Bons livros ajudam a perguntar

Por Renata Penzani

 

Um dia, durante uma atividade na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, o escritor Gustavo Pacheco (autor do premiadíssimo “Alguns humanos”, Tinta da China, 2018) contou sobre um diálogo que teve com a filha de quatro anos na mesa do jantar. "Filha, você quer croutons?", ele perguntou. Ressabiada, ela indagou o que era isso afinal. Quando ele explicou, a menina deu a sentença com a simplicidade ferina que as crianças não economizam quando precisam mostrar que estamos exagerando: "Pai, isso é pão".

 

(Ilustração Bicho Coletivo)

Um tempo atrás, eu caminhava com meu sobrinho de cinco anos pela rua quando ele avistou uma loja de parede lilás. "Olha, tia, é onde vende aquilo que você gosta", disse ele, apontando para a minha tatuagem de lavanda. E o estabelecimento era o quê? Uma lavanderia. Percebem a delicadeza da interpretação? Lavanderias, para uma criança em pleno processo de expansão da linguagem, só podem ser os lugares aonde se vai para conseguir lavandas. Outra coisa não pode ser.

Esses são só dois exemplos banais de como as crianças têm uma capacidade nata de alargar e estreitar o sentido das palavras com naturalidade, e passear entre um gesto e outro como quem pisca. A linguagem que elas criam (e recriam) torna-se sua ferramenta pessoal de entender o mundo, e por isso não carece que nós, adultos, façamos muitas concessões ao nos dirigir a elas, tanto em um diálogo quanto em um livro. Por que ainda hoje se busca simplificar a literatura para crianças? Por que substituir palavras consideradas complexas por outras que tomamos como fáceis se é justamente o não entendimento de algumas coisas que faz faiscar o desejo de adentrar fundo naquele reino desconhecido de palavras e imagens.

Os múltiplos sentidos e as diversas narrativas que emergem da relação entre o texto escrito e o ilustrado dentro de um livro podem ser um convite para abrir as janelas do vocabulário e expandir o repertório de como narrar a vida. Por que não fazer isso com novíssimas - e às vezes desafiadoras - palavras?

Estima-se que, entre os dois e os cinco anos, uma criança tenha em média 40 mil perguntas (Eu garanto: os dados são científicos. Cof cof!). Algumas ficam na ponta da língua, prontas para serem disparadas e explodirem no ar feito bexigas entupidas de água. Outras ficam esperando em um lugar mais fundo, assentando emoções e aguardando o dia em que vão se encontrar com outras questões parecidas. Algumas ainda ficam enterradas em uma parte invisível da criança, que nem ela consegue visualizar, para só mais tarde darem as caras em forma de metafísica filosófica. A questão é: como nós, adultos, jogamos com todas essas perguntas? Como aproveitamos essa curiosidade saborosa sem nos deixarmos levar pela tentação de dar todas as respostas?

A emoção está na busca, não na conclusão

Na verdade, quanto mais convivemos com as crianças, mais fica fácil lembrar que relações honestas são aquelas em que as partes envolvidas compartilham os não saberes e aprendem juntas. Grande parte do aprendizado de ser e estar com uma criança passa pela liberdade de poder não saber ao lado dela, afinal, muitas vezes, ela não quer respostas, e sim compartilhar indagações em um território seguro que inspira confiança e afeto.

No livro “Uma história natural da curiosidade" (Companhia das Letras), o escritor argentino Alberto Manguel desenha um percurso delicioso sobre o desejo humano de querer saber mais. Um saber que não tem a ver com acúmulo de conhecimento histórico, técnico ou científico, mas com o gesto de alimentar esse bicho inquieto que vive dentro de cada interrogação.

Com a certeza possível de quem nunca deixou o eu-criança se afastar do adulto que cresceu, Manguel defende que o ato contínuo de fazer perguntas funciona como uma troca recíproca entre duas pessoas; por isso, ele diz, trata-se de um percurso que não necessita de uma conclusão, já que a verdadeira emoção está na busca, nessa alguma coisa que toma forma enquanto acontece, em cada uma das incontáveis perguntas que aparecem no meio do caminho. "Para as crianças, elas [as perguntas] são tão essenciais para a mente quanto o movimento para o corpo".

Como se cada leitor experimentasse a oportunidade de ser a Alice em seus dias de gigante, ganhamos alguns centímetros conforme nos permitimos nos aproximar das perguntas. "Como se fosse uma inversão da lei da gravidade, a curiosidade faz com que a experiência do mundo e de nós mesmos aumente quanto mais perguntamos se a curiosidade nos ajuda a crescer", diz Manguel.

 

Por que os clássicos encantam tanto?

Quando pensamos nos clássicos da literatura e nos espantamos com sua habilidade de cativar leitores geração após geração, volta e meia esbarramos nas mesmas explicações para esse fenômenos. São livros que ainda não acabaram de dizer o que tinham para dizer, como bem já afirmou o escritor italiano Ìtalo Calvino em seu ensaio “Por que ler os clássicos?” (Companhia das Letras).

Alberto Manguel tem uma saborosa definição que não limita, mas aumenta o sentido da curiosidade que nos impele a querer ler um livro de novo: "Especialmente quando lemos o que, por falta de termos mais precisos, concordamos em chamar de 'grande literatura', nossa capacidade de assimilar o texto em toda a complexidade de suas múltiplas camadas fica aquém de nossas vontades e expectativas, e somos compelidos a voltar ao texto mais uma vez, na esperança de, agora, talvez alcançarmos nosso propósito. Felizmente, nunca o fazemos. Gerações inteiras de leitores não conseguem exaurir esses livros".

Seria precisamente aí que entraríamos nós, adultos, cujo dever que resta é apenas o de aceitar que a beleza da linguagem está em assumir que ela nunca consegue comunicar tudo da mesma forma para dois leitores diferentes. E, já que falamos de perguntas, aqui fica uma delas: será que os livros que apresentamos às crianças estão respondendo mais do que perguntando? Ou será que, para a sorte de todos os envolvidos, eles deixam no pequeno leitor uma sensação de fracassar em querer saber tudo, como diria Manguel? Mais do que isso, quais são essas perguntas? Elas ajudam a crescer alguns centímetros ou apenas nos mantém onde já estávamos antes?

Ao escolher um livro para apresentar às crianças, vale a pena pensar em que horizonte semântico as interrogações daquela obra habitam, pois são elas que vão plantar dúvidas, medos e uma profunda e salutar curiosidade de saber mais. Como disse o escritor Lourenço Mutarelli em um encontro no Sesc Paulista no início de fevereiro, “a literatura é a forma mais profunda que eu conheço de pensar”. Perguntando, pensamos duas vezes.

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Renata Penzani é jornalista, pesquisadora do livro para a infância e autora do blog Garimpo Miúdo, espaço em que compartilha achados da literatura infantil e juvenil.

 

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