As feiras e os festivais literários resistem

Assim como aconteceu com shows e peças de teatro, entre outros eventos presenciais no país e no mundo, neste ano de pandemia de Covid-19 os festivais literários sofreram um grande impacto. Os que não cancelaram a edição de 2020 tiveram de se reinventar partindo para uma experiência virtual, com todas as vantagens e desvantagens que esse formato proporciona. Em um ano em que boa parte da população precisou se isolar em casa e teve nos livros uma de suas poucas companhias – e a cultura, que já vinha sob ataques, teve perdas irreparáveis –, a literatura se mostrou como uma fonte poderosa de resistência. E qual o papel de uma feira ou de um festival literário (em especial, o infantojuvenil) nesse resistir? Que lições a experiência deixa?

Foto de John Mark Smith no Unsplash

“A literatura infantil tem um papel importantíssimo: formar adultos leitores. E esse não é o único, claro, mas um primeiro recorte quase que ‘utilitário’, entendendo a literatura infantil e a formação de leitores como uma ferramenta fundamental para a diminuição das desigualdades e para a construção de um presente cada vez melhor de se viver”, diz Belita Cermelli, diretora e idealizadora do Programa Educativo da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que neste ano ocorre virtualmente de 3 a 6 de dezembro, mas com a Flipinha realizada um pouco antes, de 24 a 27 de novembro.

“Se formos olhar de forma ampla, tivemos um aumento nas vendas de livros pela internet”, afirma Gisele Corrêa, diretora da Flipoços, evento que comemora 15 anos em 2020 e que será realizado de forma virtual de 11 a 15 de novembro. “Isso comprova a grande importância do livro e da leitura para as pessoas também em momentos de solidão e sofrimento.”

Flipoços e FLIP ainda serão realizadas neste final de ano, com atividades online em novembro e dezembro

 

Outros espaços, outras experiências

No entanto, tentar replicar no ambiente online a experiência de divagar por ruas de pedras em uma cidade histórica ou por um pavilhão lotado, esbarrando em nossos autores favoritos, entrando e saindo de conversas e eventos paralelos, é tarefa impossível­. Sentar-se, geralmente sozinho, em frente a uma tela de computador, tablet ou celular não é, definitivamente, a mesma coisa.

“Essa atmosfera envolvente, claro, não tem como levar para um ambiente virtual. Mas tentamos manter no digital pelo menos aquilo que mais nos caracteriza: a diversidade, o ecletismo e a democratização de temas e assuntos que possam atender a um maior número possível de pessoas”, explica Gisele.

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Para Belita, não dá pra substituir a experiência sensorial da Central Flipinha cheia de atividades e a Praça da Matriz tomada por Pés de Livro. “Não se substitui o que a pele sente pelo que os olhos veem, não se transporta o vento, o chão, a presença física das pessoas para uma tela de computador ou celular. Mas tem algo que, sim, podemos manter, ou mesmo ampliar, quando nos aventuramos pelas possibilidades virtuais: as trocas entre as pessoas. E isso tem um valor imenso!”

Belita Cermelli (esquerda), da FLIP, Afonso Borges, do Fliaraxá (foto Daniel Bianchini), e Gisele Corrêa, da Flipoços 

 

As lições que ficam

O curador e idealizador do Fliaraxá (Festival Literário de Araxá), Afonso Borges, fala da experiência de comandar a edição virtual do festival, que aconteceu no final de outubro: “A maior vantagem é conseguir viabilizar um evento como este, em plena pandemia. É um exercício de alteridade, pode ter certeza. Eu recebi centenas de mensagens de agradecimento. A desvantagem é a imensa solidão que a gente sente em um palco vazio, sem público. E na frente de uma tela de TV”. E acrescenta: “Cada live é um exercício de superação. Transmitir afeto em uma live é o mais difícil. Mas eu consegui, tenho certeza que consegui”.

 

“Nos demos conta de que a distância física não é mais barreira e que podemos nos encontrar com mais frequência e de novas formas.” (Belita Cermelli, da FLIP)

 

O formato híbrido (presencial e virtual), aliás, já aparece como uma tendência para os próximos festivais. “Sem dúvida, é uma grande realidade que veio para ficar. Na verdade, na minha opinião ainda há muita coisa por acontecer que nos fará repensar muito a nossa forma de realizar festas e festivais literários”, diz Gisele, da Flipoços. Afonso concorda: “Quando a pandemia atenuar, vou estar num palco com mais um autor presente e dois no telão, no outro lado do mundo. E com auditório cheio. Isso vai ser um gesto natural”.

“O que tinha de mais valor ali é que estávamos uns conectados nos outros. Isso sim conseguimos transportar para o ambiente virtual”, diz Belita, da FLIP. “Nos demos conta de que a distância física não é mais barreira e que podemos nos encontrar com mais frequência e de novas formas.”

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De fato, o deslocamento para locais muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos, como Poços de Caldas (MG), Paraty (RJ) ou Araxá (MG), deixa de ser um obstáculo, e hoje podemos nos conectar com autores novos e consagrados sem precisar sair de casa. Além disso, o tamanho do público passou a ser ilimitado com esse formato. Os números do Fliaraxá confirmam: “Tivemos perto de seis milhões de impressões nas redes sociais. E com 76% do público assistindo pelo celular”, afirma Afonso Borges.

Festival promovido para celebrar os 34 anos da Companhia das Letras

 

Desigualdade e impactos

Apesar de os festivais virtuais terem potencial para atingir um público maior, inclusive no exterior, é importante lembrar que as desigualdades sociais no Brasil – muitas pessoas não têm acesso à internet e a dispositivos de qualidade – ainda são uma barreira para a participação plena nesses eventos.

Outro impacto da pandemia com relação aos festivais de literatura ocorreu diretamente nas cidades onde os eventos acontecem. As economias locais são, muitas vezes, dependentes do turismo trazido por esses eventos, além de todo o trabalho de formação de leitores com crianças e jovens realizado ao longo do ano, como acontece com o Programa Educativo da FLIP, que precisou ser adaptado e fazer campanha de financiamento coletivo para se manter até 2021.

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“Convictos de que ‘Livro na mão é solução!’, fomos atrás de livros e conseguimos distribuir mais de 10 mil exemplares durante a pandemia para os moradores de Paraty, especialmente crianças. Fizemos questão de manter contato, mesmo que virtual, com as crianças que eram atendidas diariamente pela biblioteca antes da pandemia, dando continuidade ao apoio pedagógico e tentando garantir algum bem-estar proporcionado pelas conversas e leituras”, diz Belita.

 

Próximas paradas: Flipocinhos e Flipinha

Depois de ser surpreendido com um lockdown sem precedentes semanas antes do evento acontecer, a Flipoços finalmente estreia sua edição virtual dia 11 de novembro. Serão três salas diferentes de atividades simultâneas, dentre elas o Espaço Sesc Flipocinhos, parceria com o Sesc Minas, que vai oferecer muitas atrações para as crianças. A Companhia das Letrinhas e a Pequena Zahar também são parceiras do evento e estarão presentes oferecendo contação de histórias com a querida dupla Blandina Franco e José Carlos Lollo, um bate-papo com os autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, entre outras atrações. Para participar gratuitamente das atividades é necessário se inscrever no site da Flipoços.

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A Flipinha virtual acontece de 24 a 27 de novembro (uma semana antes da FLIP, de 3 a 6 de dezembro) e vai contar com autores e obras que dialogam com temas atuais como a literatura afro-brasileira e as questões relativas ao corpo e à violência sobre ele. As crianças também poderão dialogar com os autores convidados enviando previamente vídeos com as tags #perguntaproautor e #flipinha2020 para serem exibidos durante as mesas e terem suas respostas ao vivo.

Já a edição virtual da Bienal do Livro de São Paulo vai acontecer entre 7 e 13 de dezembro com o tema “Conectando pessoas e livros”. Para participar, é necessário se inscrever na plataforma da Bienal Virtual do Livro de SP, onde será possível assistir às palestras, comprar livros e realizar negócios. A programação ainda não foi divulgada.

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A Companhia das Letras também criou um festival online para comemorar seus 34 anos: o Celebra Letras! Pelo site Celebra Letras você encontra uma programação especial com exibição de filmes, sessões de autógrafos virtuais, gravações de podcast, contações de histórias, bate-papos com autores, entre outras atividades. O festival já está no ar e acontece até dia 25 de novembro!

E para quem perdeu a programação infantil do Fliaraxá, que contou com lives, brincadeiras, depoimentos, músicas e leituras, pode assistir a tudo no canal do festival no Youtube.  

Confira a agenda dos eventos (todos gratuitos!) com os autores da Companhia das Letrinhas e da Pequena Zahar:

 

CELEBRA LETRAS

Quarta, 11/11, às 17h – Bate-papo sobre a tradição do conto cumulativo na literatura infantil

Com Alexandre Rampazo, Guilherme Karsten e Lourdes Atié. Mediação de Mell Brites

Sábado, 14/11, às 17h – Cabine literária com Emicida (evento exclusivo para quem adquirir o livro autografado pelo site)

Sábado, 21/11, às 15h – Cabine literária com Alexandre Rampazo (evento exclusivo para quem adquirir o livro autografado pelo site)

Sábado 21/11, às 15h – Bate-papo com as autoras Silvana Rando, Flavia Lins e Silva e Blandina Franco. Mediação de Aryane Cararo

Terça, 24/11 – Lançamento do livro Lina, com Angela Leon e Andrés Sandoval. Mediação de Rafaela Deiab

 

ESPAÇO SESC FLIPOCINHOS

Quarta, 11/11, às 12h – Contação de histórias com Blandina Franco e José Carlos Lollo de três livros da coleção Pum mais lançamento de Soltei o Pum na banheira. Oferecimento Companhia das Letrinhas

Quinta, 12/11, às 11h30 – Contação de histórias: Especial Jon Agee, autor de O muro no meio do livro e Vida em Marte, lançamento inédito no festival. Oferecimento Pequena Zahar

Quinta, 12/11, às 17h30 – Invertendo papéis: o reconto na literatura infantil. Conversa com os autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, dos livros Belo, Branco e Cinderelo e Contos de sacisas. Oferecimento Companhia das Letrinhas

Sexta, 13/11, às 10h – Sala de Autores e Lançamentos (ideal para professores, educadores e profissionais da educação). Biografias para crianças: bate-papo sobre os livros Carmen: a grande pequena notável, Mandela, o africano de todas as cores, Martin e Rosa, com Heloisa Seixas e Julia Romeu, mediado por Rafaela Deiab. Oferecimento Pequena Zahar

 

FLIPINHA

Terça, 24/11, às 14h30 – Mesa 2: Território: Mistérios e descobertas. Com Roger Mello, autor de Enreduana, e Nian Freire

Quarta 25/11, às 9h30 – Mesa 3: Pouco importa azul ou rosa, minha infância é mais preciosa. Com Adriana Carranca, autora de Malala, a menina que queria ir para a escola, e Roseli Mendonça

 

(Reportagem e texto de Priscila Corrêa)

 

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