Cem palavras para desvendar o planeta

 

Tudo começou há mais ou menos 4,6 bilhões de anos. Foi quando nasceu o Sol, estrela que possibilitou o surgimento de diversos planetas que orbitam ao seu redor – e, ainda, impulsionou a criação de vida. É nessa época que começa A história da Terra 100 palavras, livro informativo, ou livro-documentário, como o autor e ilustrador Gilles Eduar prefere chamar.

A história é contada a partir de cem palavras disparadoras, assim como na obra Brasil 100 palavras. Para cada um dos termos, há um pequeno texto informativo, um verbete, que traz curiosidades sobre uma planta que só existiu há bilhões de anos ou uma espécie particular de dinossauro. Aos poucos, os leitores – crianças e adultos – conhecem a história da Terra. A ideia é que todos possam aproveitar informação divertida e de qualidade. “A nossa vontade foi de fazer um livro que interessasse a todos, inclusive aos pais, elo absolutamente fundamental entre o livro e a criança”, explica.

 

 

E para produzir e checar as informações do livro, foi essencial o trabalho de toda uma equipe científica. Participaram do projeto a bióloga Maria Guimarães e a pesquisadora de livros informativos e infográficos Ana Paula Campos. Maria Eduar foi quem  teve a ideia de criar um relógio geológico, com design da Paula Carvalho. Monique Schenkels cuidou do projeto gráfico, e o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli orientou a pesquisa.

Assim a arte conversou com a ciência durante os três anos de criação da obra. Foi uma longa jornada de desenhos e redesenhos, já que as muitas descobertas científicas desse período por vezes modificavam alguma cor ou algum formato das plantas ou dos animais retratados. Mesmo assim, a distância temporal com a paisagem conferiu mais liberdade aos artistas. “Por se tratar de seres que nunca ninguém viu, pude me permitir ir longe na interpretação das imagens e principalmente das cores”, diz o ilustrador, que define a busca pelo equilíbrio e pela harmonia como o seu principal desafio nesse trabalho, desafio tão vital e intrínseco à natureza.

 

 

Confira um pouco da conversa com Gilles Eduar a seguir.

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Você chama A história da terra 100 palavras de "livro documentário". Pode explicar esse termo?

"Livro documentário" é uma expressão francesa que faz referência ao que chamamos no Brasil de "livro informativo". Acho o termo em francês bom, pois o livro documentário vai além da informação, pois ele se propõe a contar uma história. Assim, organizando os dados pesquisados, cria-se uma nova relação entre as imagens e desperta-se novos sentidos através da história, da poesia e dos sons (escolhemos inclusive manter o latim para que o leitor pudesse descobrir novas sonoridades).

 

Como surgiu a ideia desse livro, composto por 100 pequenos textos informativos, que, juntos, contam uma história?

Como na obra Brasil 100 palavras, que trata dos biomas brasileiros, este é um livro que tem vários níveis de abordagem. Para mim, um bom livro "infantil" interessa a todas as faixas etárias, uma boa história será sempre uma boa história para todos. Fui recentemente à França e mostrei o projeto para alguns editores e, na visão da maioria, o livro não parece se endereçar exclusivamente a uma faixa etária, o que facilitaria a sua "catalogação". A nossa vontade foi de fazer um livro que interessasse a todos, inclusive aos pais, elo absolutamente fundamental entre o livro e a criança. Cada tempo geológico neste livro, assim como cada bioma no Brasil 100 palavras, é tratado em três páginas duplas. Na primeira, todos os elementos sobre os quais queremos informar estão em cena e se relacionam de maneira ficcional como numa história sem palavras. Na segunda, estão todos os elementos separados com seu devido nome como se fosse um livro de palavras-chave, diversão garantida para os menores, que, além do nome dos bichos ou das plantas, podem reencontrar cada elemento contextualizado na imagem anterior. A terceira página dupla, "para saber mais", em que estão os verbetes com mais informações e curiosidades sobre cada um dos cem elementos do livro, procura entrar em sintonia com as crianças maiores, as quais podem ter até 90 anos ou mais...

 

 

A obra segue um formato semelhante ao Brasil 100 palavras. Como a experiência do primeiro livro contribuiu para a escrita do segundo? O que houve de diferente no processo criativo?

Gostei muito de fazer o Brasil 100 palavras, e gosto muito da ideia de trilogia. Assim, eu me inspirei no formato do primeiro para fazer o segundo (podem esperar por um terceiro). Mas o tema "história da Terra" é muito mais complexo que o dos biomas brasileiros porque lidamos com informações deduzidas de pesquisas muito intensas na área de paleontologia, diferentemente das informações sobre os nossos biomas feitas a partir de uma realidade bem concreta. Assim, o processo criativo foi o mesmo: muitas pesquisas feitas principalmente na internet, em que tivemos que ter o cuidado de comparar, confrontar dados por vezes contraditórios. Por isso contamos com a ajuda de vários colaboradores muito mais informados do que eu, neófito nessa área de conhecimento.

 

Aliás, como aconteceu esse processo? Poderia contar como foram as suas conversas com a Maria Guimarães e com a Ana Paula Campos? Qual era o papel de cada um nesse processo?

A partir de uma primeira pesquisa que fiz, Maria Guimarães, bióloga que já havia da mesma forma, participado do Brasil 100 palavras, corrigiu, enriqueceu e aprofundou os dados que são muito complexos nessa área de pesquisa. O texto foi escrito conjuntamente, de uma maneira rica e colaborativa. Maria tem muito humor e gosto bastante disso. A Ana Paula foi uma indicação da Maria Guimarães. Ela trabalha com infográficos e tem uma tese sobre livros informativos. Sua colaboração foi preciosa. No trabalho de equipe, Maria Eduar teve um papel absolutamente fundamental: além de acompanhar o projeto gráfico de Monique Schenkels, foi quem sugeriu e trabalhou na criação do relógio geológico (design de Paula Carvalho), dos infográficos e das linhas do tempo (design, texto e pesquisa da Ana Paula), o que possibilitou uma visão mais ampla e abrangente sobre esse incrível processo de vida na Terra. Quem nos orientou muitas vezes e avalizou essa grande pesquisa com todo o seu imenso conhecimento em paleontologia foi o professor Luiz Eduardo Anelli. Contamos também com todo o apoio da equipe editorial da Companhia das Letrinhas e do nosso querido assistente Ciríaco, que pacientemente nos acompanhou nessa longa jornada.

 

 

E como foi o processo de ilustração do livro? Houve dificuldades em achar referências para as imagens? Como aconteceu isso tudo?

Os desenhos foram feitos a mão no papel, mas, diferentemente do Brasil 100 palavras, colorido no guache, este livro, História da Terra 100 Palavras, foi colorido digitalmente. Isso nos ajudou muito no processo de ajuste das ilustrações, principalmente facilitando as correções, pois as informações, com o aprofundamento das pesquisas, iam se afinando e muitas, muitas vezes tive que mudar os desenhos devido a uma nova informação. Houve muitas atualizações de dados durante esse processo de mais de três anos e assim pude adaptar as ilustrações para que fossem as mais atuais possíveis neste universo onde surgem novidades praticamente a cada dia. As referências vieram, na sua grande maioria, da internet. Mas o interessante é que, por se tratar de seres que nunca ninguém viu, pude me permitir ir longe na interpretação das imagens e principalmente das cores. As cores são vitais no meu trabalho, pois reconheço o poder que elas têm de criar o inesperado. O mais difícil e desafiador, no entanto, é colocá-las juntas em equilíbrio e harmonia. É um desafio... Como na criação de uma imagem, descobri fazendo este livro que o caminho criativo da natureza em busca de harmonia e equilíbrio é muito complexo. Ele pode ser muito demorado e, às vezes, abrupto e violento. A Terra, como vemos no livro, já passou por cinco extinções. O planeta pode estar fadado a uma sexta extinção, que está sendo provocada por maus hábitos do homem. Como a nossa busca é de equilíbrio e harmonia, desejamos que este livro nos leve a refletir e nos conecte sinceramente com a consciência de nossas práticas e escolhas.

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