáticas, como fi­lmes, fotografi­as, peças de teatro, entre outros”, de acordo com o site da fundação. A audiodescrição pode ser mixada ao áudio original de filmes, distribuída em fones em teatros, acessada através de texto por softwares leitores de tela em livros digitais e disponibilizada em audioguias, entre outros.

Já os livros digitais Daisy são disponibilizados em CD e permitem o acesso à literatura de maneira rápida e estruturada, com vários níveis de ampliação do texto, ao mesmo tempo em que é possível ouvir, simultaneamente, a voz sintetizada. Esse tipo de livro tem mecanismos de busca, marcadores de texto, soletração, leitura integral de abreviaturas e de sinais, além de pronúncia correta de palavras estrangeiras. A própria fundação desenvolveu o aplicativo Dorina Daisy Reader, ou DDReader, que é aberto e gratuito, para a leitura de livros nesse formato.

Luiz Eduardo Fonseca Dorneles, de 13 anos, é uma das pessoas que usufrui muito do trabalho da fundação com braille. Desde criança, o garoto é frequentador assíduo da Biblioteca Braille Dorina Nowill em Brasília. Sua paixão pela leitura é tão grande que ele a dissemina por aí através de seu trabalho como contador de histórias em saraus e a convite de escolas.

Luiz Eduardo começou a ler nesse formato aos 6 anos, mas seu interesse por literatura nasceu antes mesmo de se alfabetizar, aos 5. Isso porque, depois de um transplante renal, teve de ficar em Porto Alegre por cerca de seis meses, e as histórias lhe fizeram companhia, através de um CD que a tia gravou para ele. Foi ali que Luiz Eduardo aprendeu a gostar de ouvir e de contar histórias.

Mas, fora da Biblioteca Dorina Nowill, Luiz Eduardo relata ser muito difícil encontrar livrarias ou feiras de livros que tenham exemplares em braille.Há uma escassez enorme de livros em braille no nosso país.  Se eu quiser ler um livro mais recente, por exemplo, não vai ter em braille. Então eu tenho que apelar para a tecnologia”, denuncia Luiz Eduardo, que prefere sempre ler nesse formato.

 

Portal do Livro Acessível

Cerca de setenta editoras brasileiras fazem parte do Portal do Livro Acessível. A ideia é auxiliar pessoas com deficiência visual a adquirir livros em formatos acessíveis. No caso do portal, é o epub 3, que permite leitura com voz sintetizada, ampliação de caracteres, diferentes contrastes e impressão em braille. O interessado pode realizar um cadastro e abrir uma solicitação de compra. Se o livro já estiver disponível em formato acessível pela editora parceira da iniciativa, o Portal informará as principais lojas virtuais que comercializam a obra. Caso a obra não se encontre nas lojas virtuais, a editora tem um prazo para disponibilizar o título em formato acessível. 

 

Crianças bilíngues: Libras e Português

Para que uma sessão de contação de história atinja também crianças surdas é possível pensar que bastaria a tradução para a Libras (Língua Brasileira de Sinais) para tornar o evento mais acessível, certo? Mais ou menos. Segundo Liliane Assumpção Oliveira, coordenadora do Colégio Estadual para Surdos Alcindo Fanaya Júnior, em Curitiba, o que acontece muitas vezes é que a criança mais nova ainda está sendo alfabetizada em Libras e não tem domínio completo dessa língua. Por isso, além da apresentação em Libras, recursos corporais e gestuais bem expressivos e elementos de cenografia facilitam a compreensão da criança surda. 

O colégio em que Liliane trabalha é bilíngue, ou seja, por lá, as crianças são alfabetizadas em Libras, que é a primeira língua do surdo, e, mais tarde, em Português. Como a aprendizagem da Língua Portuguesa se dá apenas por memória fotográfica, é um processo mais difícil e lento. Segundo ela, a autonomia na leitura e na escrita do Português ocorre em média a partir do 5º ou 6º ano do ensino fundamental.

Uma opção de leitura para esse público são os títulos de literatura infantil e infantojuvenil desenvolvidos pelo projeto Diversos: livros acessíveis e inclusivos, do Mais Diferenças. São obras como A bolsa amarela, de Lígia Bojunga, e Peter Pan, de J. M. Barrie, com animações e interpretação em Libras, além de trilhas sonoras criadas especialmente para elas, narração, texto em português, audiodescrição e a opção Leitura Fácil, “que traz adequações em relação a linguagem, conteúdo e forma para ampliar a compreensão”, segundo explica o site da organização. São recursos, portanto, que podem enriquecer a experiência leitora de crianças com e sem deficiência.

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Dislexia: como facilitar a leitura

Utilizar uma fonte sem serifa – ou seja, mais reta, sem aquelas pequenas projeções e curvinhas no fim do traço -, o mais simples e objetiva possível, valer-se de todo o potencial narrativo das ilustrações, e pensar em um projeto gráfico que deixe bem claro o caminho que o leitor deve percorrer pelas páginas. Esses são alguns dos recursos que podem facilitar bastante a leitura de uma criança com dislexia (transtorno de aprendizagem na área de leitura e escrita), aponta Nadine Heisler, uma das fundadoras da Domlexia (plataforma on-line que desenvolve conteúdo para disléxicos). Os audiolivros - que oferecem uma leitura interpretada e muito mais atraente do que as ferramentas de leitura disponibilizadas pelo Google, pela Apple ou Microsoft – também são eficazes para estimular o contato da criança disléxica com a literatura.

Mas será que o mercado editorial está dando a devida atenção para esses recursos que podem facilitar o início do percurso de um leitor disléxico? Essa é uma pergunta pertinente, ainda mais se levarmos em consideração a demanda existente para esse público: segundo a Associação Brasileira de Dislexia, o transtorno atinge entre 5% e 17% da população mundial.

Para Nadine, outro fator importante é que o diagnóstico ocorra o mais cedo possível para evitar traumas – o ideal seria entre 6 e 7 anos -, o que nem sempre acontece. “Quando a criança percebe que a classe está aprendendo a ler e a escrever e que ela não está acompanhando, ela mesma começa a se julgar como incompetente, incapaz... Mas a dislexia não tem nada a ver com inteligência”, ela reitera.

O artista visual e professor de processos criativos e ilustração, Lese Pierre, por exemplo, tem 37 anos, mas descobriu a dislexia apenas aos 29. “Aí começou a minha jornada de conhecer essa limitação e lidar com ela”, conta ele, que adora ler. Porém, enfrentar esse caminho na infância sozinho, sem conhecer sua condição, não foi nada fácil: Lese também viveu aquele clássico de ser incompreendido pelos professores, que questionavam como um aluno tão desenvolto como ele não conquistava boas notas.

 

Leitura e autismo: um convite concreto ao mundo do faz de conta

Uma das caraterísticas do Transtorno do Espectro Autista é a dificuldade de imaginar situações, por isso, a literatura pode ser uma aliada importante para desenvolver o contato com o abstrato e o simbólico, explica Mariângela Terra Branco Camargos, do Instituto Agronelli de Desenvolvimento Social. “O autista aprende no concreto. A imaginação, a história deve ser concretizada para que ele possa entender. Então a contação de história com a interpretação teatral, por exemplo, é um excelente método.” Segundo ela, o uso de adereços como fantasia e cenário são bem-vindos para ajudar nesse convite ao mundo do “faz de conta”.

Para ela, há livros que atendem melhor às necessidades das crianças com esse transtorno. Além da letra maiúscula para facilitar a leitura, é preciso levar em conta que, em geral, essas crianças têm grande sensibilidade sensorial e, portanto, um excesso de informações visuais pode atrapalhar.

Ela ressalta ainda que é fundamental estabelecer uma rotina leitora para que a criança com autismo se sinta engajada na atividade. “Uma agenda é um excelente instrumento para concretizar os compromissos que o autista terá durante a semana e dar a ele a previsibilidade do seu cotidiano. Ela deve ser montada com ele e repassada diariamente.”

(Texto por Juliana Simonetti)

 

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